Incerteza fiscal inibe entrada de capital externo, diz estrategista do Deutsche

Drausio Giacomelli, estrategista-chefe para mercados emergentes, diz em entrevista à Bloomberg Línea que o risco fiscal tem impedido o banco de recomendar o investimento no país

O Palácio do Planalto em Brasília
21 de Novembro, 2023 | 04:50 AM

Bloomberg Línea — O recente embate no governo sobre a meta fiscal para 2024 e o aceno do governo ao aumento de despesas têm mantido os investidores globais céticos em relação ao Brasil e inibido a entrada de capital estrangeiro, segundo Drausio Giacomelli, estrategista-chefe para mercados emergentes do Deutsche Bank (DB).

Na visão do especialista, o ambiente em relação ao Brasil é de desconfiança, especialmente depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter afirmado que a meta de zerar o déficit primário em 2024 “dificilmente” será cumprida, o que tem se refletido nos preços dos ativos no país. Por ora, o governo decidiu manter a meta para 2024, mas a insegurança se mantém.

“O nível de exposição do investidor estrangeiro em renda fixa no Brasil é um dos mais baixos nos últimos 15 anos. Está menos da metade do pico. A entrada de capital tem sido bem moderada. O prêmio de risco está entre os maiores dos emergentes”, disse o estrategista em entrevista por vídeo à Bloomberg Línea a partir do escritório do banco em Nova York.

“Há um ceticismo muito grande em relação ao ambiente fiscal. O novo arcabouço mal foi aprovado e já está sendo modificado. Isso realmente não inspira nenhuma confiança”, afirmou Giacomelli, que é brasileiro e vive nos Estados Unidos há quase 30 anos.

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Dados do Banco Central mostram que investidores estrangeiros retiraram US$ 477 milhões de ações e fundos de investimento no Brasil em setembro, o segundo mês seguido de saídas líquidas depois de resgates de US$ 2,3 bilhões em agosto.

Além do risco fiscal, parte do movimento tem a ver com uma reprecificação dos ativos no mercado internacional depois da avaliação de que o Federal Reserve pode manter os juros em um nível mais elevado e por mais tempo do que o previsto.

Segundo o estrategista, exceto uma ou outra oportunidade pontual no mercado – a exemplo da inclinação recente da curva de juros no país –, a incerteza em relação à política econômica tem impedido o banco alemão de se posicionar no Brasil.

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“É difícil recomendar o Brasil [para investidores] no longo prazo sem uma definição mais clara de direção”, afirmou.

Em um ambiente global marcado pelos juros elevados, pela inflação ainda alta e pelos conflitos geopolíticos, o Brasil deveria adotar uma política mais pragmática e alinhada ao cenário externo, inclusive, para se aproveitar das oportunidades de um rearranjo político internacional.

“Não é um mundo para propor mais gastos, criticar o Banco Central e não se posicionar a favor de uma abertura maior da economia. Tem que remar de acordo com a corrente”, disse.

“É um mundo de juros altos. Por que o país vai gastar mais e se financiar mais em um mundo de juros altos? Por que vai gastar mais em um mundo de inflação alta? Por que vai perder a oportunidade de se inserir no mercado internacional? Esses são alguns dos desafios do Brasil. Ter um pragmatismo maior nas políticas e se alinhar mais ao contexto global.”

Diferencial de juros

Sobre a política monetária, o especialista avaliou que é errado focar no diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos para avaliar os próximos passos do Banco Central no Brasil.

Com os juros dos Estados Unidos em 5%, alguns economistas no mercado argumentam que o BC não teria espaço para cortar a Selic para além de 9% ou 8% ao ano em 2024 e 2025.

Segundo Giacomelli, o diferencial de juros é uma medida que indica o risco externo do país. O Brasil, no entanto, tem um balanço de pagamentos razoavelmente favorável e reservas internacionais elevadas. Essa situação, para ele, é suficiente para cobrir o risco externo, e o Brasil não está em uma posição na qual precisa ter um juro excedente para atrair capital especulativo.

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“Mais importante do que saber se o diferencial de equilíbrio é de 4 pontos [percentuais], 3 pontos, 5 pontos, é que esse juro real, que está em torno de 8%, é muito maior do que o necessário para compensar os riscos externos”, afirmou.

Perspectivas para a China

Em meio a uma crise no setor imobiliário e a indicadores de atividade mais fracos do que o esperado, a economia chinesa tem gerado preocupação entre os investidores em 2023.

Para Giacomelli, mais do que avaliar o crescimento da China neste ano, a discussão que importa é saber qual será a “velocidade de cruzeiro” da atividade econômica da segunda maior economia do mundo ao final desta década. “O país vai chegar com crescimento de 3% ou abaixo? Ou próximo de 4% para cima? Essa é a grande pergunta. Ninguém tem a resposta”, disse.

Nesse ambiente, segundo ele, seria prudente que o Brasil reduzisse os riscos fiscais, monetários e inflacionários e tentasse se inserir mais na cadeia de comércio internacional para não depender tanto da China para as exportações.

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“O Brasil vai estar muito mais bem posicionado se ele se inserir mais na cadeia global e se perseguir políticas que vão reduzir o risco local e atrair investimentos de diversas partes do mundo. Acho que é isso que o país teria que fazer”, afirmou.

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Filipe Serrano

É editor da Bloomberg Línea Brasil e jornalista especializado na cobertura de macroeconomia, negócios, internacional e tecnologia. Foi editor de economia no jornal O Estado de S. Paulo, e editor na Exame e na revista INFO, da Editora Abril. Tem pós-graduação em Relações Internacionais pela FGV-SP, e graduação em Jornalismo pela PUC-SP.