Bloomberg — No papel, os americanos nunca foram tão ricos. O mercado de ações dobrou em quatro anos, a economia continua crescendo, o desemprego está perto das mínimas históricas e os preços dos imóveis se mantêm estáveis. Mas o resultado das eleições de terça-feira (03) aponta para uma realidade diferente para muitos eleitores.
A distância entre os dados e a vida cotidiana fica evidente em uma região de Nova York. Staten Island, distrito conhecido por ser um reduto conservador e de trabalhadores, reelegeu seu representante republicano no Congresso. Ainda assim, seus eleitores, assim como americanos de diferentes posições políticas, demonstram profundo pessimismo em relação às próprias finanças.
De um engenheiro de software demitido de uma grande empresa de tecnologia a um aposentado que precisou voltar ao trabalho e a uma técnica em sistemas hidráulicos que mora com a sogra, todos descreveram a mesma pressão financeira e disseram estar ficando sem alternativas para se ajustar.
Anos de aumento dos custos os deixaram numa situação em que um conserto no carro, uma demissão ou uma conta inesperada pode desestabilizar o orçamento.
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“Não tenho um centavo no banco”, disse Paul Szostak, de 69 anos, que perdeu o emprego durante a pandemia. Ele se aposentou e começou a receber o Social Security (seguro social) antes do previsto, mas voltou a trabalhar quando a inflação acelerou nos últimos anos.
Hoje, Szostak trabalha 48 horas por semana como segurança no terminal da balsa de Staten Island; trabalharia mais se pudesse pegar outro turno. Para economizar combustível, tenta usar pouco o carro.
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Em uma época de desigualdade crescente, as boas notícias sobre a economia não chegam a todas as famílias da mesma forma — ou sequer chegam. Muitos americanos dizem estar pressionados por todos os lados: com os custos de moradia e saúde, as perspectivas de aposentadoria, a busca por um emprego estável e até a possibilidade de se divertir.
No mês passado, 51% dos entrevistados em uma pesquisa da NBC News disseram estar insatisfeitos com sua situação financeira pessoal. Foi o maior índice registrado desde que a pergunta entrou no levantamento, há mais de 30 anos, e a primeira vez em que os insatisfeitos superaram os satisfeitos.
As políticas do governo de Donald Trump ajudaram algumas famílias, mas aumentaram a pressão sobre outras. As deduções fiscais para gorjetas, horas extras e idosos vieram acompanhadas de regras mais rígidas para quem paga empréstimos estudantis e cortes nos subsídios ao seguro-saúde.
A inflação dos alimentos desacelerou durante o governo Trump: os preços dos produtos de supermercado subiram menos de 2% no último ano. Ainda assim, fazer compras custa 32% mais do que no fim de 2019, segundo o Índice de Preços ao Consumidor do Bureau of Labor Statistics.
Segundo estimativas do Federal Reserve, o 1% mais rico controla 32,5% da riqueza dos Estados Unidos, 2,1 pontos percentuais a mais do que há dois anos. Seus ativos, que somavam mais de US$ 60 trilhões no segundo trimestre, já superam o patrimônio líquido combinado dos 90% mais pobres dos americanos.
Szostak, republicano desde sempre, votou no partido nesta eleição. Ele citou a lei de Trump conhecida como One Big Beautiful Bill e as deduções previstas para idosos e trabalhadores que fazem horas extras. Disse duvidar que os democratas fariam melhor.
Custo de vida
Hoje, os americanos têm uma longa lista de preocupações financeiras. Três em cada cinco eleitores registrados disseram estar preocupados com a possibilidade de pagar por serviços de saúde, segundo uma pesquisa de acompanhamento da KFF divulgada no mês passado. A mesma proporção citou os custos de combustível e transporte. Mais da metade afirmou que as contas de alimentação e serviços públicos eram motivo de preocupação.
“Sempre que consigo avançar um pouco, alguma coisa fica mais cara”, disse Molly Black, técnica em sistemas hidráulicos de 27 anos, que votou nos democratas. Ela mora no quarto que pertenceu à infância de seu companheiro.
Com as economias esgotadas, despesas inesperadas — como consertos no carro ou uma ida ao pronto atendimento — acabam no cartão de crédito. Comprar uma casa com o companheiro, com quem está há sete anos, era um plano que ela se preparava para realizar até pouco tempo atrás; agora, parece fora de alcance.
A alta dos imóveis dividiu o país entre quem conseguiu comprar e quem não conseguiu. Enquanto proprietários ricos se beneficiaram da valorização de suas casas, os juros elevados dos financiamentos tornaram a compra ainda mais difícil. As vendas mensais de imóveis usados caíram 35% em cinco anos, segundo dados da Associação Nacional de Corretores de Imóveis.
“Foi como se tivessem puxado o tapete debaixo dos nossos pés”, disse Black sobre os últimos dois anos. Os preços dos imóveis em Staten Island subiram 24% entre 2019 e 2025 — quase o dobro da alta de 13% registrada na cidade como um todo, mas menos da metade do salto de 54% no país, segundo dados do NYU Furman Center e do índice Case-Shiller, da S&P Cotality.
Os juros altos dificultaram grandes compras, sobretudo a aquisição de imóveis. Acima de 7% para um financiamento de 30 anos, as taxas estão aproximadamente duas vezes mais altas do que antes da pandemia. O impacto combinado dos custos do financiamento e dos preços dos imóveis levou as prestações mensais medianas a alguns dos maiores patamares já registrados.
Enquanto isso, os ganhos do mercado de ações beneficiam pouco quem não tem uma carteira de investimentos substancial.
Menos de um quinto dos americanos possuía ações diretamente no ano passado, segundo a Pesquisa sobre Finanças do Consumidor do Federal Reserve. Cerca de 55% têm uma conta de aposentadoria, com saldo médio de US$ 106 mil. Para a maioria, porém, o principal patrimônio é a própria casa — uma forma de riqueza muito menos útil numa emergência do que dinheiro disponível.
O casal de aposentados Daniel e Beth Velez tem um plano que cresceu com a rápida valorização das ações ao longo dos anos. Também pode contar com os pagamentos do Social Security e uma pensão, o que lhes permitiu quitar o financiamento da casa em Staten Island, contratado a uma taxa de 3,75%.
Mesmo assim, os preços dos alimentos e da gasolina pesam no orçamento. “Não há motivo para os preços estarem tão altos”, disse Beth Velez, de 65 anos. Em julho, depois de muitas vezes gastarem mais de US$ 100 por mês com gasolina, eles trocaram o Chevrolet Equinox por um Toyota Corolla de US$ 34 mil. Daniel Velez, de 66 anos, calcula que a mudança reduziu pela metade os gastos com combustível.
Ao longo do tempo, os americanos costumavam ser otimistas em relação ao próprio futuro. Nos anos que antecederam a pandemia, o Índice de Confiança do Consumidor da Universidade de Michigan atingiu seu nível mais alto em 14 anos, enquanto a economia dos Estados Unidos finalmente deixava para trás os efeitos persistentes da Grande Recessão. Os juros eram baixos, e os trabalhadores da classe trabalhadora avançavam.
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Então veio a Covid-19, e a inflação e os juros dispararam durante os quatro anos de mandato do presidente Joe Biden, derrubando a confiança. Em 2024, o presidente Donald Trump venceu a eleição com a promessa de reduzir o custo de vida, principalmente baixando os preços dos alimentos.
“As lembranças dos anos anteriores à pandemia fizeram muitos eleitores ficarem bastante otimistas com um segundo mandato de Trump”, diz Joanne Hsu, diretora das Pesquisas com Consumidores da Universidade de Michigan. “Isso criou expectativas muito altas.”
As tarifas e a guerra no Irã estão entre os principais motivos de crítica, diz Hsu. Os americanos “traçam uma ligação bastante direta entre as políticas da Casa Branca, os preços da gasolina, a inflação elevada e a redução do poder de compra”.
Os republicanos poderiam se defender apontando para a baixa taxa de desemprego nos Estados Unidos, que caiu para 4,1% no relatório de emprego divulgado na sexta-feira. O problema é que os empregadores também parecem hesitar em contratar, num momento em que a inteligência artificial promete transformar o mercado de trabalho. Desde o pico recente, no fim de 2021, o número de contratações mensais caiu 22%, segundo dados do Bureau of Labor Statistics.
Mariam Khan é uma das pessoas excluídas desse mercado de trabalho em que há poucas contratações e poucas demissões. Depois de se formar em ciência da computação no Hunter College, em 2022, ela conseguiu um emprego como engenheira de software em uma empresa de tecnologia, mas foi demitida no ano passado. Ainda não encontrou outro trabalho. No fim deste mês, completará 26 anos e perderá o acesso ao seguro-saúde do pai.
“Não estou avançando como gostaria. Em termos de orçamento, estou fazendo o que posso para sobreviver”, disse Khan. Na terça-feira, votou nos democratas. Suas esperanças são poucas. “Já vi o Partido Democrata nos decepcionar antes.”
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