Bloomberg — Andrew Feldman, empreendedor em série do Vale do Silício que literalmente cresceu no campus da Universidade Stanford, já havia participado da venda de três empresas e da abertura de capital de outra. Mas nada se compara à estreia de sua fabricante de chips de IA na quinta-feira (14).
As ações da Cerebras Systems (CBRS), empresa que ele cofundou em 2015, dispararam cerca de 68% na Nasdaq em Nova York. É o maior IPO do ano e atribui à empresa um valor de mercado de aproximadamente US$ 67 bilhões.
Com isso, a participação de Feldman passou a valer US$ 3,2 bilhões, segundo o Índice de Bilionários da Bloomberg, que avalia sua fortuna pela primeira vez. A fatia do cofundador Sean Lie, por sua vez, vale US$ 1,6 bilhão.
“Um dia bom, não é?”, disse Feldman, de 56 anos e CEO da empresa, em entrevista à Bloomberg Television. “É um dos maiores IPOs de tecnologia da história e o maior IPO de semicondutores da história. Não poderíamos estar mais orgulhosos.”
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As fabricantes de chips de IA estão entre as ações mais valorizadas desde que a OpenAI lançou o ChatGPT em novembro de 2022, e a Nvidia (NVDA) se tornou líder absoluta do mercado.
A empresa disparou para se tornar a maior do mundo por valor de mercado, tornando seu cofundador, Jensen Huang, a sétima pessoa mais rica do mundo, com uma fortuna de US$ 186,7 bilhões.
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A Cerebras se diferencia de concorrentes como a Nvidia pelo desenvolvimento de um chip muito maior, que promete desempenho mais rápido do que os que até agora foram a espinha dorsal do desenvolvimento de IA.
Restrições de engenharia limitaram por muito tempo a busca por chips maiores: à medida que os chips crescem fisicamente, a energia necessária para alimentá-los pode também danificá-los.
Ações da Cerebras (CBRS)
Os chips da Cerebras — com o tamanho aproximado de uma folha de papel A4 — se mostraram populares para tarefas de inferência, ou seja, o processo de executar modelos de IA em vez de treiná-los.
“Há uma demanda extraordinária agora por inferência rápida”, disse Feldman na entrevista à Bloomberg TV. “À medida que a IA se torna útil, todo mundo quer que ela seja rápida. Ninguém quer esperar.”
Um porta-voz da Cerebras não quis comentar.
Fã de churrasco
Filho de dois professores de Stanford, Feldman inicialmente cogitou seguir carreira acadêmica antes de optar por uma escola de negócios.
Seus colegas de república na época o convidaram para elaborar um plano financeiro para uma empresa de hardware de redes, e ele entrou como o primeiro funcionário não engenheiro. Um ano e meio depois, quando ele tinha 27 anos, a empresa foi vendida por US$ 280 milhões.
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Sua próxima empresa, a Riverstone Networks, surgiu da entidade resultante da fusão e abriu capital em 2000, em um período de auge das redes de telecomunicações.
Um documento de registro da Cerebras aponta que Feldman se declarou culpado em dezembro de 2007 de uma acusação federal de crime doloso por burlar controles contábeis quando era vice-presidente de marketing da Riverstone. Ele foi condenado a três anos de liberdade condicional e multado em US$ 5.000.
Àquela altura, Feldman já havia seguido em frente para uma nova empresa, a SeaMicro, que desenvolvia projetos de servidores para data centers.

A empresa foi adquirida pela Advanced Micro Devices (AMD) em 2012 por US$ 334 milhões. Após alguns anos na AMD e um tempo com a família, Feldman iniciou seu próximo projeto com uma equipe de quatro ex-colegas da SeaMicro.
Ele começou a trabalhar na Cerebras nos escritórios da firma de venture capital Foundation Capital, que ainda detém uma participação de 7% na fabricante de chips.
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Apaixonado por churrasco, Feldman acendia um defumador nos fundos dos escritórios da Foundation nos primeiros tempos da Cerebras — tradição que manteve à medida que a empresa cresceu, preparando centenas de quilos de costelas e frango em uma festa recente para os funcionários, segundo publicação sua no LinkedIn.
Vários dos primeiros produtos da Cerebras não ganharam tração, mas o lançamento do ChatGPT virou a sorte da empresa com o crescimento da demanda por chips de IA.
A OpenAI lançou seu primeiro modelo que roda em chips da Cerebras em fevereiro, após anunciar uma parceria de longo prazo para comprar mais de 750 megawatts de capacidade computacional da empresa até 2028, em um contrato avaliado em cerca de US$ 20 bilhões.
A Amazon também anunciou em março que começaria a oferecer chips da Cerebras em seus data centers da AWS ainda neste ano. Uma “grande maioria” da receita da empresa no ano passado veio de clientes nos Emirados Árabes Unidos, segundo um documento de registro.
Pacote ‘moonshot’
Feldman é o maior acionista individual da Cerebras, com participação de 4,6%, segundo documento de registro, enquanto Sean Lie detém 2,5% das ações.
O conselho da fabricante de chips aprovou em fevereiro novos pacotes de remuneração “moonshot” para os dois cofundadores, que preveem até três lotes de ações restritas caso a empresa atinja uma série de metas crescentes de valor de mercado.
As ações de Feldman na meta mais ambiciosa do pacote — valor de mercado de US$ 250 bilhões — valeriam mais de US$ 6 bilhões, segundo cálculos da Bloomberg, enquanto as de Lie valeriam mais de US$ 3,6 bilhões.
Feldman não é o único novo bilionário a surgir de uma empresa de chips nos últimos meses. A Nvidia fechou um acordo de US$ 20 bilhões com a startup de chips Groq em dezembro de 2025, licenciando sua tecnologia de inferência e contratando o fundador Jonathan Ross no processo.
A participação de Ross na fabricante de chips havia chegado a US$ 1,1 bilhão nos meses anteriores ao acordo, segundo o índice de riqueza da Bloomberg.
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