Segundo turno põe à prova ‘rali Flávio’ e apostas de Wall St em ajuste fiscal no Brasil

Vantagem do senador de direita no primeiro turno levou bancos internacionais a recomendarem compras de ações brasileiras e apostas na valorização do real, mas o empate com Lula às vésperas da votação ameaça transformar entusiasmo em correção dos mercados

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Bloomberg — Estrategistas de Wall Street que recomendaram comprar ativos brasileiros depois que Flávio Bolsonaro despontou como favorito à Presidência estão prestes a descobrir se a aposta se mostrará acertada — ou se deixará investidores no prejuízo — no segundo turno de domingo (25), que segue indefinido.

A vantagem de Flávio sobre o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno levou instituições como UBS Global Wealth Management e Morgan Stanley a melhorar suas perspectivas para as ações brasileiras, projetando ganhos de até 25%.

O JPMorgan passou a adotar uma visão positiva para o real, enquanto o Citigroup incentivou investidores a comprar ativos do país em diferentes classes. Na Gavekal Research, Louis-Vincent Gave disse que uma “guinada Bolsonaro” poderia desencadear uma onda de entrada de recursos.

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Essa mudança pode já estar em curso. O forte desempenho do candidato de direita impulsionou os ativos e atraiu capital estrangeiro diante da expectativa de que um novo governo promoveria o ajuste fiscal necessário para reduzir as taxas de juros.

Mas esse posicionamento agora deixa os investidores vulneráveis a uma reversão. A disputa está praticamente empatada às vésperas da votação, depois de Lula prometer ainda mais gastos, enquanto Flávio apresentou poucos detalhes sobre como implementaria o ajuste com o qual os investidores estão contando. Um resultado decepcionante ameaça apagar o rali recente.

Ainda assim, a perspectiva de novos ganhos é atraente para os investidores que viram as ações brasileiras subirem 13% em dólares neste mês, e o dólar cair 2,5% — um dos melhores desempenhos entre os mercados emergentes.

“Não acreditamos que a reprecifição do mercado brasileiro tenha necessariamente chegado ao fim”, disse Alejo Czerwonko, diretor de investimentos para mercados emergentes do UBS Global Wealth Management em Nova York. “Há motivos para continuar investido.”

Outros concordam. Gestores que administram um total de US$ 90 bilhões estão mais otimistas em relação às ações brasileiras antes da votação de domingo, de acordo com uma pesquisa do Bank of America, e investidores estrangeiros colocaram cerca de R$ 20 bilhões em ações locais neste mês até terça-feira.

Na PGIM Credit, Cathy Hepworth disse que provavelmente aumentaria sua exposição ao Brasil antes do segundo turno, com a nova composição do Congresso reforçando sua visão.

“Uma vitória de Bolsonaro realmente aumenta a perspectiva de um ajuste fiscal significativo”, disse Hepworth, que lidera a equipe de dívida de mercados emergentes da gestora, em entrevista na quarta-feira. “Por mais que o mercado já tenha se mexido, isso ainda não está realmente precificado.”

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Alguns seguem mais cautelosos. A Legacy Capital, por exemplo, reduziu sua exposição a risco antes do segundo turno, embora espere uma vitória de Flávio. Com o aumento do custo da proteção contra perdas, alguns gestores optaram por reduzir suas posições em vez de pagar mais caro por hedge.

Disputa acirrada

A disputa se estreitou à medida que Lula anunciou medidas voltadas aos eleitores, incluindo um plano de perdão de dívidas para microempreendedores e uma proposta para oferecer transporte público gratuito nos fins de semana. Uma pesquisa Datafolha publicada na quinta-feira mostra Lula e Bolsonaro empatados, cada um com 50% dos votos válidos.

E, caso Bolsonaro seja eleito, ele estará sob pressão para entregar o ajuste fiscal que os investidores vêm exigindo. As dívidas estão se acumulando no país, com juros de dois dígitos levando a inadimplência de famílias e empresas a níveis recordes.

“A gente tem sido bastante vocal em ter cautela nesse momento, que é o que a gente ainda enxerga para os próximos seis meses”, disse Victor Tofolo, chefe de crédito da Bradesco Asset Management, que administra cerca de R$ 555 bilhões em ativos de crédito. “A história de curto prazo ainda merece cautela, por parte de um ciclo econômico muito duro.”

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Embora assessores de Bolsonaro tenham prometido cortar gastos, há poucos detalhes sobre como ele pretende colocar as contas públicas em ordem. Além disso, alguns pontos de sua agenda indicam relutância em impor os custos de curto prazo que um verdadeiro programa de austeridade exigiria.

Assim como Lula, ele prometeu estabilizar a dívida sem sacrificar os gastos sociais, ao mesmo tempo em que propôs incentivos fiscais e descontos nas contas das famílias. Ele também apoiou a redução da jornada de trabalho.

Ao redor da América Latina, líderes de direita, da Colômbia à Argentina, têm enfrentado dificuldades para manter o apoio popular enquanto implementam suas agendas, e ralis impulsionados pelo otimismo inicial começaram a perder força. A tendência serve de alerta para investidores no Brasil.

Próximos passos

Alejandro Cuadrado, estrategista do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, diz que uma vitória de Flávio é seu cenário-base e que esse resultado poderia fortalecer o real em quase 3%, para cerca de R$ 4,90 por dólar. A partir daí, os participantes do mercado observarão alguns marcos importantes: a nomeação da equipe econômica, a apresentação de um plano fiscal detalhado e, posteriormente, sua execução, afirma.

Uma vitória de Lula, por outro lado, levaria os mercados de volta ao “status quo”, mas em um contexto global mais difícil e com maiores dúvidas sobre a disciplina fiscal, disse Luciano Telo, diretor de investimentos para o Brasil no UBS Global Wealth Management.

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Isso poderia levar o dólar aos R$ 5,40 “quase automaticamente”, disse Cuadrado. Os investidores então avaliariam se o Banco Central precisaria intervir ou se os mercados conseguiriam se estabilizar em torno da visão de que mais um governo Lula representa um risco conhecido.

“Passado o segundo turno, se não houver algo mais claro a respeito do fiscal, o rali dos ativos não se sustenta”, disse Pablo Salgado, gestor da Itaú Asset Management. “O mercado pode melhorar um pouco sem sabermos os detalhes, mas eventualmente a gente vai ter que saber.”

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