Bloomberg — O resultado surpreendente do primeiro turno da eleição presidencial no Brasil aumenta a perspectiva de uma recalibragem da política comercial, com um eventual governo de Flávio Bolsonaro propenso a estreitar os laços com Washington sem abandonar grande parte do esforço do país para diversificar mercados.
Flávio teve desempenho forte contra o presidente Lula na votação de domingo (4). Uma eventual vitória poderia trazer uma abordagem mais favorável ao mercado e uma relação mais próxima com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o que potencialmente abriria espaço para novos avanços em áreas como carne bovina, etanol, aço e minerais críticos.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Um novo governo, porém, não significaria necessariamente uma mudança completa de rumo para o Brasil. O país já trabalha para melhorar o comércio com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, ampliar as relações comerciais em outros mercados — esforço que ganhou urgência com a adoção de medidas pela China, maior parceiro comercial do país, para proteger algumas indústrias domésticas.
Leia também: Cosan reavalia venda de ativos após redução da dívida e alta impulsionada por eleição
No governo Lula, o tão aguardado acordo comercial entre Mercosul e União Europeia finalmente avançou, e negociações com países como Canadá, Japão e Emirados Árabes Unidos continuam em andamento.
Flávio também prometeu abrir mais mercados para produtos brasileiros e sinalizou maior disposição para estreitar os vínculos com Washington. Durante a campanha, disse que estaria aberto a acordos comerciais com os Estados Unidos e citou a Argentina de Javier Milei como exemplo.
“A campanha de Flávio enfatizou laços mais estreitos com os Estados Unidos, uma abordagem pragmática em relação à China e uma postura favorável ao mercado no comércio internacional”, escreveram analistas do Citigroup liderados por Gabriel Barra em relatório divulgado depois do primeiro turno da eleição.
Aço e etanol
Essa abordagem poderia limitar medidas destinadas a proteger a indústria brasileira das importações, segundo o Citi, que destacou a siderurgia local como particularmente exposta.
As siderúrgicas brasileiras pressionam o governo para retomar um acordo de 2018 que permitia ao país exportar aço aos Estados Unidos sem tarifas dentro de cotas determinadas. O Brasil era o maior fornecedor de placas de aço aos Estados Unidos antes de Washington encerrar o acordo e impor tarifa de 50%.
Leia também: Euforia nos mercados depende de plano ainda incerto de Flávio Bolsonaro
O etanol representa outro teste. Lula restabeleceu as tarifas sobre o produto americano que Jair Bolsonaro havia suspendido temporariamente em 2022, tornando o acesso ao mercado brasileiro uma fonte de tensão com Trump e um dos focos de uma investigação dos Estados Unidos sobre práticas comerciais do país.
Produtores brasileiros de etanol afirmam que qualquer iniciativa de um governo Flávio para eliminar a tarifa deveria vir acompanhada de concessões de Washington, entre elas maior acesso para o açúcar brasileiro.
“Reciprocidade, não subserviência”, disse Tarcilo Rodrigues, diretor da corretora de etanol Bioagencia.
Minerais críticos
Lula resistiu à pressão de Washington por uma parceria mais ampla em minerais críticos, ao passo que Flávio apresentou o Brasil como uma alternativa para os esforços dos Estados Unidos de reduzir a dependência da China.
“O Brasil é a solução dos Estados Unidos para romper a dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras”, afirmou em março.
O Brasil tem as maiores reservas de nióbio do mundo e as segundas maiores de terras raras, atrás apenas da China, mas responde por menos de 1% da produção global desses minerais. Ambos os candidatos querem manter no país uma parcela maior do processamento e da cadeia de valor, embora Flávio tenha dado mais ênfase à atração de capital e tecnologia estrangeiros.
A campanha de Flávio afirma que as parcerias estariam abertas a países dispostos a cooperar “sem preconceito ou viés ideológico” e prometeu acelerar o licenciamento ambiental.
Carne bovina
O Brasil está sujeito a tarifas de 25% sobre uma série de produtos devido a acusações dos Estados Unidos de práticas comerciais desleais.
Embora alguns dos principais produtos de exportação, como café, suco de laranja e carne bovina, estejam isentos dessa tarifa específica, o Brasil ainda não dispõe de uma cota própria para exportar carne bovina aos Estados Unidos, benefício concedido a outros exportadores, como a Argentina. Um alívio tarifário temporário para a carne bovina moída deve expirar antes do fim do ano.
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, e cerca de metade dos embarques tem a China como destino. Com a decisão do país asiático de limitar as importações para proteger produtores locais, os Estados Unidos surgiram como uma alternativa importante.
-- Com a colaboração de Ana Mano.
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
Eurasia eleva de 45% para 70% a chance de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno
Lula esperava vencer no primeiro turno; agora revê estratégia e busca virada difícil
©2026 Bloomberg L.P.










