Fim das bets: clubes enfrentam perda de R$ 1 bi e veem plano de atrair bancos em xeque

Receita de apostas já representa 34% do orçamento dos clubes de futebol, segundo relatório elaborado pela Galápagos; restrição anunciada às vésperas da eleição ocorre quando times buscam maior aproximação com bancos e investidores

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Bloomberg — Os clubes de futebol profissional do Brasil têm protestado contra a medida do governo de proibir as apostas online pouco antes da eleição presidencial, alegando que isso coloca em risco milhões em receitas publicitárias.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a proibição de bets na semana passada, antes do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro. Ele afirmou que a medida era fundamental para conter o aumento do endividamento das famílias do país.

Ainda assim, a decisão prejudicou os clubes de futebol de primeira divisão, que agora se preparam para a perda de receita proveniente das casas de apostas — que cresceu 67% no ano passado, atingindo cerca de R$ 1 bilhão, de acordo com um relatório do economista César Grafietti em parceria com a Outfield, uma consultoria de gestão esportiva.

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O caráter repentino da proibição, que se sobrepôs à legalização dos jogos de azar online aprovada pelo Congresso em 2018 e a uma lei subsequente que regulamentava a prática, mergulhou o mundo do futebol na incerteza.

Isso também prejudicou os esforços de anos dos clubes de futebol brasileiros — muitos dos quais enfrentam dificuldades financeiras, mesmo com os ganhos extraordinários provenientes de patrocinadores do setor de apostas — para estreitar laços com o setor financeiro, ameaçando sua busca mais ampla por investimentos.

“Há um ambiente de insegurança para o setor, que, de um dia para o outro, sofreu uma redução na receita”, afirmou Grafietti, cujo relatório foi patrocinado pela gestora de ativos Galapagos Capital. “A forma como isso foi feito faz com que os investidores encarem o Brasil com cautela” quando se trata de investir em clubes de futebol.

A decisão de Lula marcou uma investida de última hora para ganhar vantagem sobre seu principal rival nas eleições, o senador de direita Flávio Bolsonaro, já que as pesquisas mostram os dois candidatos empatados.

As pesquisas também indicam que a maioria dos brasileiros apoia a proibição das apostas, enquanto o governo atribui a essa prática o agravamento das dificuldades financeiras das famílias. Ainda assim, times de todo o país que cobrem os estádios com logotipos de empresas de apostas, temem agora que a proibição abale todas as suas operações.

Neste mês, representantes de várias dezenas de times e outras entidades do futebol assinaram uma carta se opondo ao fim das apostas online. O documento afirma que as receitas geradas pelos patrocínios de casas de apostas são fundamentais para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, funcionários e departamentos que não geram recursos suficientes para se sustentar de forma independente.

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Cerca de 34% da receita comercial total dos times provém de casas de apostas, o que ressalta sua crescente dependência, segundo o relatório elaborado pela Galápagos.

Para se tornar permanente, a proibição precisará, eventualmente, da aprovação do Congresso. O que é urgente para Lula, no entanto, é que os brasileiros estão pessimistas, à medida que a dívida das famílias atinge um recorde e a inadimplência em empréstimos pessoais chega ao maior nível em 17 anos.

“Os clubes disseram que, se eu acabar com as apostas, acabarei com o futebol”, afirmou Lula em um comício na sexta-feira. “O futebol não pode sobreviver às custas dos pobres.”

Reestruturação de passivos

A iniciativa dos clubes brasileiros de estabelecer parcerias mais estreitas com o setor financeiro ganhou força em 2021, quando o Congresso aprovou uma lei que permite que os clubes de futebol se tornem sociedades anônimas.

Isso abriu as portas para que investidores adquirissem participações nos times por meio de injeções de capital, criando assim novos canais de financiamento.

O BTG Pactual, que é o maior banco de investimentos da América Latina, bem como a corretora XP Investimentos, estão entre as instituições de destaque que agora estão criando alternativas para financiar os clubes de futebol brasileiros.

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A lei de 2021 “foi um evento muito relevante que despertou o interesse pelo setor do futebol como uma classe de ativos”, afirmou Guilherme Ávila, diretor de esportes, mídia e entretenimento do Itaú BBA, em entrevista concedida antes do anúncio da proibição das apostas.

Antes da aprovação da legislação, os clubes brasileiros “estavam à margem não apenas dos mercados de capitais, mas do mercado financeiro como um todo, incluindo bancos e gestoras de ativos”, disse ele.

Embora a receita total dos times tenha disparado 32%, para R$ 14,3 bilhões no ano passado, suas dívidas aumentaram 15%, para R$ 17,3 bilhões no mesmo período, segundo o relatório elaborado pela Galapagos.

Em conjunto, os clubes precisarão se reorganizar financeiramente e reestruturar seus passivos, justamente no momento em que a proibição das apostas gera mais riscos.

“O crescimento das apostas no futebol está agora se transformando em um problema que somente clubes bem estruturados serão capazes de enfrentar com segurança”, disse Grafietti.

‘Golpe fatal’

De outubro de 2024 a março de 2026, indivíduos do Brasil enviaram, em média, R$ 4,7 bilhões por mês em transferências via plataforma de pagamentos pix para plataformas de apostas, de acordo com a Comsefaz, que representa as secretarias de finanças dos estados e do Distrito Federal.

O órgão afirmou que esse montante representa uma transferência considerável da renda familiar, com possíveis implicações na capacidade das famílias de cumprir suas obrigações financeiras.

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Advogados que representam empresas de apostas entraram com recurso contra a proibição no Supremo Tribunal Federal na segunda-feira (28). Os grupos por trás do recurso, a Associação Nacional de Jogos e Loterias e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, afirmaram em comunicado na semana passada que a proibição das apostas online levaria os consumidores a plataformas não regulamentadas.

Carlos Lima, presidente do Instituto de Jogo Responsável, afirmou em um podcast apresentado pelo jornal Folha de S. Paulo que o setor de apostas tem se mostrado aberto a modificar as regulamentações para proteger os consumidores. Ele acrescentou que não há provas que sustentem as alegações de que os jogos de azar online estariam impulsionando o aumento do endividamento das famílias brasileiras.

Na carta enviada no início deste mês por representantes do setor do futebol, os signatários afirmaram que a medida do governo representa um risco existencial para muitos times.

“A consequência não será apenas abrir as portas de par em par para as apostas ilegais, mas também desferir um golpe fatal no futebol brasileiro, levando muitos clubes à insolvência”, escreveram no documento.

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