Opinión - Bloomberg

Como as bolsas Hermès de US$ 50 mil de Haaland podem reaquecer o luxo

Atletas como o norueguês transformam acessórios masculinos em símbolo de status, e a tendência pode ajudar as grifes a recuperar vendas e margens após anos de desaceleração

Erling Haaland tem coleção de bolsas de luxo
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg — Após a eliminação da Noruega da Copa do Mundo, com a derrota para a Inglaterra no fim de semana passado, o atacante Erling Haaland, de 25 anos, ao menos pode se consolar com sua impressionante coleção de bolsas da Hermès e de outras grifes. E ele não está sozinho.

Jogadores como Virgil van Dijk, que apareceu com uma bolsa Chanel da coleção de estreia de Matthieu Blazy, e Jude Bellingham, embaixador da Louis Vuitton e fã dos modelos com o tradicional monograma da marca, transformaram a bolsa masculina de um acessório alvo de piadas em um objeto altamente desejado.

Com as vendas de artigos de couro de alto valor enfraquecidas nos últimos três anos, as bolsas masculinas podem ajudar a indústria global de bens pessoais de luxo, avaliada em US$ 400 bilhões, a sair da atual desaceleração.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

PUBLICIDADE

A coleção de Haaland — estimada em quase £ 1 milhão (US$ 1,3 milhão) — inclui uma rara Haut à Courroies (HAC) Birkin de edição limitada com múltiplos bolsos e outra HAC rara estampada com uma paisagem de estrada e montanhas. Cada uma custaria cerca de US$ 50 mil em sites de revenda — e boa sorte para encontrar qualquer uma delas em uma boutique da Hermès International.

Haaland impulsionou a Hermès | As buscas por suas Birkins atingiram o pico no dia do jogo entre Inglaterra e Noruega

Poucos itens representam tão bem o ciclo de ascensão e queda do luxo ostensivo dos últimos seis anos quanto a bolsa. Há cerca de 25 anos, a chamada it bag tornou-se o maior símbolo de status entre as mulheres, com modelos como a Baguette, da Fendi, a City, da Balenciaga, e a Saddle, da Dior, alcançando status de ícones. Nos últimos anos, porém, poucos modelos despertaram o mesmo entusiasmo dos consumidores.

Ao mesmo tempo, os preços dispararam: o valor médio das bolsas de luxo aumentou 60% desde 2019, segundo Laurent Vasilescu, analista do BNP Paribas.

PUBLICIDADE
A alta dos preços das bolsas prejudicou as vendas | O preço médio das bolsas de luxo subiu 60% desde 2019

Nesse contexto, as joias passaram a oferecer uma relação custo-benefício mais atraente. Soma-se a isso a concorrência do mercado de segunda mão e de marcas mais acessíveis, como a Coach, da Tapestry.

Segundo Vasilescu, o número de bolsas premium vendidas — modelos com preço superior a US$ 500 nas lojas — vem caindo em toda a indústria desde 2022.

As bolsas se tornaram um peso para as vendas do setor de luxo | Em toda a indústria, o volume de bolsas e pequenos artigos de couro vendidos é estimado em cerca de 10% abaixo do nível de 2019

A desaceleração nas vendas de bolsas reduziu as receitas e pressionou a rentabilidade do setor de luxo. Para as principais marcas, as bolsas têm margem bruta — a diferença entre o custo de fabricação e o preço de venda — superior a 80%, segundo Mario Ortelli, CEO da consultoria Ortelli.

Leia também: Como bolsas de luxo de Hermès, Louis Vuitton e Goyard viraram ativos de investimento

PUBLICIDADE

Por isso, vender mais bolsas para homens pode ajudar a reduzir a perda de vendas e lucros. Em 2025, os homens responderam por apenas um quarto do mercado global de bolsas de luxo, de acordo com a Bain & Co.

Promover bolsas para homens representa uma oportunidade clara | Os homens respondem por uma parcela menor das vendas de bolsas de luxo do que em outras categor

A atual participação masculina provavelmente reflete o fato de muitos consumidores da Ásia já estarem acostumados a usar bolsas de luxo e de alguns modelos sofisticados, como as mochilas da Prada, terem maior apelo entre os homens.

No Ocidente, porém, esse hábito ainda não se consolidou, criando uma oportunidade clara para as grandes marcas. Com jogadores de futebol exibindo suas bolsas, logo depois de o armador do New York Knicks Tyler Kolek aparecer com um modelo Margaux, da americana The Row, e do campeão de Wimbledon e embaixador da Gucci, Jannik Sinner, usar bolsas exclusivas da grife italiana, esse cenário pode mudar rapidamente.

PUBLICIDADE

As marcas de luxo, lideradas pela LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton SE, têm apostado no esporte como forma de se conectar com novos públicos. Como consequência, atletas se transformaram em influenciadores de moda e precisam dar visibilidade aos patrocinadores de artigos esportivos dentro e fora dos campos e das quadras.

Leia também: Setor de luxo busca contornar os percalços da guerra e manter otimismo para 2026

Mas os deslocamentos até as competições oferecem espaço para expressar seu estilo pessoal — embora alguns, como Kylian Mbappé, também mantenham contratos com grifes de luxo, como a Dior, do grupo LVMH. Na NBA, o percurso entre a entrada da arena e o vestiário virou praticamente uma passarela antes dos jogos.

Embora artigos de luxo permitam exibir riqueza, os homens ainda têm poucas opções para isso. Os relógios continuam sendo o principal símbolo de status, mas as joias ganham espaço, com alguns atletas, como o jogador de beisebol Miguel Rojas, usando colares e pulseiras da Van Cleef & Arpels.

Para convencer mais homens a comprar bolsas, as empresas de luxo precisarão ajustar suas estratégias.

Embora Mbappé tenha sido visto com uma pequena clutch da Dior, a maioria dos jogadores de futebol tem preferido modelos maiores, talvez porque funcionem como sofisticadas bolsas para equipamentos esportivos. Além disso, elas lembram menos uma bolsa feminina tradicional.

Os últimos dois anos foram marcados pela ascensão das microbags. As bolsas em tamanho reduzido permitiram que as grifes oferecessem produtos mais baratos sem reduzir explicitamente os preços. Mas essa tendência provavelmente atingiu seu auge.

Agora, as empresas dedicam mais atenção aos modelos maiores, tanto para homens quanto para mulheres, disse Claudia D’Arpizio, responsável pela área global de moda e luxo da Bain.

A Chanel lidera esse movimento com os modelos oversized lançados por Matthieu Blazy. Mas outras grifes deveriam seguir o exemplo, especialmente a Hermès.

Ao longo do torneio, Haaland gerou US$ 8,8 milhões em valor de marca para a Hermès, muito acima das demais empresas de luxo monitoradas pela Launchmetrics, especializada em analisar redes sociais e outras menções.

Haaland aumentou o valor da marca Hermès | A grife foi a que mais gerou repercussão nas redes sociais e em outras plataformas durante o torneio

Luca Solca, analista da Bernstein, constatou que as Birkins menores são revendidas pelos maiores múltiplos em relação ao preço original, reflexo de sua popularidade, especialmente entre consumidores asiáticos.

Relatos do mercado indicam que conseguir modelos maiores nas lojas da Hermès é ainda mais difícil, já que a empresa buscou atender à demanda pelas microbags. No entanto, as buscas por Birkins maiores em plataformas de revenda, como The RealReal, e na plataforma de inteligência de preços Secondsense aumentaram desde o início da Copa do Mundo.

A Hermès deveria reequilibrar sua produção para que mais homens possam imitar seus jogadores favoritos.

Haaland reacendeu o interesse pelas Birkins maiores | As buscas por bolsas de maior tamanho dispararam nos sites de revenda

A mudança das bolsas pequenas para as grandes também permite ao setor de luxo explorar outra forma de entregar mais valor ao consumidor: tornar os produtos mais funcionais e versáteis.

Embora modelos maiores sejam mais pesados, podem ser usados diariamente para transportar um notebook, substituindo uma pasta executiva, ou roupas de treino. Também servem como bagagem de mão para viagens curtas, reduzindo o custo por uso.

À medida que os homens se sintam mais confortáveis usando bolsas, é provável que passem a experimentar diferentes estilos.

O músico Harry Styles costumava usar bolsas menores da Gucci quando seu amigo Alessandro Michele era diretor criativo da grife pertencente à Kering SA. Mais recentemente, foi visto com uma Chanel de estampa de oncinha. Ainda assim, as bolsas de grandes dimensões são um bom ponto de partida.

A Copa do Mundo logo cairá no esquecimento. Cabe ao luxo ostentação garantir que o interesse — e qualquer impulso nas vendas — gerado pelas Birkins masculinas de Haaland perdure muito depois do apito final.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Andrea Felsted é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre os setores de varejo e bens de consumo. Anteriormente, escrevia para o Financial Times.

Veja mais em bloomberg.com

Leia também:

Por que a queda da taxa de natalidade pode ser menos preocupante do que parece