Bloomberg Opinion — Parece que Donald Trump está furioso com Pete Hegseth. Não faz muito tempo, o presidente ainda elogiava seu secretário de Defesa “machão”, dizendo que ele “adora a guerra”, inclusive aquela que Trump iniciou no Irã.
Agora, essa guerra se revela impossível de vencer e, aparentemente, interminável. Então Trump, desabafando sua frustração em Camp David, quis saber por que Hegseth o enganou ao não explicar antes que os Estados Unidos estavam ficando sem munição.
Todos nós deveríamos estar furiosos com Hegseth por ter exagerado na “letalidade” em geral e na guerra contra o Irã em particular. Mas deveríamos estar ainda mais furiosos com Trump, que, como presidente, deu a ordem para iniciar esse conflito equivocado.
Ambos poderiam ter dado ouvidos a qualquer um dos vários assessores que teriam simulado cenários em que as coisas dariam errado — desde o Irã fechando o Estreito de Ormuz até os Estados Unidos esgotarem suas munições.
O conselheiro mais importante alertou especificamente sobre esse último risco. Nos dias que antecederam o ataque dos EUA e de Israel ao Irã em fevereiro, Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto e oficial militar de mais alta patente, manifestou preocupação com a escassez de certos tipos de munições em um conflito prolongado. Trump o ignorou.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Agora os números estão chegando – e são preocupantes. Conforme noticiado pela Reuters, as Forças Armadas dos EUA já esgotaram “praticamente todo” o seu estoque global de mísseis ofensivos de alta precisão.
Entre eles estão os ATACMS (abreviação de Army Tactical Missile Systems) e os mais recentes, ainda mais precisos e de alcance ainda maior, os Precision Strike Missiles (PrSM). Os Tomahawks, que são mísseis de cruzeiro lançados de navios ou submarinos, também estão se esgotando.
A situação é a mesma para os mísseis defensivos, também chamados de interceptores. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um think tank de Washington, estima que os EUA tenham esgotado cerca de dois em cada três de seus mísseis Patriot e quase metade de seus sistemas de Defesa de Área de Alta Altitude Terminal – o THAAD, como é abreviado, derruba mísseis balísticos inimigos dentro ou mesmo fora da atmosfera.
É claro que o Pentágono agora vem pressionando fabricantes, como a Lockheed Martin e a Raytheon, para que produzam muito mais desses mísseis — com urgência. No entanto, levará anos para reabastecer os arsenais americanos.
Leia também: Trump diz que suspenderá novos ataques ao Irã, desde que haja um acordo ‘rápido’
Quais são, então, as consequências dessa nova e desnecessária escassez? Aqui está uma lista parcial, que vai do tático ao estratégico.
O efeito mais imediato é limitar as opções de Trump para uma escalada militar caso as negociações com o Irã — que, segundo ele, ocorrem nos bastidores — não cheguem a lugar nenhum. A escassez aparentemente já contribuiu para sua decisão de cancelar um grande ataque que ele havia ameaçado realizar neste mês.
Se Trump quiser retomar os bombardeios em grande escala, mas as Forças Armadas estiverem com poucos mísseis ofensivos lançados de terra ou do mar a longa distância, as aeronaves teriam que lançar os mísseis Hellfire.
Mas, para isso, precisariam voar perto ou sobre os alvos, onde os iranianos têm mais chances de abatê-las. E Trump não pode se dar ao luxo de um aumento no número de vítimas americanas, que já somam 18 mortos e centenas de feridos.
A mesma lógica se aplica aos mísseis defensivos. Se Trump intensificar o conflito, o inimigo retaliará atacando bases americanas em todo o Oriente Médio ou aliados dos EUA, como os emirados do Golfo ou a Jordânia. Com o estoque de interceptores limitado, os EUA teriam que decidir o que proteger e, por necessidade, o que deixar desprotegido.
Recentemente, observei um exercício de simulação de guerra organizado pelo Center for a New American Security, em Washington, no qual os participantes tiveram que tomar exatamente essas decisões. Cada escolha e cada resultado foram sombrios.
Leia também: Trump anuncia acordo para desarmamento do Hamas, mas cronograma segue indefinido
No nível estratégico, o Oriente Médio obviamente não é o único teatro de guerra em potencial. Espera-se que os EUA tenham uma presença militar global. Espera-se que dissuada a China de atacar Taiwan, por exemplo, ou as Filipinas, que são aliadas dos EUA por tratado.
Na Península Coreana, os EUA devem dissuadir a Coreia do Norte de sequer pensar em tentar novamente invadir o Sul e reacender a Guerra da Coreia (que nunca terminou formalmente).
E Washington continua sendo, apesar de aparências ocasionais em contrário, o membro mais importante da Otan; portanto, deveria estar pronta para dissuadir a Rússia — que já está travando uma guerra híbrida contra países europeus da Otan — de invadir os países bálticos, por exemplo.
Mesmo sem chegar a esse tipo de escalada, a escassez de mísseis americanos está prejudicando a Ucrânia, que esperava comprar mais armas americanas com dinheiro europeu para se defender contra o bombardeio constante de Moscou. Agora, simplesmente não sobrará muitas, ou nenhuma.
Não estou sugerindo que Pequim, Pyongyang ou Moscou analisarão a escassez de mísseis dos Estados Unidos isoladamente e darão a ordem para abrir novas frentes no que então ameaçaria se tornar uma guerra mundial.
Leia também: Sob pressão, Trump tem opções limitadas para reduzir os preços da gasolina
Mas não pode ter escapado à atenção deles que os EUA, que um ministro das Relações Exteriores francês certa vez chamou de “hiperpotência”, agora parecem muito enfraquecidos militarmente: quase sem fôlego e sem munição.
Trump, como de costume, está tentando descartar as notícias sobre sua frustração com Hegseth e a crise de munições como notícias falsas, alegando que “tudo tem sido extraordinário”. A realidade, como afirma Kori Schake, uma veterana do Conselho de Segurança Nacional de um governo republicano anterior, é que “longe de descobrir uma nova forma de guerra, Trump simplesmente descobriu novas maneiras de perder”.
Os estoques de munição são um indicador de uma catástrofe cuja magnitude só agora está se tornando clara, aos poucos. Trump pode atacar Hegseth e seus outros lacaios o quanto quiser. O que ele deveria admitir (mas não vai) é que causou um desastre global.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Andreas Kluth é colunista da Bloomberg Opinion. Já foi editor chefe do Handelsblatt Global e redator do Economist.É autor de “Hannibal and Me.”
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
Credores da Braskem cobram aporte da Petrobras antes do fim de prazo, segundo fontes
© 2026 Bloomberg L.P.



