Opinión - Bloomberg

O que as montadoras da Europa podem aprender com a indústria de relógios suíços

A crise do quartzo nas décadas de 1970 e 1980 forçou os relojoeiros suíços a se adaptarem, promovendo inovações e mudanças na produção e desenvolvendo relógios mais caros e sofisticados; a perseverança dos relojoeiros suíços pode servir como um modelo para a indústria automotiva da Europa

Mercedes Benz
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Opinion — Os relógios são para a Suíça o que os carros são para a Alemanha: um orgulhoso produto de exportação nacional que vem enfrentando tempos difíceis no cenário geopolítico.

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs tarifas de 39% sobre Berna em 2025, Nick Hayek, herdeiro da família Swatch, expressou sua raiva com um modelo de edição limitada em que os marcadores das horas “3” e “9” estavam invertidos no mostrador do relógio.

O clima se acalmou um pouco depois que executivos suíços levaram presentes à Casa Branca, incluindo um Rolex de ouro (“para o povo americano”). Ainda assim, a atual recessão na China mantém os fabricantes de relógios em alerta.

O desentendimento da Suíça com os EUA é, obviamente, em menor escala do que o imenso choque comercial que está atingindo montadoras alemãs como a Volkswagen e a Porsche, que estão cortando empregos e tendo que pedir apoio político à medida que carros chineses inundam o continente, o que inclui a flexibilização das metas de emissões. Mesmo assim, pode haver algumas lições suíças para a União Europeia sobre como sobreviver ao seu problema com a China.

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A economia suíça deve crescer a uma taxa relativamente animadora de 1,8% este ano, e parte disso se deve à sua força nas exportações de produtos como os farmacêuticos, que são mais difíceis de copiar do que carros. Mas também se deve ao fato de a Suíça ter desenvolvido resiliência após passar por sua própria crise comercial nas décadas de 1970 e 1980, quando os fabricantes de relógios sobreviveram a uma experiência de quase morte nas mãos de rivais estrangeiros.

Naquela época, a Seiko e outras marcas japonesas combinavam a precisão eletrônica na medição do tempo com uma fabricação eficiente. E, sem nenhum escudo protecionista para defendê-los durante o que ficou conhecido como a “crise do quartzo”, os relojoeiros suíços foram tirados de uma vida inteira de complacência.

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Os fabricantes suíços de relógios de luxo responderam com produtos mais sofisticados e caros, transformando em vantagem seu mecanismo de corda mais tradicional, embora menos preciso. O mercado de massa, por sua vez, passou por uma rodada brutal de reestruturação e consolidação, incorporando várias marcas ao Swatch Group, sob a liderança do pai de Hayek, Nicolas. As vendas se recuperaram com designs mais simples, baratos e coloridos, movidos pelo quartzo rejeitado pelos fabricantes de luxo.

O final feliz é que a Suíça manteve sua coroa na relojoaria, lucrando mais com relógios do que qualquer outro país, mesmo produzindo menos do que a Ásia. Mas o processo não foi indolor e exigiu realismo.

Na esteira da crise do quartzo, os empregos na relojoaria suíça despencaram de cerca de 90 mil em 1970 para aproximadamente um terço desse número, antes de se recuperarem e chegarem a mais de 60 mil atualmente. Foram tomadas decisões industriais difíceis que prejudicaram algumas regiões, e foi necessário capital novo.

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A verdadeira revolução de Hayek pai não foi inventar um relógio, mas sim reinventar a cadeia de suprimentos e transferir parte da produção para o exterior, mantendo, ao mesmo tempo, um núcleo de fabricação suíça, como escreveu o historiador Pierre-Yves Donze. O sucesso da Swatch chegou a levar o governo francês a contratar Hayek como consultor na década de 1990.

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A Europa pode aprender com a história dos Alpes mais uma vez, sem repeti-la à risca. Hoje, a situação é diferente. O déficit comercial diário de € 1 bilhão da UE com a China é insustentável e é impulsionado por desequilíbrios macroeconômicos que precisam ser combatidos.

Mas os políticos em Bruxelas e em outras capitais europeias precisam deixar claro que armas comerciais, como restrições voluntárias à importação, apenas adiarão — em vez de evitar — a pressão competitiva, especialmente à medida que empresas como a BYD (BYD) intensificam a produção dentro da Europa.

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Assim como os relojoeiros suíços na década de 1980, as gigantes automotivas da UE não podem fugir de escolhas difíceis ao enfrentar carros chineses bem fabricados que custam cerca de 20% menos. As empresas estabelecidas não devem ser superprotegidas. Foi há apenas alguns anos que elas estavam obtendo lucros recordes, distribuindo dividendos generosos e recomprando suas próprias ações.

Algumas iniciativas próprias já estão começando a dar frutos tanto no segmento de luxo quanto no de baixo custo do mercado automotivo. A Ferrari está apostando forte na escassez ao estilo Patek Philippe, e a Renault está investindo pesado em modelos retrô coloridos no estilo Swatch, como o elétrico R5.

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Infelizmente, o panorama geral é sombrio, sobretudo para as montadoras alemãs, cuja tão alardeada imagem de luxo está sendo seriamente desafiada por marcas chinesas que almejam patamares cada vez mais altos. A BMW está cortando milhares de empregos e só espera que as margens de lucro de longo prazo se recuperem no início da próxima década. “É necessária uma reestruturação mais profunda em toda a indústria”, afirma Michael Dean, da Bloomberg Intelligence.

Seria bom haver mais reinvenções no estilo Hayek. As montadoras europeias deveriam unir investimentos e recursos em áreas como software, onde a Volkswagen não conseguiu avançar sozinha com seu empreendimento Cariad, diz-me o analista da Allianz Trade, Guillaume Dejean. Ele também recomenda parcerias com empresas asiáticas em tecnologias nas quais elas têm uma liderança consolidada, como semicondutores e baterias.

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Isso significará aceitar que algumas batalhas industriais estão perdidas e que uma cadeia de suprimentos europeia totalmente soberana para carros elétricos talvez seja um sonho utópico demais — e muito caro, já que acrescentaria cerca de € 2.000 ao custo de cada veículo.

Os formuladores de políticas poderiam se concentrar, em vez disso, em redes de segurança para amparar os trabalhadores deixados para trás, por exemplo, convertendo fábricas de automóveis em instalações de fabricação de equipamentos de defesa. Eles também deveriam buscar obter mais reciprocidade no acesso ao mercado por parte de Pequim. A Suíça renovou recentemente um acordo de livre comércio com a China.

Nenhum país está imune a uma ordem comercial global cada vez mais protecionista, muito menos a Suíça, cuja cadeia de suprimentos está integrada à da UE. Mas nem tudo está perdido. Fora do coração alemão do “Das Auto”, países como a Irlanda e a Dinamarca conseguiram construir economias que se sobrepõem menos às exportações chinesas.

Mesmo dentro da Alemanha, a economia em geral parece estar dando a volta por cima, com o FMI dobrando as previsões de crescimento. Se a BMW, a Mercedes e outras marcas semelhantes conseguirem se tornar os Rolexes da indústria automotiva, isso ajudaria.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Lionel Laurent é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre o futuro das finanças e da Europa. Já trabalhou para a Reuters e a Forbes.

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