Brasil avança no mercado global de sorgo, cresce na China e ameaça liderança dos EUA

Expansão do cultivo como segunda safra após a soja, apoio de fabricantes de etanol e abertura do mercado chinês impulsionam as perspectivas para o sorgo brasileiro, cuja produção pode alcançar 10 milhões de toneladas até 2031, segundo o Rabobank

Brasil se prepara para superar os EUA em mais uma commodity agrícola com ajuda da China (Foto: Edwin Remsberg/VWPics/AP)
Por Michael Hirtzer - Dayanne Sousa
PUBLICIDADE

Bloomberg — O crescente desafio que o Brasil representa para a agricultura dos EUA está se estendendo a outra cultura: o sorgo.

Depois de ceder a liderança ao Brasil na soja e no algodão, bem como em outros produtos agrícolas, incluindo a carne bovina, os agricultores norte-americanos correm agora o risco de perder terreno em um grão resistente à seca, há muito valorizado pelos compradores asiáticos.

PUBLICIDADE

O Brasil acaba de enviar seu primeiro carregamento de sorgo para a China e está aumentando a produção para quase igualar a dos EUA. Isso ocorre em um momento em que atritos comerciais e uma demanda de exportação instável deixam os produtores americanos em dificuldades durante a época da colheita, aumentando as preocupações de que o grão se torne a próxima vítima de uma mudança mais ampla em direção ao abastecimento sul-americano.


⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


“O Brasil não está mais tão atrás dos EUA atualmente”, afirmou Tim Lust, diretor executivo da Associação Nacional de Produtores de Sorgo, com sede em Lubbock, no Texas. “Eles certamente vêm crescendo rapidamente na produção de sorgo, assim como em muitas outras culturas.”

PUBLICIDADE
Produção de sorgo no Brasil sobe e se aproxima das exportações dos EUA

Os EUA também estão competindo com a Austrália e a Argentina, que abastecem a China e figuram como o segundo e o terceiro maiores exportadores mundiais do grão.

O desafio para os agricultores norte-americanos é que o maior mercado de exportação da cultura também tem sido um dos menos previsíveis.

A China utiliza o sorgo principalmente para alimentar suínos e produzir a bebida alcoólica baijiu, e suas compras do grão norte-americano já chegaram a ultrapassar US$ 2 bilhões há mais de uma década. No entanto, as exportações despencaram para cerca de US$ 186 milhões em 2019, durante a guerra comercial inicial do presidente Donald Trump com a China, e caíram para apenas US$ 86 milhões em 2025. Atualmente, a demanda por importações na China permanece fraca em meio a uma oferta interna abundante.

PUBLICIDADE

Leia também: Trump e Xi aliviam guerra comercial com corte de tarifas sobre US$ 60 bi em produtos

Essas oscilações representam um sinal pouco confiável para os agricultores norte-americanos que decidem o que plantar.

O sorgo, que normalmente é uma alternativa mais barata ao milho, já está sendo substituído em estados como Nebraska pelo milho e pela soja, que geralmente oferecem rendimentos maiores e uma base de demanda mais ampla.

PUBLICIDADE

A produção dos EUA deve cair 33% nesta safra em relação ao ano anterior, depois que os agricultores plantaram menos e a seca nas Planícies do Sul prejudicou os rendimentos.

“Obviamente, vivemos em um mundo competitivo, e essa é a realidade”, afirmou Lust. “É por isso que é muito mais importante para nós fecharmos esses acordos comerciais e podermos cultivar, produzir e atender às demandas de mercado dos nossos clientes.”

Lust enviou uma carta a Trump no mês passado solicitando que o governo garantisse compromissos anuais para que a China comprasse de 5 a 7 milhões de toneladas de sorgo dos EUA. A China deve reduzir as tarifas sobre o sorgo dos EUA, bem como sobre o trigo e o milho, de acordo com listas divulgadas pelos dois países após uma cúpula realizada em setembro entre Trump e Xi Jinping.

Leia também: China usa soja como ‘moeda de troca’ em disputa com os EUA e amplia aposta no Brasil

Alguns agricultores, por outro lado, estão buscando maneiras de escapar completamente da incerteza dos mercados de exportação.

Brad Dusenbery cultiva cerca de 700 acres em Nebraska e está construindo um pequeno moinho em Beatrice, no extremo sudeste do estado, onde pretende produzir uma farinha de sorgo para uso geral, destinada a produtos que vão desde biscoitos até pães de hambúrguer. Ele está fazendo a transição para métodos de produção orgânica e planeja evitar depender das exportações, já que tem pouca esperança de que haja alguma estabilidade no comércio.

“Meu objetivo principal é sair do ramo de exportação”, afirmou ele.

Os agricultores brasileiros, por sua vez, estão seguindo na direção oposta.

O sorgo tem ganhado cada vez mais espaço como segunda safra no país, plantado após a colheita da soja. O Departamento de Agricultura dos EUA afirmou em um relatório no ano passado que o grão é “amplamente adaptado” às condições climáticas e de solo de várias regiões do Brasil. Ele conta com o apoio de grandes fabricantes de etanol, como a Inpasa — a maior produtora de etanol do país iniciou recentemente a operação de novas usinas capazes de processar tanto milho quanto sorgo.

O Brasil mais do que dobrou a produção de sorgo nos últimos quatro anos, e espera-se uma expansão ainda maior. O Rabobank estima que a produção possa chegar a 10 milhões de toneladas métricas até 2031, ante cerca de 6 milhões na última safra.

Essa produção em expansão conta agora com um novo e importante mercado. A Cofco, empresa estatal chinesa de comercialização de grãos, embarcou em agosto a primeira carga de sorgo brasileiro com destino à China, alimentando o otimismo de que o país possa desafiar os EUA no mercado global.

“Já se fala que o Brasil ultrapassará os EUA como o maior produtor mundial em poucos anos”, afirmou Frederico Botelho, pesquisador da Embrapa, empresa estatal brasileira de ciência agrícola.

Estão previstas para embarcar dos portos brasileiros até o final de outubro deste ano até 2,4 milhões de toneladas de sorgo, principalmente com destino à China, de acordo com dados compilados pela Associação Nacional de Exportadores de Cereais (ANEC). Em comparação, em 2025 não houve embarques significativos.

“A China sempre sinalizou que não quer depender de um único fornecedor e deseja diversificar”, afirma Marco Castelli, diretor comercial da Agrobom, empresa local de armazenamento e comercialização de grãos com sede em Minas Gerais.

Isso significa que o mercado brasileiro de sorgo tem o que precisa para se desenvolver e crescer, acrescentou ele. “Este é um mercado que veio para ficar.”

Veja mais em bloomberg.com