Bloomberg Opinion — O paradoxo que atualmente define a economia dos Estados Unidos e a economia global é mais ou menos assim: se os negócios não vão bem, por que as empresas continuam contratando mais funcionários? E se os trabalhadores estão fazendo menos, por que os patrões exigem mais?
Parece haver uma séria discrepância nos dados. O crescimento medido está ruim, mas o mercado de trabalho continua se expandindo. Há também uma crise de produtividade, pelo menos de acordo com as medições usuais, com o crescimento da produtividade ano a ano no vermelho por cinco trimestres consecutivos.
Há uma maneira de entender esses sinais conflitantes: os trabalhadores estão passando por uma grave crise de moral desde a pandemia – e eles realmente estão fazendo menos. Portanto, as empresas acabam precisando contratar mais apenas para manter o ritmo.
Essa hipótese se encaixa com esses sinais econômicos? Com a inflação ainda persistentemente alta no país, o crescimento econômico lento não pode ser devido à demanda agregada insuficiente. É mais provável que se deva a questões de produtividade e de oferta.
O maior desastre natural da última meia década foi a covid-19, que prejudicou não o capital, mas a mão de obra – seja a saúde ou a moral dos trabalhadores.
Alguns funcionários ainda sofrem de covid longa, é claro. Mas a desaceleração da produtividade é mais generalizada. Parte da explicação poderia ser a adoção mais ampla da opção de trabalho em casa?
Sei que há estudos que afirmam que o trabalho remoto aumenta a produtividade, mas até mesmo o autor de um dos artigos mais citados diz que são necessárias mais pesquisas e que muito depende da organização desse acordo.
Enquanto isso, os Estados Unidos estão passando por uma crise de saúde mental, sem dúvida agravada pelo estresse da covid e pelos lockdowns.
A questão da produtividade é ainda mais intrigante. Se a produtividade do trabalhador é baixa, por que continuar contratando? A chave pode ser observar não a produtividade total, mas aquela por hora realmente trabalhada.
Não existe uma medida de produtividade por hora de fato trabalhada. O número oficial, que também não está indo muito bem, mede a produtividade por hora relatada. Mas se o funcionário médio trabalha apenas de duas a três horas por dia – e isso não é implausível – então há muito tempo de sobra no dia do funcionário, principalmente se ele trabalha de casa.
Portanto, considere este experimento mental como uma possível explicação: você é um gerente e notou que os novos contratados tendem a ser mais entusiasmados e esforçados do que os funcionários atuais.
Com base nessa teoria, você decide contratar mais funcionários terceirizados para tarefas bem definidas e de curto prazo. Enquanto isso, você redobra seus esforços para trazer os funcionários ao escritório.
Há alguns sinais de que isso está acontecendo. A Meta (META), por exemplo, está exigindo agora que seus funcionários (não remotos) trabalhem presencialmente três dias por semana a partir de setembro. Eventualmente, à medida que esses e outros ajustes se enraizarem, deverá haver um retorno a padrões mais normais no mercado de trabalho e nos números de crescimento econômico.
Sob a ótica econômica, é intrigante o fato de não haver mais ganhos com o acordo. Ou seja, os trabalhadores concordam em se esforçar mais e os empregadores concordam em pagar mais.
Essa é uma tendência que deveria ser esperada, mas o trabalho remoto dificulta o monitoramento. A inteligência artificial também entrará em ação em algum momento, e os trabalhadores que não estiverem se esforçando mais poderão ter um castigo. Nesse meio tempo, a economia está presa à atual desaceleração da produtividade.
Se o desempenho da produtividade continuar ruim, será mais difícil para o Fed combater a inflação. Por outro lado, na medida em que o mercado de trabalho continua forte e, de certa forma, isolado do aperto do Fed, isso ajuda a explicar por que a economia dos EUA ainda não entrou em recessão.
Esse não é um problema exclusivo dos EUA. A Alemanha relata uma escassez significativa de mão de obra, tanto nos setores qualificados quanto nos menos qualificados.
No entanto, ao mesmo tempo, o país entrou em uma “recessão técnica”, com crescimento econômico baixo ou nulo. Novamente, se o PIB está estável, como essa escassez de mão de obra pode ser real? Na República Tcheca, a combinação de crescimento fraco e mercados de trabalho fortes é ainda mais extrema.
Poucas coisas na macroeconomia são certas. Mas vale a pena considerar a possibilidade de que, pelo menos por um tempo, tenhamos entrado em um mundo novo no qual as antigas correlações não se aplicam mais.
Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Tyler Cowen é colunista da Bloomberg Opinion. É professor de economia na George Mason University e escreve para o blog Marginal Revolution. É coautor de “Talent: How to Identify Energizers, Creatives, and Winners Around the World”.
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