Mercados

O que diz o mercado sobre o novo CEO da Petrobras, José Mauro Coelho

Ações fecham em queda no dia da posse de José Mauro Coelho, enquanto analistas descartam mudanças na política de preços

Petrobras ganha novo CEO, que indica continuidade do plano estratégico de uma das maiores petroleiras estatais do mundo
14 de Abril, 2022 | 06:39 pm
Tempo de leitura: 4 minutos

São Paulo — O novo CEO da Petrobras, José Mauro Coelho, tomou posse nesta quinta-feira (14), sem despertar no mercado expectativas de um abandono da atual política comercial de cálculo dos preços dos combustíveis, pivô da disparada dos custos de empresas e consumidores e dos índices de inflação.

Em seu primeiro discurso como novo comandante da estatal, ele se mostrou alinhado à retórica do presidente Jair Bolsonaro (PL), com ênfase em menções familiares e religiosas, expressando ainda um compromisso com os principais pontos do plano estratégico conduzido pelo seu antecessor, Joaquim Silva e Luna. As ações preferenciais da estatal (PETR4) fecharam em queda de 1,17%, cotadas a R$ 31,27.

“A eleição de José Mauro Coelho e Márcio Weber [como presidente do conselho de administração] aconteceu como esperado. Conforme discutimos em um relatório recente, ambos são nomes técnicos e não devem defender mudanças materiais na política de preços da Petrobras”, avaliaram os analistas Vicente Falanga, do Bradesco BBI, e Ricardo França, da Ágora Investimentos, em nota enviada aos clientes.

Já os analistas Leonardo Marcondes e Monique Greco, do Itaú BBA, lembraram o contexto da troca de comando da estatal, marcado pela alta volatilidade dos preços do petróleo e de maior competição internacional por produtos refinados, devido às restrições às exportações russas, em meio à guerra com a Ucrânia. Em relatório, eles apontaram ainda a tendência de maior defasagem entre o patamar dos preços domésticos do diesel e as cotações internacionais, uma situação que, se prolongada, pode levar à redução das importações do produto e ao aumento do risco de desabastecimento.

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O Preço de Paridade de Importação (PPI), em vigor desde outubro de 2016, reajusta os preços dos combustíveis com base na cotação internacional do petróleo, variação cambial e custos de importação. Coelho é favorável ao alinhamento de preços de diesel e gasolina ao mercado internacional.

Em seu discurso de posse, o CEO reafirmou a agenda já conhecida da estatal, que inclui a continuidade do seu plano de desinvestimento de ativos e de abertura do mercado de gás natural, o foco na exploração das águas ultraprofundas do pré-sal e a garantia do abastecimento de combustíveis, além das referências aos temas ESG e de governança, como a transição energética e a criação de valor para os acionistas. “A Petrobras não está saindo do refino”.

O risco de interferência política nos rumos da maior petroleira do Brasil em um ano de disputa presidencial é considerado hoje um freio ao ritmo de valorização das ações da Petrobras. “Nenhum presidente tem muita autonomia sobre a política de preços, porque isso está na legislação da empresa e das estatais da época do Temer. Conselheiros e cargos estatutários respondem com patrimônio na física e com próprio patrimônio se fizerem ingerência e manter preços muito fora e abaixo do custo”, comenta Paulo Cunha, especialista no mercado financeiro e CEO da iHUB Investimentos.

A manutenção da regra do repasse integral da alta do barril do petróleo para os preços dos combustíveis é uma das críticas da oposição ao governo federal. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lidera as pesquisas de intenção de voto, à frente de Bolsonaro, já disse que, em um eventual governo, a Petrobras evitaria reajustes atrelados às variações do mercado internacional.

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Confira o discurso do novo CEO da Petrobras durante a posse:

  • Dividendos e royalties: “A Petrobras mais forte e mais valorizada traz maior retorno para seu acionista e para a sociedade brasileira. São mais dividendos pagos ao brasileiro e mais participações governamentais, como royalties, e mais tributos pagos aos estados, municípios e à União, que levam a maior arrecadação desses entes federativos e a maiores investimentos em benefícios do cidadão, gerando mais empregos e mais renda”
  • Preços do mercado: “Trabalharemos pela expansão da carteira global de clientes, pelo desenvolvimento de novos mercados, na redução de gargalos logísticos e pelo aumento da eficiência e competitividades das nossas operações. A prática de preços do mercado é condição necessária para a criação de um ambiente de negócios competitivo para atração de investimentos e novos agentes econômicos do setor, para expansão a infraestrutura do país e garantia do abastecimento”
  • Plano estratégico: “Continuaremos maximizando o valor do portfólio, com foco em ativos de águas profundas e ultraprofundas, priorizando os investimentos de exploração e produção na importante província do pré-sal. Os desinvestimentos continuarão de modo que empresas com porte adequado e com experiência neste tipo de ativo possam dar continuidade da produção ou a extensão da vida útil dos campos e o aumento do fator de recuperação”

Dividendos

Além da eleição do novo CEO, a Assembleia Geral Ordinária (AGO) da estatal aprovou a remuneração aos acionistas relativa ao Exercício Social de 2021 no valor de R$ 7,773202 por ação (ordinária ou preferencial) em circulação. Esse valor inclui as antecipações já realizadas ao longo de 2021 e o dividendo complementar a ser pago a partir do próximo dia 16 de maio, informou a petroleira em comunicado.

O dividendo complementar equivale a R$ 2,8610762 por ação (ordinária ou preferencial) em circulação. Considerando a atualização monetária pela taxa Selic do dia 31 de dezembro até ontem (13), esse valor tem um acréscimo de R$ 0,0811879 por ação. Desta forma, o valor total bruto a ser distribuído aos acionistas, considerando a atualização monetária até hoje, é equivalente a R$ 2,9422641 por ação.

O pagamento do referido dividendo complementar será realizado no próximo dia 16 de maio, para os detentores de ações de emissão da Petrobras negociadas na B3, e a partir de 23 de maio de 2022, para os detentores de American Depositary Receipts (ADRs) negociadas na NYSE.

A data de corte para os detentores de ações de emissão da Petrobras negociadas na B3 foi ontem (13), e a record date para os detentores de ADRs será o dia 18 de abril. As ações da Petrobras começaram hoje a ser negociadas ex-direitos na B3 e as ADRs na NYSE.

(Atualiza às 19h40 com falas do novo CEO durante o discurso de posse)

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Sérgio Ripardo

Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.

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