Bloomberg Opinion — Quando as temperaturas congelantes que acometeram o sudeste dos Estados Unidos provocou a apagões no final do ano, alguns culparam a energia limpa. Essa linha de ataque – afirmar que painéis solares e turbinas eólicas são menos confiáveis que usinas de carvão e gás – tornou-se previsível. Mas é uma abordagem errada, e é importante entender o porquê para que evitemos a desaceleração da pressão por um ar mais limpo e uma ação climática mais ousada.
A questão da confiabilidade da eletricidade é crucial e está no cerne dos debates sobre energia. Os apagões em tempestades podem levar ao sofrimento e à morte: no mês passado, no oeste de Nova York, nove cidadãos morreram após falhas de energia elétrica terem cortado o aquecimento de suas casas. Os apagões também resultam em perdas econômicas graves. Evitá-los deve ser prioridade máxima.
A causa mais comum de apagões – o corte de fios – é também a mais visível. Mas há uma fonte de energia que protege contra esse perigo: painéis solares nos telhados. Se uma árvore derrubar os fios ou a rede de energia falhar por outros motivos, os painéis solares com baterias podem ajudar famílias e empresas a encarar um apagão.
É verdade que ter um painel solar em casa não é prático para todos, mas é viável em muito mais lugares do que geralmente se imagina. E o principal motivo pelo qual mais casas e empresas não têm seus próprios painéis solares é político: as localidades dificultam desnecessariamente a obtenção de licenças, e as empresas de energia fazem lobby para impedir que americanos vendam o excedente de energia de volta à rede ou os forçam a aceitar preços muito mais baixos do que as concessionárias recebem por transmitir as mesmas unidades de energia.
Como resultado, o público paga um custo alto: contas elétricas mais altas, apagões perigosos, poluição prejudicial que mata milhares de americanos todos os anos e mudanças no clima que estão agravando eventos climáticos e o sofrimento causado por eles.
O segundo principal motivo de quedas de energia durante condições climáticas extremas é a falha na produção. E mais uma vez, a energia renovável tem vantagens sobre o carvão e o gás em condições climáticas severas.
Para começar, o calor extremo e o gelo afetam as centrais elétricas a carvão e a gás mais rapidamente do que as alimentadas por energia solar e eólica. Durante a frente fria de dezembro, quase 90% das quedas de energia na maior operadora de rede dos EUA foram resultado de falhas na produção de energia a carvão e gás. Se os combustíveis fósseis fossem uma fonte de energia de reserva em vez da fonte primária, haveria poucas ou nenhuma queda de energia.
Os apagões no final do ano foram um eco das falhas na rede alimentada por carvão e gás no Texas há dois anos. Na ocasião, algumas redes alimentadas por energia eólica também falharam, mas as turbinas conseguem suportar temperaturas frias – elas funcionam no Ártico – se forem resistentes a eventos climáticos. O governo do Texas construiu turbinas baratas e o estado sofreu as consequências.
Outra vantagem de confiabilidade que a energia renovável tem sobre o carvão e o gás durante condições climáticas extremas é familiar a qualquer um que entenda um princípio básico de investimento: não aposte todas as fichas em uma coisa só. A energia gerada por combustíveis fósseis está concentrada em um número relativamente pequeno de grandes usinas. Em uma tempestade, se algo der errado em uma delas, mais de um milhão de pessoas podem ficar sem energia.
Por outro lado, a energia solar e eólica é distribuída por muito mais unidades de produção que estão mais dispersas geograficamente, tornando a produção mais resistente diante de condições climáticas extremas e mais capaz de sustentar a falha de unidades individuais.
É verdade que o sol e o vento não estão disponíveis 24 horas por dia, mas esse é um desafio controlável. O armazenamento em baterias e outras tecnologias continuarão evoluindo rapidamente, e a energia que não puder ser armazenada pode ser transmitida – se os EUA construírem as linhas de transmissão de longa distância necessárias para isso.
Por exemplo, a demanda por energia em Chicago atinge o ápice após o pôr-do-sol. E quando os sistemas de aquecimento, ventilação e ar-condicionado (HVAC) no nordeste estão sendo ligados, os painéis solares no sudoeste do país estão no ápice. Só precisamos de mais cabos de alta velocidade para conectar as duas regiões.
Construir essa rede é uma proposta custosa, é claro, e a Lei de Redução da Inflação dos EUA apenas menciona o que é necessário. Mas é imperativo que a capacidade de transmissão acompanhe a capacidade de produção.
Cada tempestade ou incêndio que atingir usinas de combustíveis fósseis é outro lembrete da superioridade da energia solar e eólica em condições climáticas severas; da necessidade de incentivar tanto a produção quanto a transmissão; do absurdo de restringir os americanos de instalar painéis solares e vender energia mais barata e limpa a seus vizinhos; e do crime de permitir que candidatos eleitos lucrem com uma indústria que está adoecendo nossos filhos, matando nossas famílias e colocando as gerações futuras em risco.
A energia solar e eólica já é mais barata que o carvão e o gás em grande parte do país. Quanto mais rápido construirmos uma capacidade de transmissão que nos permita inverter o mix de energia dos Estados Unidos – tornando a energia solar e eólica a principal fonte de energia e os combustíveis fósseis o último recurso – mais confiável será o sistema de energia durante condições climáticas severas, mais baratas ficarão as contas de energia e mais saudáveis e seguras serão as famílias e comunidades.
Michael R. Bloomberg é fundador e proprietário majoritário da Bloomberg LP, controladora da Bloomberg News, Enviado Especial da ONU para Ambições e Soluções Climáticas e presidente do Conselho de Inovação em Defesa dos EUA.
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