Opinión - Bloomberg

Como a eletrificação pode se tornar a melhor defesa contra a próxima crise do petróleo

Enquanto países asiáticos ampliam estoques estratégicos de petróleo, veículos elétricos surgem como uma alternativa mais barata e duradoura para reduzir a dependência de importações e proteger economias de novos choques energéticos

Energia
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — Se você soubesse que a fábrica local da Coca-Cola estava enfrentando problemas crônicos na cadeia de suprimentos, comprar uma geladeira maior para armazenar mais refrigerante seria uma maneira de lidar com a situação.

A melhor estratégia, no entanto, talvez fosse mudar para a Pepsi.

E, ainda assim, o caminho da “geladeira maior” é o que os governos da Ásia estão seguindo para se protegerem contra qualquer repetição da escassez de petróleo provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz neste ano.

A Índia construirá novos terminais de armazenamento e refinarias para se proteger contra choques futuros, informou o governo neste mês. Planos semelhantes estão sendo desenvolvidos na Indonésia, nas Filipinas, no Paquistão e no Vietnã.

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Isso poderia proporcionar à Ásia emergente – ávida por energia – algo equivalente às reservas estratégicas de petróleo que os países desenvolvidos estabeleceram após a crise do petróleo de 1973 e ao estoque que a China vem acumulando na última década.

Com os Estados Unidos e o Irã mais uma vez trocando ataques nesta semana e ameaçando destruir o frágil acordo de paz assinado há apenas três semanas, essa política de segurança parece simplesmente uma questão de bom senso.


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A média de 3,8 milhões de barris por dia liberados dos estoques de petróleo desde o início da guerra — não muito menos do que os Emirados Árabes Unidos podem produzir em tempos normais — tem sido um fator determinante para a capacidade mundial de superar o conflito.

Se as economias asiáticas tivessem estoques semelhantes, talvez não precisassem passar pelas semanas de trabalho de quatro dias e pelos preços disparados dos combustíveis que marcaram os últimos meses.

Tudo isso é verdade, mas há outra opção que elas não deveriam ignorar: a eletrificação. Se o problema é a dependência excessiva de importações imprevisíveis de petróleo bruto, tanto as reservas estratégicas quanto os veículos elétricos cumprem basicamente a mesma função.

As primeiras protegem você, fornecendo uma fonte alternativa de petróleo em caso de interrupções. Os segundos ajudam, reduzindo desde o início sua necessidade de petróleo e aumentando a segurança energética de sua economia.

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Os governos poderiam se dar ao luxo de avançar com muito mais vigor nessa frente, desviando uma parcela maior de seus gastos com seguros contra choques de petróleo para subsídios a veículos elétricos e redes de recarga, em vez de financiar estoques de petróleo. Acumular reservas de petróleo não é barato.

Aos preços atuais do petróleo bruto, a Índia precisaria gastar cerca de US$ 7,5 bilhões para ampliar seu estoque até o nível de 90 dias, comum em países desenvolvidos. A Indonésia e o Vietnã, com algumas das reservas mais escassas da Ásia, precisariam de mais US$ 8 bilhões.

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Esse é apenas o custo de compra dos barris. Além disso, há os custos de manutenção decorrentes de imobilizar todo esse dinheiro em produtos não utilizados. E há também o custo de oportunidade para as refinarias comerciais: com os barris retidos nas reservas obrigatórias, elas ficam limitadas em sua capacidade de negociar os spreads entre contratos futuros de prazo curto e longo, uma fonte tradicional de receita.

Em uma reserva de 300 milhões de barris, como a atual da Índia, somente essas despesas representariam entre US$ 1,5 bilhão e US$ 3 bilhões por ano, a taxas de juros normais.

A eletrificação é uma alternativa subestimada. Mesmo depois de ter mais que dobrado de tamanho no ano passado, o principal programa de eletrificação de veículos da Índia recebe apenas cerca de US$ 600 milhões anualmente, muito menos do que o custo de manutenção de suas reservas de petróleo existentes.

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Enquanto isso, as perdas que as distribuidoras estatais de petróleo tiveram com a venda de gasolina, diesel e GLP subsidiados durante os três meses da guerra com o Irã são quase 14 vezes maiores do que esse valor.

Ao eliminar permanentemente a demanda por petróleo, cada novo veículo elétrico reduz o volume de estoque que um governo precisa manter para garantir sua segurança.

Atualmente, os carros e caminhões movidos a bateria da China estão substituindo cerca de 1,8 milhão de barris por dia da demanda por petróleo. Se distribuído ao longo de 90 dias, isso equivale às reservas totais de petróleo da Alemanha. Esse número só vai crescer à medida que mais veículos elétricos forem adicionados à frota.

É inevitável que vejamos a expansão das reservas de petróleo na esteira do conflito deste ano, especialmente porque as tensões continuam a agitar o Estreito de Ormuz. Isso dará aos produtores de petróleo um mercado para seus produtos nos próximos anos. O acúmulo de estoques pela China pode ter chegado a entre 1% e 2% da demanda global por petróleo bruto nos últimos anos.

Esses estoques não utilizados não representam, na verdade, consumo no sentido tradicional. O processamento de petróleo bruto mal aumentou na última década, o que indica a quantidade de petróleo que está simplesmente sendo bombeada para tanques e cavernas subterrâneas para o caso de emergências.

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Ainda assim, se os governos quiserem aproveitar ao máximo as reservas que estão acumulando, deveriam distribuí-las de forma mais ampla, garantindo que suas economias consumam menos petróleo bruto.

Com a participação das vendas de veículos elétricos em muitos países asiáticos agora superando a da Europa e até mesmo da China, além de caminhões e scooters movidos a bateria prometendo mais um golpe no transporte convencional, os consumidores já estão votando com os pés. A melhor proteção contra o próximo choque do petróleo é, antes de tudo, não precisar usar tanto petróleo.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

David Fickling é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre mudança climática e energia. Já trabalhou para a Bloomberg News, o Wall Street Journal e o Financial Times.

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