Ajuste fiscal se impõe a quem vencer, e Congresso será o desafio, diz Salto, da Warren

Felipe Salto, economista-chefe da Warren Rena, diz à Bloomberg Línea que o mercado erra ao associar automaticamente a direita ao ajuste das contas públicas; para ele, tanto Flávio Bolsonaro quanto Lula terão de anunciar medidas logo após o segundo turno se eleitos

Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren
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Bloomberg Línea — O rali que levou o dólar para baixo de R$ 5 e derrubou os juros futuros após o primeiro turno refletiu a leitura do mercado de que uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) traria um ajuste mais rápido das contas públicas.

Para Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Rena, essa associação automática é um erro. Na avaliação dele, o ajuste fiscal vai se impor a quem vencer a disputa de domingo (25). Mas nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem Flávio terão caminho livre no Congresso para aprová-lo.

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“Não é porque está no PL que é a favor do ajuste. Acho que é um erro que alguns colegas do mercado cometem, associar automaticamente a direita ao ajuste. Não é verdadeiro historicamente”, disse Salto em entrevista ao Radar Eleitoral, podcast da Bloomberg Línea.


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O economista lembra que os maiores superávits primários do país, que medem o saldo entre receitas e despesas sem contar os juros, ocorreram nos dois primeiros governos Lula e entre 1999 e 2002, na segunda metade do governo Fernando Henrique Cardoso.

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Salto reconhece que o mercado precificou um cenário melhor com Flávio, mas pondera que essa leitura depende de premissas que podem não se confirmar. “O recado que tanto o Lula quanto o Flávio têm que entender é que o ajuste fiscal se impõe”, afirmou.

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O primeiro turno deu ao PL uma bancada de 121 deputados, além do avanço da direita nos governos estaduais e no Senado. Para Salto, isso pode facilitar a relação de Flávio com o Legislativo, mas não garante prioridade à agenda econômica.

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Ele cita como temas que podem ocupar o espaço do debate fiscal as propostas de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), as pautas de costumes e o indulto que Flávio já sinalizou que pretende conceder ao ex-presidente Jair Bolsonaro. “Essa direita que foi eleita tem outras agendas”, disse.

No caso de Lula, o desafio seria de governabilidade. “Não é o partido dele que tem 120 deputados. É o partido do grande opositor”, afirmou Salto. Na visão do economista, a capacidade de articulação de Lula com o centro e o centrão terá de ser muito maior do que foi no terceiro mandato.

Do lado de Flávio, Salto cita nomes cotados para a equipe econômica, como Marcelo Kayath e Adolfo Sachsida, que, segundo ele, conhecem o diagnóstico. “Os dois lados têm clareza de que o ajuste se impõe. A questão é como viabilizar politicamente”, disse.

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O prazo, na visão dele, é curto. “Os dois vão ter que fazer compromissos, e isso vai precisar ser rápido. Não um ajuste rápido, mas os anúncios terão que ser rápidos.”

A conta das medidas da campanha

O ponto de partida do próximo governo é pior do que o previsto no Orçamento. A Warren calcula que as medidas anunciadas na reta final da campanha terão impacto potencial de R$ 45 bilhões a R$ 47 bilhões em 2027.

A conta reúne a mudança no limite de faturamento do microempreendedor individual (MEI), a renegociação de dívidas bancárias do Desenrola 3.0 e o perdão de dívidas tributárias de MEIs. Também entram a bolsa para universitários, o reajuste do Bolsa Família e a perda de arrecadação com a proibição das bets. Salto se diz favorável ao fim das apostas, mas ressalta o efeito sobre a receita.

Sobre as demais medidas, o economista afirmou que o governo agiu dentro da legislação eleitoral e da Lei de Responsabilidade Fiscal, mas que as decisões foram tomadas “no atropelo”. Ele comparou o quadro às medidas adotadas pelo governo Bolsonaro antes da eleição de 2022.

Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren

O projeto de Orçamento de 2027 prevê superávit primário de 0,1% do PIB. “Hoje, nas minhas contas, não é possível”, disse Salto, que projeta déficit de 0,4% do PIB, próximo dos 0,38% que estima para 2026. Segundo ele, a proposta embute uma receita superestimada da CBS, o tributo federal criado pela reforma tributária, cuja alíquota ainda depende de cálculo do Tribunal de Contas da União (TCU) e de aval do Senado.

Salto, que foi secretário da Fazenda de São Paulo, afirma que não há crise de solvência no país. Ele cita o caixa do Tesouro, de R$ 1,2 trilhão a R$ 1,3 trilhão, as reservas internacionais e a dívida concentrada em reais. Mas a dívida bruta, de 82,9% do PIB, segue em alta. Segundo o economista, a despesa pública cresce em ritmo duas vezes e meia maior que o do PIB, em termos reais.

Do ‘feijão com arroz’ ao ‘espaguete à carbonara’

A Warren descreveu a política fiscal atual como “feijão com arroz”, em referência à expressão usada pelo ex-ministro Maílson da Nóbrega no governo José Sarney. Segundo Salto, o governo fez o básico, mas não foi além. “Há um problema que precisa ser resolvido, e só o arroz com feijão não vai resolver. Vai precisar de um espaguete à carbonara, uma coisa mais sofisticada.”

O economista defende um ajuste gradual, por causa do risco de recessão e da dificuldade política, concentrado nas fontes de pressão da despesa obrigatória. Na proposta que elaborou com o economista Josué Pellegrini, o limite de crescimento real das despesas no arcabouço fiscal cairia de 2,5% para 1%, e os pisos de saúde e educação passariam a se submeter a esse limite.

A proposta também desvincula o reajuste das aposentadorias do salário mínimo e prevê mudanças na previdência rural e na dos militares. O reajuste real dos benefícios seria definido a cada ano pelo Executivo e financiado prioritariamente com recursos das emendas parlamentares, que somam mais de R$ 50 bilhões.

Do lado da receita, Salto cita a isenção de títulos como LCI, LCA e debêntures incentivadas, que estima em R$ 20 bilhões, e a dedução de despesas médicas no Imposto de Renda, de R$ 40 bilhões.

“Não dá para mentir para a população. Algumas medidas vão ter que ser tomadas e vão ter custos de curto prazo”, disse. Segundo ele, o resultado seria juros menores e crescimento sustentado, e não “o voo de galinha”.

Salto considera improvável um cenário sem ajuste. Para ele, a realidade econômica costuma se impor pelo câmbio, como no fim de 2024, quando o dólar chegou a R$ 6,30 e levou Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a reafirmar o compromisso fiscal. “A taxa de câmbio é a variável que os políticos mais entendem como sendo o termômetro de problemas”, afirmou.

O economista lamenta que a campanha não tenha discutido as medidas duras e diz que os programas dos candidatos só poderão ser avaliados após o segundo turno. “Temos um problema e tem solução para esse problema. Vamos ver se a política vai permitir.”

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