Opinión - Bloomberg

Nesta região, as cadeias de suprimentos estão funcionando bem

O comércio entre grandes países asiáticos está crescendo, e os negócios superam as oscilações geopolíticas

Cadeias de abastecimento prosperam quando fabricantes produzem mais e melhores produtos, como aconteceu com China, Japão e Coreia do Sul
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg Opinion — O mundo está se preocupando com os problemas das cadeias de suprimentos globais e a ameaça de desglobalização, já que os Estados Unidos está tentando atrair a atividade fabril de volta para o país, ou o mais perto dele possível.

LEIA +
Não encontrou seu remédio na farmácia? Entenda as causas para a escassez

No entanto, as cadeias de suprimentos realmente mudaram para melhor em alguns lugares – particularmente na Ásia – apesar de todos os desafios desde 2020, quando a covid afetou o comércio global.

A questão não é que as operações das indústrias há muito globalizadas tenham desmoronado ou que esteja ocorrendo uma dissociação de parceiros comerciais, ou que a China esteja apenas cuidando de si mesma. As empresas na Ásia têm se saído melhor em relação às mudanças na geopolítica, focando na construção dos estoques necessários e na diversificação de seus produtos, mantendo, ao mesmo tempo, os laços comerciais tranquilos. O estado sombrio da atividade fabril americana combinado com cadeias de fornecimento asiáticas resilientes trouxe à tona o papel global crucial de gigantes industriais como a Coreia do Sul, China e Japão.

Produtos de alta tecnologia lideraram aumentos

O fluxo de produtos de alta tecnologia, máquinas industriais e bens de capital entre a Coreia do Sul e a China ultrapassou US$ 300 bilhões em 2021, o maior valor desde que os dois países estabeleceram uma relação econômica em 1992, de acordo com o Bank of America (BAC).

PUBLICIDADE
LEIA +
Prazo de entrega de chips volta a cair, mas gargalos persistem

Para as empresas americanas, não foi tão simples. Desde o final de 2020, diversas empresas do S&P 500 reclamaram consistentemente sobre as pressões da cadeia de suprimentos em suas chamadas e apresentações de resultados. Neste mês, executivos do conglomerado americano Dover disseram ter preparado seus clientes para atrasos “em muitas entregas em termos de cadeia de suprimentos”.

Seus pares no Japão e na Coreia do Sul mencionaram o problema muito menos vezes durante esse período. A Hitachi, uma das maiores indústrias do Japão com um enorme negócio na China, observou em sua última conferência de apresentação de resultados em julho que não houve “nenhuma interrupção na cadeia de suprimentos” no primeiro trimestre. Outras grandes empresas falaram sobre medidas tomadas para reformar os fluxos de comércio.

Japão aumentou suas exportações de produtos industriais para a China

Conforme a escala do comércio na Ásia aumentou, a interdependência também aumentou. Matérias-primas, componentes e bens processados e de consumo fluem livremente e em grandes quantidades entre países. E à medida que cresce a demanda chinesa por produtos de maior valor, seus parceiros comerciais mudam o que exportam. O Índice Herfindahl-Hirschman dos analistas do BofA, uma medida de concentração do mercado, mostra que a Coreia do Sul tem enviado maiores volumes de produtos especializados para seu vizinho. Equipamentos industriais, maquinário de precisão e semicondutores representaram quase 40% das exportações da Coreia do Sul nos primeiros seis meses deste ano. As exportações de máquinas e equipamentos elétricos do Japão para a China também aumentaram.

PUBLICIDADE
LEIA +
Inflação e crescimento: o que vem preocupando os CEOs da América Latina?

A realidade é que as cadeias de suprimentos não vêm e vão; elas se expandem e se aprofundam. Elas têm o melhor desempenho quando as economias de escala começam a aumentar, quando os fabricantes produzem mais e melhores produtos – como aconteceu na China, Japão e Coreia do Sul. As indústrias especializam seus produtos ao longo do tempo conforme as necessidades de seus parceiros comerciais evoluem, mais fornecedores e países são atraídos e diferentes produtos são comercializados.

A Coreia do Sul enviou maiores volumes de produtos especializados para a China

Em última instância, os negócios querem fazer negócios, não geopolítica. Os custos da oportunidade de agir com retórica política instável, mudando as linhas de produção e deslocando as fábricas, é muito alto. Isso faz parte do motivo pelo qual continuamos vendo o que deveria ter sido um problema de curto prazo na cadeia de suprimentos se prolongarem – as empresas não estão fazendo grandes mudanças de longo prazo com base no mais recente pronunciamento político.

LEIA +
O chip de US$ 0,50 que está impedindo a produção de carros de US$ 50.000

Mas as empresas – especialmente na Ásia – estão escolhendo se adaptar, acrescentando linhas de produtos e cortando outras, entre outras medidas. Poucas estão de fato voltando a seus locais de origem porque não “mitiga a maioria dos riscos”, conforme indica o relatório anual do Asian Development Bank sobre cadeias de valor globais. força das cadeias de suprimentos está em sua capacidade de se ajustar às mudanças macroeconômicas – como sempre foi.

Para os EUA, a esperança de que um dia a grande cadeia de suprimentos americana vai surgir é mal orientada. A Lei de Redução da Inflação e a Lei de Chips e Ciência do governo Biden visam apoiar os esforços para construir capacidades de fabricação dentro do país. No entanto, os EUA correm o risco de se isolar de grandes grupos de fornecedores globais e aumentar a dependência de seus parceiros comerciais norte-americanos e sul-americanos. Seria sábio agradar os colegas asiáticos também: suas cadeias de suprimentos podem chegar um pouco mais longe.

PUBLICIDADE

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Anjani Trivedi é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre empresas industriais na Ásia. Anteriormente, escrevia para o Wall Street Journal.

Veja mais em Bloomberg.com

PUBLICIDADE

Leia também

América Latina deve concluir ciclo de alta de juros ainda neste ano, diz XP