Bloomberg Línea Brasil — Na corrida contra as fraudes digitais, a Certta está prestes a triplicar a receita entre os anos de 2024 e o fim de 2026. A alta foi puxada por um salto de 80% só no ano passado e por um crescimento composto de 67% ao ano desde 2022.
Foi também em 2025 que a startup, especializada em prevenção a fraudes digitais, registrou pela primeira vez Ebitda positivo, embalada por um aporte de R$ 50 milhões da L4 Venture Builder, fundo de venture building ligado à B3, fechado em setembro daquele ano.
Hoje a Certta, que atendia sob o nome de CAF até o começo do ano, tem no portfólio mais de 300 clientes, entre Natura, Vivo e Mercado Livre.
O negócio, com tecnologia para reconhecimento facial, validação de documentos, checagem de antecedentes e produtos antifraude, atua com um time enxuto de 340 pessoas, que inclui equipes dedicadas para manter mais de 20 modelos de IA rodando dentro das soluções da empresa.
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Em operação desde 2019, a startup é concorrentes de startups como a Idwall, adquirida nos últimos meses pela Serasa Experian, e da Unico, unicórnio brasileiro no setor e com uma carteira de clientes com mais de 300 empresas, incluindo grandes fintechs e negócios Magazine Luiza, Banco Neon e Vivo.
O ritmo de expansão da startup - e das concorrentes - coincide com uma sofisticação sem precedentes das ameaças cibernéticas, a partir do avanço da inteligência artificial. O Brasil, com a sua criatividade nativa, sempre foi um mercado fértil para criminosos digitais. A AI potencializou, como conta o CEO da Certta, o americano Jason Howard.
“Quando estava na Mastercard, gerenciava toda a linha de negócios global de chargebacks (contestação de compras). Vi fraudes de cartão de crédito no mundo inteiro. E quando perguntava para qualquer grande e-commerce nos EUA qual é o mercado de fraude mais desafiador por transação, a resposta era o Brasil”, disse em entrevista exclusiva à Bloomberg Línea.
“Se você soma isso ao pix, ao movimento de dinheiro mais rápido, à digitalização da biometria e ao uso massivo de dispositivos móveis, tem um cenário único. O Brasil está muito mais avançado que os Estados Unidos nessa dinâmica financeira digital.”
Antes de chegar à Certta, Howard passou quase uma década na Ethoca — startup de prevenção a fraudes fundada pelos canadenses Darryl Green, André Edelbrock e Trevor Clarke e comprada pela Mastercard em 2019.
Ele entrou como chief commercial officer em 2013, liderou o time comercial durante a integração da Ethoca à Mastercard e, entre 2021 e 2022, comandou a unidade de negócios da Ethoca dentro da própria Mastercard, em Austin, no Texas.
Mercado brasileiro
Foi esse mesmo grupo de ex-Ethoca — Green, Edelbrock e Clarke — que, em 2022, liderou o aporte de R$ 80 milhões na então CAF, startup fundada em 2019 em Venâncio Aires (RS) por Leonardo Rebitte e Rafael Viana. Darryl Green assumiu a presidência após o aporte, e meses depois trouxe Howard para o time. Primeiro, como chief revenue officer, desde fevereiro de 2023, na posição de CEO no lugar de Green, que passou a ocupar a cadeira de presidente do conselho.
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Na tese, um negócio global que começaria a avançar por Reino Unido, México, Canadá e Estados Unidos. A realidade mostrou um outro caminho e o Brasil é origem de 95% da receita da startup. Os 5% restantes são de clientes locais que demandam os produtos da startup em outros destinos na América Latina.
A idtech fincou os pés no Brasil e não acompanhou o ritmo de internacionalização de concorrentes locais, como é o caso da Unico. A avaliação interna é de que o mercado brasileiro, por sua complexidade e dimensões, demanda a concentração total dos recursos.
“Há uma realidade pragmática na construção de um negócio”, disse o CEO global. “Estávamos performando extremamente bem no Brasil, então fazia muito mais sentido continuar focando nossos recursos aqui para construir uma escala financeira robusta. Isso é o que nos dá a opção real para, no futuro, considerar detalhadamente para onde queremos ir, em vez de tentar fazer muita coisa cedo demais e pulverizar nossa eficiência”.
Essa cautela com a expansão internacional não se repete na estratégia de produto, onde a Certta acelerou o passo. A startup, que integra e cura mais de 50 fontes de dados e tecnologias diferentes, se apresenta hoje como um “hub de verificação inteligente” — conceito que resume a mudança de posicionamento da marca, batizada até o início do ano de CAF.
O conceito de hub
Na prática, segundo dados internos, a Certta já viabilizou mais de 8 mil jornadas digitais distintas de onboarding e transações desde 2019, direcionando cada caso para a combinação de tecnologias mais adequada ao risco identificado.
“Não se trata mais de ter uma única solução pontual ou um dado isolado. Você precisa empilhar camadas e ser capaz de fazer isso muito rápido”, disse Howard.
Segundo ele, o salto para um modelo orientado por IA nasceu de uma base de orquestração simples, construída ainda no início da operação da Certta no Brasil, que permitia aos clientes desenhar seus próprios fluxos de verificação.
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Esse alicerce sustentou o lançamento, neste ano, de duas novas frentes de produto. O Flow permite montar fluxos personalizados de verificação e rodar testes comparativos — os chamados testes A/B — entre diferentes jornadas digitais, além de árvores de decisão dinâmicas, para identificar qual combinação gera mais segurança sem sacrificar a conversão. Já o Hubby é o agente de IA central da companhia, descrito internamente como um “copiloto” das equipes de risco.
A startup aposta também na análise de documentos não estruturados, com o VerifAI Docs, que usa IA para identificar fraudes em comprovantes de renda, recibos, faturas e contratos. Em uma prova de conceito citada pelo CEO, a tecnologia identificou que 8% de todos os documentos usados por um grande cliente para cadastrar pequenas empresas haviam sido manipulados digitalmente por IA — um índice de fraude, segundo ele, impossível de detectar a olho nu.
É esse arsenal que explica o salto de 3,1 vezes na adoção da plataforma em 2025, ritmo que a Certta projeta manter ao longo de 2026. Além do avanço em novas contas, a expansão dentro da própria carteira é hoje um dos pilares de crescimento da Certta. “Estamos iniciando nossos ciclos de planejamento para 2027 e 2028, e vemos um forte crescimento orgânico no pipeline”, afirma.
Segundo Howard, a lógica do hub faz com que um cliente que chega para resolver um problema pontual — uma verificação de identidade, por exemplo — expanda o uso para outras frentes ao longo do tempo.
Essa dinâmica também contribui para a diversificação do negócio. Entre as seis famílias de produtos, nenhuma responde por mais de 25% da receita.
“Isso nos permite ter métricas incríveis de retenção de receita e métricas de crescimento de receita”, diz. “E eu vejo que o mercado está muito aberto neste momento para essas soluções”.