Opinión - Bloomberg

Por que o debate sobre IA precisa ir além da disputa entre modelos abertos e fechados

A aposta da China em inteligência artificial de código aberto ampliou a influência do país e pressionou empresas do Vale do Silício, mas a transparência desses modelos também traz novos desafios de segurança

AI
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Opinion — A adoção da inteligência artificial (IA) de código aberto pela China está dando trabalho ao Vale do Silício. E também se tornou uma importante fonte de influência para Pequim, atraindo desenvolvedores internacionais e emergindo como um pilar da proposta do presidente Xi Jinping para a colaboração com o Sul Global e a influência sobre a próxima revolução tecnológica.

Mas, à medida que os modelos abertos se tornam mais capazes, Pequim se esforça para preservar os benefícios da transparência sem permitir que essas mesmas vantagens se transformem em desvantagens.

Os governos não podem se dar ao luxo de ignorar a questão. Uma falha grave na segurança da IA poderia facilmente se espalhar além das fronteiras. Isso significa que os principais laboratórios, de Hangzhou a São Francisco, têm todos os motivos para se antecipar a esses riscos antes que ocorra uma catástrofe que possa desacelerar o desenvolvimento da IA globalmente — da mesma forma que o desastre em Fukushima, no Japão, levou a Alemanha a abandonar a energia nuclear.

Um argumento recorrente, principalmente por parte de pessoas dentro de grandes empresas de modelos fechados, é que os sistemas abertos são inerentemente menos seguros. A ideia faz sentido no papel: uma vez que os pesos dos modelos são publicados, os desenvolvedores perdem o controle sobre como eles são utilizados.

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No entanto, muitos dos abusos de grande repercussão envolvendo IA ocorreram com modelos fechados cujas proteções estavam falhas. Isso pode ser porque eles ainda apresentam melhor desempenho ou porque agentes mal-intencionados os consideram mais fáceis de usar do que adquirir o hardware e o know-how necessários para implantar alternativas abertas. De qualquer forma, isso significa que a segurança da IA não pode ser reduzida a um debate exclusivamente em torno do oposto entre aberto e fechado.

Essa dicotomia também obscurece nuances importantes, especialmente em relação a uma das ameaças mais imediatas: a cibersegurança. Sistemas abertos podem ser usados para fortalecer as defesas contra invasores que utilizam IA. Quando um agente mal-intencionado da OpenAI invadiu a Hugging Face durante os testes, a plataforma utilizou um modelo aberto da Zhipu, com sede em Pequim, como parte de sua resposta defensiva.

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Clement Delangue, cofundador da Hugging Face, argumentou após o susto que a IA “tornará o mundo mais seguro, e não menos seguro, assim como a maioria das principais tecnologias tem feito”. Sua recomendação foi equipar os defensores com as melhores ferramentas, “especialmente modelos abertos”, ao mesmo tempo em que se impõem penalidades mais significativas para desincentivar ataques cibernéticos assistidos por IA, bem como a divulgação obrigatória de incidentes e o compartilhamento de detalhes. Essa é uma maneira promissora de começar.

Na sexta-feira (14), a Zhipu revelou o GLM-5.3, que, segundo a empresa, é seu modelo mais capaz para tarefas de cibersegurança. Apesar de ser uma grande defensora pública da IA aberta, ela planeja permitir um acesso mais amplo em etapas, após rigorosas avaliações de segurança.

Isso significa que as empresas chinesas estão finalmente decidindo que os riscos à segurança são grandes demais para o desenvolvimento aberto? Provavelmente não. Embora a empresa reconheça riscos claros de dupla utilização, ela apresentou o GLM-5.3 como um “escudo aberto”, afirmando que o modelo pode ajudar os defensores a identificar pontos fracos mais cedo, validar riscos e acelerar a correção. Ela está tomando precauções sensatas. Mas uma empresa sozinha não pode resolver o problema.

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Também não é tão simples quanto proibir o acesso a modelos abertos. Além de ser inviável e prejudicar os desenvolvedores americanos, isso não elimina a ameaça e tem o potencial de levar o uso indevido ainda mais para a clandestinidade, ao mesmo tempo em que limita a distribuição mais ampla de ferramentas defensivas. Sem falar na concentração de poder nas mãos de alguns poucos laboratórios poderosos.

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Um equívoco comum é achar que modelos abertos significam que qualquer pessoa pode executar instantaneamente um poderoso sistema de IA por conta própria. Mas a implantação dos mais avançados deles exige um poder de computação substancial, levando muitos usuários a recorrerem a provedores de nuvem e de hospedagem. Os formuladores de políticas deveriam trabalhar com esses serviços para monitorar atividades suspeitas e sinalizar possíveis abusos.

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Segundo relatos, Washington está excluindo os modelos abertos da estrutura da administração Trump para a análise de IA avançada antes do lançamento. Isso é um erro. Sistemas abertos podem ser mais difíceis de controlar, mas isso torna os testes e a compreensão dos riscos ainda mais importantes, e não menos. A dificuldade de fiscalizar abusos não é motivo para fechar os olhos diante dessas capacidades.

Os alarmes de cibersegurança estão soando mais alto do que nunca. Mesmo que os legisladores não consigam chegar a um acordo sobre uma regulamentação mais ampla para a IA, eles devem se concentrar agora em fortalecer as defesas. Os formuladores de políticas devem tratar isso como infraestrutura crítica, em vez de deixar que cada empresa ou órgão se defenda por conta própria.

Isso significa compartilhamento de inteligência, padronização das melhores práticas e preparação centralizada, semelhante à forma como os governos se planejam para desastres naturais.

Ao mesmo tempo, é necessário muito mais financiamento e apoio da indústria e do governo para pesquisas sobre salvaguardas técnicas e segurança da IA de maneira mais ampla. Alguns estudos sugerem que a remoção de informações perigosas, como aquelas relacionadas a ameaças biológicas, dos conjuntos de treinamento pode ajudar a prevenir o uso indevido de modelos abertos (embora não esteja claro até que ponto tais métodos funcionarão para lidar com outros perigos, como riscos cibernéticos).

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A natureza competitiva do setor parece ter transformado a segurança em uma preocupação secundária. Isso não é sustentável.

É improvável que haja cooperação plena entre os Estados Unidos e a China no atual clima de desconfiança mútua. Mas algum diálogo é necessário. Como escreve Matt Sheehan, da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, sem informações sobre testes ou medidas de proteção, os líderes de ambos os países vão supor o pior.

A cúpula do próximo mês entre Trump e Xi poderia ser um bom ponto de partida, observa ele, desde que as lacunas na segurança da IA sejam tratadas como uma ameaça mútua, e não como moeda de troca para outras questões.

Se reduzirmos esses riscos a um debate sobre a competição entre laboratórios abertos e fechados — ou justificarmos a inércia como o preço de uma corrida global — todas as partes sairão perdendo.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Catherine Thorbecke é colunista da Bloomberg Opinion e cobre tecnologia na Ásia. Já foi repórter de tecnologia na CNN e na ABC News.

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