Bloomberg Línea — A Novo Nordisk, fabricante do Ozempic e do Wegovy, propôs ao governo vender medicamentos com desconto de 59%, enquanto o Ministério da Saúde anuncia o plano de oferecer canetas emagrecedoras de forma gratuita pelo SUS. A oferta de Wegovy é restrita a pacientes com obesidade e doença cardiovascular, disse a empresa em nota.
Segundo a nota da Novo, a proposta foi submetida desde maio à Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), instância que avalia as evidências científicas antes de qualquer medicamento entrar na rede pública. Na prática, é ali que se resolvem as duas lacunas deixadas pelo anúncio: prazo e custo.
O anúncio do governo, feito na quinta-feira (17), inclui os medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, que abrange semaglutida, liraglutida e tirzepatida. A promessa veio sem data de incorporação nem estimativa atualizada de impacto orçamentário.
O ministério também não definiu as regras da compra pública, como volumes, preços e cronograma de aquisição em escala nacional. O ministro Alexandre Padilha rebateu críticas da oposição de que o anúncio tenha relação com estratégias do calendário eleitoral.
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Em avaliação anterior, a Conitec estimou em mais de R$ 8 bilhões o custo de incorporar semaglutida e liraglutida ao SUS, valor que motivou a negativa de dois pedidos. O ministério não atualizou esse cálculo à luz dos preços mais baixos praticados hoje no varejo.
A nota da Novo não informa sobre qual preço de referência incide o desconto de 59%.
A Drogasil, bandeira da RD Saúde (RADL3), maior rede de farmácias do Brasil, vendia nesta segunda-feira (21) por R$ 999 a caneta de Wegovy 1 mg, uma das cinco dosagens do medicamento, que vão de 0,25 mg a 2,4 mg, constatou a Bloomberg Línea.
O preço já inclui desconto de laboratório de 24% sobre o valor cheio, de R$ 1.314,38. Com os 59% oferecidos pela Novo aplicados sobre o valor cheio da farmácia, o Wegovy sairia por R$ 538,90.
Esse valor ainda supera em 16% o preço do Ozivy, da EMS, e do Semavy, da Hypera (HYPE3), versões nacionais de semaglutida vendidas na mesma rede por R$ 464,81 a caneta de 1 mg, também com desconto de laboratório. As duas marcas chegaram ao mercado após a expiração da patente da semaglutida, em março. O preço das versões nacionais equivale a um desconto de 65% sobre o valor cheio do Wegovy, mas a bula do Semavy indica o remédio para diabetes tipo 2, e não para obesidade, foco da proposta da Novo.
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‘Incorporação responsável’
A companhia afirma ser favorável à “incorporação responsável” da semaglutida ao SUS, com critérios clínicos definidos e acompanhamento médico. Uma eventual participação no abastecimento, segundo a empresa, dependerá dos processos formais e das condições estabelecidas pelas autoridades públicas.
A proposta do laboratório dinamarquês mira um grupo bem mais restrito que o universo de pessoas com obesidade no país. Comunicado divulgado pela Novo em junho, sobre a submissão feita em maio, define como população elegível adultos a partir de 45 anos, com IMC (índice de massa corporal, que divide o peso pela altura ao quadrado) entre 30 e 40, sem diabetes e com histórico comprovado de infarto.
A faixa corresponde aos graus 1 e 2 de obesidade pela classificação da OMS (Organização Mundial da Saúde), que considera grau 3 o IMC a partir de 40. A empresa estima em 60 milhões o número de brasileiros com obesidade.
O mesmo documento afirma que a nova submissão difere da anterior ao priorizar pacientes que já sofreram infarto, com foco na prevenção de novos eventos cardiovasculares graves.
“Essa intervenção médica é crucial para evitar que o paciente infartado volte a ocupar um leito de UTI”, disse no comunicado Leonardo Bia, vice-presidente de assuntos corporativos da Novo Nordisk no Brasil.
Para sustentar o argumento clínico, a Novo cita o estudo SELECT, que acompanhou 17.604 adultos por cerca de três anos e meio. Segundo a empresa, a semaglutida 2,4 mg reduziu em 20% o risco de morte cardiovascular, infarto e AVC em pacientes com sobrepeso ou obesidade, sem diabetes e com doença cardiovascular estabelecida. O perfil de segurança do medicamento no estudo foi consistente com o de pesquisas anteriores, de acordo com a Novo.
A farmacêutica também desenvolve no Brasil o programa-piloto Access For Better Health, em parceria com o Ministério da Saúde, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e o Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre.
O objetivo, segundo a Novo, é produzir evidências clínicas, econômicas e sociais.
Concorrência
A Novo não comenta recortes específicos de vendas e diz que a concorrência faz parte da dinâmica do setor. A empresa firmou parceria com a Eurofarma para expandir a distribuição e a promoção de novas marcas de semaglutida no país. As canetas Poviztra e Extensior são produzidas pela Novo e distribuídas pela Eurofarma.
A expiração da patente da semaglutida, em março, é apontada por fabricantes como fator concorrencial da queda de preços. Padilha citou os 16 registros de produtos no país como garantia de sustentabilidade para o SUS.
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A Novo ressalta que todos os medicamentos disponíveis no Brasil devem cumprir os padrões de qualidade, segurança e eficácia da Anvisa.
A EMS, fabricante do Ozivy e de um genérico de semaglutida ainda sem data de lançamento, afirmou em nota estar preparada para contribuir com o processo, respeitando os trâmites do Ministério da Saúde e dos demais órgãos competentes.
A empresa diz entender que “a produção nacional contribui para ampliar a oferta e o acesso a esses tratamentos”, mas que volumes, valores, prazos e condições de fornecimento ao SUS dependem do poder público.
O grupo mantém em Hortolândia (SP) uma planta de peptídeos sintéticos com capacidade projetada para até 40 milhões de canetas por ano.
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, disse acompanhar as discussões sobre a incorporação de análogos de GLP-1 ao SUS. “Vemos como positivo que o poder público esteja tratando a obesidade com a seriedade que a doença exige”, afirmou a empresa, que acrescentou que a doença afeta uma parcela crescente da população brasileira e ainda carrega estigma significativo.
Procurada sobre o assunto, a Hypera, dona do Semavy, não respondeu ao pedido de comentário.
- Texto atualizado às 13h para incluir detalhes sobre a submissão da proposta da Novo de incorporação da Conitec realizada em maio deste ano
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