Febre de bicicletas elétricas entre adolescentes vira crise de segurança viária nos EUA

Com aumento nas mortes e mais de 155 mil atendimentos médicos, governos locais recorrem a proibições e apreensões para retirar veículos das ruas

E-bikes
Por Kara Carlson
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Bloomberg — As autoridades têm tomado medidas severas contra a mais recente moda entre os adolescentes que está causando estragos em comunidades por todo os Estados Unidos: as bicicletas elétricas.

A polícia foi chamada quando dezenas de bicicletas elétricas e motos elétricas invadiram as ruas de Bend, no Oregon, em uma tarde recente.

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No Condado de Orange, na Califórnia, dois adolescentes foram vistos circulando de bicicletas dentro de um Walmart. Câmeras de segurança em Orlando capturaram a cena caótica em que centenas de condutores bloquearam o tráfego.

Alcançando velocidades de até 28 milhas por hora (45 km/h), as bicicletas elétricas e veículos semelhantes tornaram-se presença constante nas vias americanas nos últimos anos. No entanto, à medida que ganharam popularidade entre os usuários mais jovens, as consequências perigosas — e, por vezes, fatais — da condução imprudente têm se intensificado.


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As bicicletas elétricas foram responsáveis por mais de 155.000 atendimentos em pronto-socorros de 2017 a 2024, bem como por mais de 300 mortes, de acordo com a Comissão de Segurança de Produtos de Consumo dos EUA.

Somente na Califórnia, o número de feridos em colisões envolvendo bicicletas elétricas aumentou de dois em 2020 para 1.566 em 2024, de acordo com um estudo da Universidade da Califórnia em San Diego.

Autoridades governamentais estão agora se apressando para resolver o problema por meio de proibições relacionadas à idade, exigências de licenciamento e outras restrições.

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Em julho, Nova Jersey começou a implementar a lei mais rigorosa do país sobre bicicletas elétricas, proibindo qualquer pessoa com menos de 15 anos de usá-las. Uma comunidade da Califórnia chegou a recorrer ao tipo de programa de recompra mais comumente utilizado para retirar armas das ruas.

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O risco de tragédia é bem conhecido por Allister Carlos, cujo filho de 15 anos, Ethan, morreu em um acidente com bicicleta elétrica em La Habra, na Califórnia, no ano passado.

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“Essas máquinas são realmente perigosas”, afirmou Carlos, que criou uma fundação em memória do filho, em uma entrevista. “É a próxima onda de epidemia, no mesmo nível das armas e dos tiroteios em escolas.”

As bicicletas elétricas se proliferaram nos Estados Unidos nos últimos anos, oferecendo um meio de transporte acessível para quem se desloca diariamente ao trabalho, entregadores e entusiastas em geral.

Impulsionadas em parte pelo crescente interesse em atividades ao ar livre durante o lockdown da pandemia, as importações de bicicletas elétricas pelos Estados Unidos ultrapassaram 1 milhão em 2022, de acordo com uma análise da eCycleElectric. Esse número ultrapassou 2 milhões no ano passado.

Bicicletas modificadas para atingir velocidades mais altas, juntamente com motos elétricas e minimotos com motores de alto torque, são normalmente tratadas como veículos motorizados, semelhantes às motocicletas, e, em geral, não é permitido que menores de 16 anos as conduzam sem a devida habilitação.

Katherine Echo Kim, profissional da área da saúde e motociclista experiente em Southport, Connecticut, superou suas reservas iniciais e comprou uma bicicleta elétrica para seu filho Miles depois que ele completou 13 anos. Ela fez uma pesquisa exaustiva. Os dois fizeram um curso online juntos e ela montou uma pista em um estacionamento com cones para ensiná-lo a dirigir corretamente.

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Kim e seu marido chegaram a acompanhar Miles na rua para garantir que ele estivesse pedalando com segurança logo no início. No entanto, ela ainda se preocupa com o número de jovens ciclistas que vê sem capacete e ignorando as regras de trânsito, disse ela. “Algumas dessas crianças não têm absolutamente nenhum treinamento sobre bicicletas elétricas.”

Os perigos são reais. O Rady Children’s Health, em Orange County, Califórnia, já atendeu 156 crianças vítimas de acidentes com bicicletas elétricas neste ano, um aumento acentuado em relação a apenas um caso em 2021.

Muitas bicicletas elétricas costumam ser modificadas para aumentar a potência e a velocidade. Um estudo de 2025 realizado pela San Jose State University mostrou que cerca de 90% dos dispositivos elétricos estacionados em escolas do norte da Califórnia não pareciam atender aos requisitos legais para bicicletas elétricas, com alguns apresentando até oito vezes os níveis normais de potência.

“Nossos cirurgiões ortopédicos têm observado tipos de fraturas que nunca haviam visto antes”, afirmou Laura Goodman, diretora médica de trauma do Rady Children’s Health, no Condado de Orange. Ela defende uma maior conscientização sobre a segurança dessas bicicletas e que os ciclistas utilizem capacetes especificamente homologados para bicicletas elétricas.

Cidades e estados estão tomando medidas para tentar conter as consequências.

Em setembro, Bloomfield Township, em Michigan, aprovou uma proibição de seis meses para que menores de 16 anos andem de bicicletas elétricas. A partir de janeiro, Illinois exigirá que os condutores de bicicletas elétricas capazes de atingir velocidades superiores a 28 milhas por hora possuam carteira de motorista, documento de propriedade, registro e seguro.

A cidade de Nova York, onde entregas de comida por meio de bicicletas elétricas são comuns, está analisando 23 projetos de lei diferentes para coibir esses veículos. Uma recente audiência na Câmara Municipal durou horas, enquanto moradores reclamavam dos entregadores em bicicletas e motos elétricas que circulavam de forma imprudente nas ruas e calçadas.

Na Califórnia, a promotoria do Condado de Orange recorreu a um programa comunitário de recompra para retirar os veículos das ruas. Em setembro, ofereceu cartões-presente no valor de até US$ 1.000 a qualquer pessoa que entregasse bicicletas elétricas, patinetes elétricos ou motocicletas elétricas.

Centenas de pessoas trocaram seus veículos, e muitas ainda doaram os aparelhos mesmo depois que os cartões-presente se esgotaram, apenas duas horas após o início do programa.

Carlos, que hoje dirige a Fundação Ethan Carlos para apoiar jovens, vinha hesitando em se manifestar diretamente sobre as bicicletas elétricas até participar do programa de recompra do Condado de Orange para compartilhar a história de seu filho. Ele começou a chorar no evento ao pensar em como a retirada desses veículos das ruas poderia evitar novas tragédias.

Carlos disse que não permitia bicicletas elétricas em sua casa e que não fazia ideia de que seu filho e o amigo dele haviam saído de casa em um veículo que não era legal para condutores menores de 16 anos circularem nas ruas. Ethan era o passageiro da bicicleta elétrica Classe 3 de seu amigo quando ela foi atingida por trás por um carro, matando os dois meninos.

“Não sabíamos que eles tinham uma bicicleta elétrica tão potente assim, e os pais tomaram a decisão por nós”, disse Carlos. “Eles simplesmente deixaram nosso filho sair sem capacete, sem proteção, à noite.”

O gabinete do promotor público do Condado de Orange, Todd Spitzer, já apresentou acusações criminais contra alguns pais em outros incidentes, incluindo um pai cujo filho de 12 anos ficou gravemente ferido ao andar de bicicleta elétrica que ele havia modificado ilegalmente. E também contra uma mãe cujo filho de 14 anos atropelou e matou um veterano de 81 anos enquanto pilotava ilegalmente uma motocicleta elétrica. Autoridades policiais também estão tomando medidas contra pais em estados como o Arizona e o Oregon.

Apesar dos riscos, muitos pais afirmam que as bicicletas elétricas proporcionam independência aos filhos e que são necessárias medidas de segurança, e não proibições.

O Hospital Infantil CS Mott, da Universidade de Michigan, realizou recentemente uma pesquisa com pais de crianças de 11 a 18 anos e constatou que, embora a maioria apoiasse regulamentações de segurança para bicicletas elétricas, como a obrigatoriedade do uso de capacete e treinamento, apenas 11% defendiam uma proibição total.

Christine Berube, uma mãe que mora no subúrbio de Maryland, ficou hesitante quando o filho mencionou pela primeira vez a ideia de comprar uma bicicleta elétrica. No fim, ela comprou uma bike de Classe 2, com velocidade máxima de cerca de 32 km/h.

“Isso dá a ele a possibilidade de subir na bicicleta, ir ao Chipotle e encontrar um amigo”, disse ela. “Há jovens por aí dominando as ruas, fazendo cavalinhos. Há muitos outros que não estão fazendo essas coisas.”

--Com a colaboração de Laura Nahmias

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