(Bloomberg Opinion) — (Bloomberg Opinion) O individualismo é bom e o coletivismo é ruim. Foi essa minha primeira conclusão após ler O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek. Todas as experiências de vida desde então confirmaram meu palpite. Isso me deixa ainda mais irritado quando oponentes do individualismo, por ignorância ou má-fé, continuam distorcendo o que ele é.
Uma máxima especialmente enganosa é a que o individualismo é de certa forma equivalente ao egoísmo. Os individualistas pensam apenas em si mesmos, segundo essa narrativa, enquanto pessoas em sociedades coletivistas cuidam de seu grupo.
Na verdade, o oposto está mais próximo da realidade. Essa foi a conclusão dessa pesquisa de quatro psicólogos – Shawn Rhoads, Rebecca Ryan e Abigail Marsh da Georgetown University e Devon Gunter de Harvard
O uso dos dados foi impressionante: os pesquisadores montaram um atlas psicocultural do mundo. Um dos índices aferidos foi o bem-estar objetivo em diferentes países, como patrimônio e saúde, mas também a percepção subjetiva das pessoas de desenvolvimento ou prosperidade das pessoas.
Os pesquisadores também mapearam o mundo seguindo seis marcadores culturais definidos pelo cientista social holandês Geert Hofstede. Alguns países valorizam as hierarquias de poder mais que outros. Alguns são mais “masculinizados” – valorizando conquistas e heroísmo – ao passo que outros prezam pelo consenso e a cooperação. Algumas culturas se sentem mais confortáveis com incertezas e ambiguidades que outras. Alguns focam no longo prazo, outros no curto prazo. Algumas culturas valorizam as restrições, e outros, preferem o prazer.
Do outro lado, temos o individualismo, que marca culturas que valorizam a autonomia pessoal de tomar decisões e buscar satisfação e auto expressão. Em contrapartida, sociedades coletivistas exaltam a subordinação da autonomia pessoal às necessidades do grupo e às funções desempenhadas dentro dele.
Os autores também investigaram o altruísmo, obtendo dados sobre diversas áreas desde trabalho voluntário, atos de gentileza e caridade, doações de sangue, rins ou medula até o tratamento digno de animais.
Após a análise de todos os dados, uma relação se destacou: o individualismo, o bem-estar subjetivo e o altruísmo estão intimamente ligados, conforme os mapas. Por outro lado, países com culturas coletivistas, como a China ou a Ucrânia, tendem a ter uma classificação mais baixa no que diz respeito ao altruísmo.
Se estas são apenas correlações ou se existe uma relação de causa e consequência é uma questão aberta a discussões. Contudo, segundo Marsh, um dos autores, aparentemente o individualismo faz com que as pessoas prosperem, o que, por sua vez, as torna mais altruístas e mais confortável consigo mesmas, virando um círculo virtuoso.
Como um admirador de Hayek, sinto-me mais reconfortado que surpreso. A prioridade coletivista de um grupo é realmente uma forma de discriminação que favorece quem está dentro de um grupo, seja este definido pela genética ou ideologia, e desfavorece pessoas de fora. A “solidariedade” coletivista não é, portanto, totalmente voluntária e inclusiva; a “harmonia” tende a ser forçada e limitada. Ela acaba nas classes do comunismo, nas nações do fascismo e nas seitas do fundamentalismo religioso.
Por outro lado, a ênfase individualista em autonomia e liberdade pessoal pode afrouxar os laços sociais, mas também aumentar a receptividade de pessoas fora do grupo, incluindo completos estranhos. Nesse sentido, o individualismo rima com o cosmopolitismo. Acredito que o Bom Samaritano, da parábola de Jesus, era individualista – e fica feliz ao poder ajudar.
Mas por que algumas culturas são mais individualistas que outras? O desenvolvimento econômico certamente parece ajudar. Quanto mais próspero e seguro uma pessoa estiver, menos ela precisa contar com seu grupo para sobreviver, e mais ela pode buscar objetivos independentes e interagir com novas pessoas. Ainda assim, a economia só pode dar uma parte da resposta, já que alguns países, como o Japão, enriqueceram sem se tornarem individualistas.
Uma explicação mais ambiciosa tem início na Idade Média: há muito tempo e por motivos não relacionados, a Igreja Católica desencorajou antigas tradições como o casamento entre primos e a poligamia. Cumulativamente, e muito antes da Reforma Protestante, essas políticas enfraqueceram as instituições familiares e incentivaram a disseminação de famílias nucleares.
Isso forçou a população do oeste europeu a olhar além de seus grupos e buscarem outras afiliações, incluindo as definições individuais de identidade. A modernidade e as instituições, desde a common law inglesa a economias de mercado, apenas alavancaram a tendência. Isso explicaria por que o individualismo e o altruísmo não são características únicas e predominantes “no Ocidente” – que neste contexto significam culturas originadas em territórios de herança católica, mesmo se forem predominantemente protestantes ou seculares no presente.
Essas informações devem ser animadoras. As origens do individualismo podem ser ocidentais, mas seu futuro parece ser global com sua disseminação a quase todos os lugares. Com sorte, essa disseminação vai levar ainda mais pessoas a sair da servidão, com mentes mais abertas e sendo generosas com outras pessoas, com mais felicidade e liberdade.
Para entrar em contato com o autor deste artigo: Andreas Kluth – akluth1@bloomberg.net
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