Bloomberg News — Localizada em um vale sinuoso e isolada por árvores, a vasta instalação na pequena cidade de Dubnica nad Vahom é um testemunho do passado da Tchecoslováquia como fabricante de armas da Guerra Fria — e também do cenário sombrio da indústria após a queda do comunismo.
Parte das instalações foi alugada a novos negócios. Uma fazia cartuchos de impressora, outra fabricava carteiras escolares. A produção de rifles de pressão manteve a empresa ZVS Holding em funcionamento. O número de funcionários caiu de 7.000 para algumas centenas.
A revitalização da ZVS é agora parte de uma transformação mais ampla à medida que a Otan escala a produção de equipamentos militares — com implicações para a economia e a política no leste da União Europeia.
A Eslováquia se tornou, junto com a República Tcheca, a maior produtora de automóveis per capita do mundo, graças à demanda das montadoras por mão de obra qualificada e mais barata. Agora, a guerra está transformando a pequena nação em uma potência crítica no setor de munições.
O novo foco é sustentado por uma aliança próxima entre o bilionário tcheco do setor de defesa Michal Strnad e o influente ministro da Defesa da Eslováquia, Robert Kalinak. A ZVS faz parte do Czechoslovak Group AS (CSG), de Strnad, que quer transformá-lo no maior conglomerado de defesa da Europa.
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“Em meio a esta grave crise econômica que assola a Europa, a indústria de defesa é uma das poucas tábuas de salvação que ainda alimentam nossa economia”, disse Kalinak, que conhece a família Strnad há mais de uma década, em entrevista em seu gabinete em Bratislava.
“Gosto da ideia de ter outro ‘pilar’ para nossa indústria se apoiar”, disse, prevendo “30 bons anos de prosperidade”.
A família Strnad adquiriu uma participação controladora de 50% da ZVS em 2015 e, em 2020 — dois anos antes da invasão em larga escala da Rússia à vizinha Ucrânia —, decidiu focar exclusivamente na fabricação de munições de grande calibre.
A Eslováquia produz agora centenas de milhares de projéteis por ano, em comparação com apenas cerca de 30.000 antes da guerra.
Nos últimos quatro anos, as exportações de produtos de defesa cresceram 2.200%, chegando a €2,4 bilhões (US$ 2,9 bilhões).

O CSG, por sua vez, registrou o maior aumento percentual de receita com a venda de armas entre as 100 maiores empresas de defesa em 2024, segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri).
A empresa afirmou nesta quinta-feira (26) que espera que as vendas recordes continuem à medida que a tensão geopolítica impulsiona a demanda. A receita pode chegar a até €7,6 bilhões em 2026, após uma alta de 72% no ano passado.
Na Eslováquia, a próxima etapa será ampliar a produção de munições de grande calibre com a adição de sistemas modulares de carga de artilharia, utilizados por alguns países da Otan em obuseiros de 155 mm, à medida que as nações recompõem e reforçam seus estoques.
“Sentimos um forte apoio do governo, e apreciamos isso”, disse Strnad nesta quinta-feira. “Acho que somos um dos maiores contribuintes fiscais do país como um todo. Enquanto as coisas continuarem funcionando assim, seguiremos em frente.”
Se a tendência continuar, a indústria de defesa poderá representar até 3% do produto interno bruto, segundo Kalinak.
Embora a indústria automotiva corresponda a cerca de 10% do PIB, sua produção está estagnada em aproximadamente 1 milhão de veículos por ano — enquanto a produção de defesa cresce rapidamente.
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Controvérsias com UE
A Eslováquia é membro da União Europeia e da Otan, mas seu papel na indústria de defesa do continente contrasta com a política do país.
O primeiro-ministro pró-Rússia Robert Fico se opõe à ajuda à Ucrânia, assim como seu contraparte Viktor Orbán, da Hungria, ao sul. Ambos os países têm entrado em conflito com Bruxelas pelo desejo de continuar usando petróleo e gás russos.
Mas negócios são negócios. O empresário Strnad, de 33 anos, tem uma relação melhor com o governo eslovaco do que com o atual governo da República Tcheca. O primeiro-ministro Andrej Babis, também bilionário, o criticou durante a campanha eleitoral do ano passado por lucrar com a guerra na Ucrânia.
Kalinak e Strnad foram atacados por partidos da oposição eslovaca e pela mídia local por causa de sua relação próxima. Ambos afirmam não haver conflito de interesses.

O ministro da Defesa se destaca pela “forma como luta pelas Forças Armadas, como luta pelas empresas eslovacas, como promove a indústria de defesa da Eslováquia no exterior”, disse Strnad em entrevista no final do ano passado.
Strnad também tem capital para investir. Ele abriu o capital do CSG na Bolsa de Valores de Amsterdã neste ano, na maior oferta pública inicial de ações de uma empresa de defesa pura da história.
Seu patrimônio líquido quase dobrou, chegando a US$ 31 bilhões, segundo o Índice de Bilionários da Bloomberg.
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O exemplo de Dubnica nad Vahom
A bonança para os fabricantes de armas na Eslováquia é mais palpável em Dubnica nad Vahom, uma cidade do oeste com 22.000 habitantes que foi construída em torno da indústria durante o regime comunista.
No auge, até 19.000 pessoas trabalhavam nas fábricas para atender pedidos de munições e sistemas de artilharia no estilo soviético dos países do Pacto de Varsóvia.
Após o fim da Guerra Fria, os políticos da Tchecoslováquia, liderados pelo falecido presidente Vaclav Havel, deixaram a produção de armas definhar, acreditando que a nova era não precisaria de armamentos para manter a paz.
Por décadas, Dubnica nad Vahom e cidades semelhantes enfrentaram desemprego galopante, êxodo de trabalhadores qualificados e instalações em estado de deterioração.
Mas a família Strnad enxergou uma oportunidade. A empresa começou restaurando tanques soviéticos nos anos 1990 e cresceu até se tornar fabricante de munições e veículos blindados.
Os acionistas da ZVS investiram cerca de €100 milhões ao longo dos últimos quatro anos para restaurar e também construir novas instalações em Dubnica nad Vahom e em outro local.
A produção foi ampliada, com a adição de outra linha de preenchimento de munições de grande calibre com explosivos. Uma nova cabine de pintura está sendo construída — um prédio facilmente identificável ao longo da estrada sinuosa.
Um dos desafios foi expandir o quadro de funcionários, segundo Jakub Krchnavy, presidente do conselho de administração da ZVS. A empresa ofereceu salários 25% acima da média nacional e se comprometeu a limitar os turnos a dois.
Com os pedidos em alta, a ZVS emprega agora 1.400 pessoas em dois locais, com planos de expandir esse número para 2.000 quando outra unidade na cidade oriental de Strazske for construída em alguns anos.
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Quando o terceiro local estiver em operação, a Eslováquia terá a cadeia de fornecimento completa para munições. No total, o CSG pretende atingir uma capacidade de produção superior a 1 milhão de projéteis de grande calibre por ano.
“Duas gerações de pessoas que trabalharam na construção dessas instalações — que têm requisitos técnicos muito específicos — simplesmente desapareceram”, disse Krchnavy em entrevista nas altamente seguras instalações em meados de março. “Esse foi um dos maiores desafios que enfrentamos.”
Dubnica nad Vahom é uma cidade em transição, com trechos das antigas plantas deixados para se deteriorar e muitos aposentados ainda amargos com os meios de vida que perderam e com a luta para chegar ao fim do mês.
Em contraste estão os jovens, que podem se dar ao luxo de comprar pão de fermentação natural por €6,90 em um café no centro, jantar fora com regularidade e planejar férias.
Daniel, um garçom de 38 anos que se mudou para Dubnica ainda adolescente para jogar em um time local de futebol, disse que os negócios estavam em alta e a vida na cidade melhorando.
“A cidade está investindo em calçadas, estradas, instalações esportivas”, disse ele enquanto atendia clientes no horário do almoço.
“Uma nova piscina está sendo construída. A cidade está se desenvolvendo.”
Na fábrica de munições, a ZVS tem contratos assinados até 2029 com o Ministério da Defesa da Eslováquia, seguidos pela Polônia e outros países membros da Otan.
A indústria é fortemente dependente do CSG, disse Kalinak. “Eles capitalizaram em um momento em que o setor de defesa estava fora de moda para adquirir essas empresas”, afirmou. “Hoje, ninguém estaria disposto a vendê-las.”
Embora o emprego em Dubnica não retorne ao seu pico, a maior automação e as novas tecnologias permitirão que a empresa ainda alcance seu auge de produção, disse Krchnavy.
O executivo, que começou na área de vendas há nove anos, disse estar confiante de que a demanda se manterá por pelo menos uma década.
“Planejamos continuar crescendo”, disse Krchnavy. “No fim das contas, não há como substituir o fogo de artilharia em massa em uma batalha por qualquer outra coisa.”
-- Com ajuda de Michal Kubala.
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