Liderança de Flávio no primeiro turno deve alimentar rali do mercado, segundo gestores

Desempenho do candidato conservador e avanço da direita no Congresso melhoram percepção sobre ajuste fiscal e podem iniciar reprecificação dos ativos. Gestores projetam alta de até 7% so Ibovespa e queda de até 4% do dólar após resultado das eleições

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Bloomberg — Os ativos brasileiros devem disparar na segunda-feira (5), depois que o senador Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno da eleição presidencial à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um desempenho muito melhor do que o cenário para o qual os investidores estavam posicionados.

Fabrício Taschetto, sócio-fundador e gestor de portfólio da Ace Capital, estima uma queda de 3% do dólar e alta de 7% do Ibovespa em reação ao resultado.

As ações de varejistas, construtoras, operadoras de shopping centers e empresas dos setores de consumo e vestuário devem liderar o movimento de alta do índice acionário, segundo Felipe Arslan, CEO da Morada Capital.

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Flávio Bolsonaro, visto como um candidato com políticas mais amigáveis ao mercado, teve 47% dos votos, ante 45% de Lula, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, com quase todas as urnas apuradas.

Antes da votação, investidores diziam que uma diferença inferior a quatro pontos percentuais entre os dois candidatos — com Lula sempre considerado o provável vencedor do primeiro turno — seria vista como mais favorável a Flávio e poderia provocar ganhos nos mercados.

“Como o segundo turno parece estar nas mãos de Flávio, os ativos brasileiros devem subir”, disse Cathy Hepworth, chefe da equipe de dívida de mercados emergentes da PGIM, gestora com US$ 1,5 trilhão em ativos. “O real e os juros devem ter um desempenho muito bom”, acrescentou.

Os primeiros sinais nos mercados globais apontavam para uma forte alta quando o mercado brasileiro abrir nesta segunda-feira.

ETF que acompanha as ações do país no Japão chegou a subir 14%, e o iShares MSCI Brazil ETF, negociado nos EUA, avançava mais de 12% no pré-mercado em Nova York. Derivativos cambiais negociados na CME também indicavam um dia de forte valorização do real.

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Investidores consideram Flávio mais propenso a promover um ajuste fiscal — algo que, segundo o mercado, é fundamental para que o Brasil consiga reduzir os juros que sufocam as empresas e as famílias.

Lula evitou, em grande medida, assumir compromissos com cortes de gastos, e a ampliação de programas de assistência social e de alguns subsídios nas últimas semanas da campanha reforçou as dúvidas dos investidores sobre a disposição do presidente para conter o déficit fiscal.

O JPMorgan estima que, com um ajuste fiscal, o real poderia se valorizar 6%, os juros dos títulos públicos locais poderiam recuar para perto de 13% e as ações poderiam subir até 50%. Uma deterioração fiscal, por outro lado, poderia enfraquecer a moeda em magnitude semelhante, elevar os juros dos títulos públicos para perto de 15,5% e derrubar as ações em 21%.

Os mercados foram surpreendidos em duas frentes pelos resultados de domingo: a vantagem de mais de três pontos percentuais de Flávio e o forte desempenho de candidatos de direita nas disputas pelos governos estaduais, pela Câmara e pelo Senado, segundo Guilherme Abbud, da Persevera Asset Management.

“Do ponto de vista de governabilidade e de agenda econômica, o terreno nunca esteve tão fértil”, disse o CEO da gestora, que administra R$ 4,8 bilhões. “Deve ser um movimento muito forte. E com potencial de ter varios dias subindo.”

Caminho turbulento

A ascensão de Flávio Bolsonaro como principal adversário de Lula no fim de 2025 — escolhido pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro — inicialmente decepcionou investidores, que preferiam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. A ligação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, figura central da maior fraude bancária da história do Brasil, aumentou a rejeição do mercado à candidatura.

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No último mês, porém, a melhora das chances de Flávio, diante dos escândalos enfrentados por Lula e da desaceleração da economia, ajudou a impulsionar os ativos brasileiros.

O Ibovespa, principal índice acionário do país, avançou 5% em dólares em setembro, figurando entre os mercados de ações de melhor desempenho do mundo no período.

Mas, com os candidatos empatados nas pesquisas, os investidores optaram em grande medida por derivativos e outras operações capazes de capturar os ganhos de um resultado favorável ao mercado e, ao mesmo tempo, limitar as perdas caso a eleição decepcionasse. Os títulos locais também ganharam popularidade entre os investidores, que apostaram que os rendimentos atuais oferecem proteção durante o período eleitoral.

“A segunda-feira será um dia muito melhor do que até os investidores mais otimistas esperavam”, disse Paulo Abreu, sócio e gestor de portfólio da Mantaro Capital. “O mercado estava pouco posicionado, e esse resultado levará os investidores a aumentar a exposição.”

Na preparação para a eleição de 2022, os investidores locais mostravam muito mais cautela em relação a Lula do que os estrangeiros, que em geral tinham uma visão menos pessimista sobre o petista. A divergência persistiu — investidores locais tendem a se preocupar mais com a disposição limitada do governo para promover o tipo de ajuste fiscal que consideram fundamental.

Ainda assim, os mercados brasileiros percorreram um caminho turbulento, mas no fim das contas positivo, desde que Lula voltou ao poder em janeiro de 2023.

O dólar, que atingiu a máxima histórica em 2024 durante uma onda generalizada de compra da divisa provocada pelo aumento das preocupações com a trajetória fiscal do país, acumula queda de pouco mais de 1% durante o mandato. Juros elevados, dólar global mais fraco e um movimento de diversificação para fora dos mercados dos EUA ajudaram a impulsionar os ativos brasileiros, assim como os mercados emergentes de forma mais ampla.

Uma pesquisa da XP, a maior corretora do país, com 116 investidores institucionais sobre as expectativas para o mercado brasileiro mostrou que as taxas de juros futuros devem cair pelo menos 40 pontos-base, o dólar deve ceder cerca de 4% e Ibovespa deve subir 6%, considerando a mediana das estimativas.

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Alejandro Cuadrado, chefe de estratégia global de câmbio e América Latina do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, disse que, embora seja esperada alguma volatilidade antes do segundo turno, a magnitude da surpresa já deve levar a uma “reavaliação significativa” das perspectivas para o Brasil.

“O resultado do primeiro turno, algumas disputas pelos governos estaduais, incluindo São Paulo, e os resultados preliminares do Congresso melhoraram substancialmente a percepção do mercado sobre o Brasil e podem marcar o início de uma reprecificação mais ampla e sustentada dos ativos brasileiros”, disse.

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