Bloomberg — A Itaú Asset Management, maior gestora de crédito privado do Brasil, vem ampliando posições em academias, locadoras de veículos, energia, saneamento e operações de crédito estruturado.
A estratégia busca aproveitar oportunidades criadas pelo aumento dos retornos exigidos pelos investidores em um ambiente de maior aversão ao risco em meio à intensificação dos eventos de reestruturações de dívidas no país.
A gestora vê oportunidade para comprar ativos descontados e reforçar posições em operações consideradas atrativas diante das perdas recentes, segundo Fayga Czerniakowski Delbem, sócia e superintendente de crédito core da Itaú Asset.
A Itaú Asset administra cerca de R$ 600 bilhões na classe de crédito privado, o equivalente a aproximadamente 25% do mercado brasileiro.
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Após anos de euforia, o mercado brasileiro de fundos de crédito privado entrou em uma fase mais desafiadora.
Os investidores agora exigem retornos mais elevados para aplicar em títulos de dívida corporativa, em razão das dificuldades financeiras enfrentadas por grandes empresas, como Raízen e GPA, num ambiente de juros altos. Muitos fundos passaram a render abaixo do CDI.
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Segundo Fayga, o movimento recente reflete um ajuste técnico e uma reprecificação do risco, mas não configura uma crise sistêmica.
“Quando o mercado assusta, ele generaliza e vende tudo a efeito manada. Mas há operações pagando CDI +1,5% a CDI +3% em setores que gostamos”, afirmou Fayga em entrevista à Bloomberg News.
Os segmentos de academias e locadoras de veículos são exemplos de apostas táticas da gestora, atraentes pelos preços atuais dos ativos, segundo ela.
Além disso, os setores regulados, como energia e saneamento, são exemplos de aposta estrutural diante da previsibilidade.
A preferência por esses setores reflete o ambiente de juros elevados no país, que favorece negócios menos expostos à volatilidade macroeconômica e com margens mais robustas, segundo a gestora.
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A Itaú Asset também tem ampliado exposição a FIDCs no segmento de crédito estruturado.
Segundo Fayga, a gestora prioriza operações estruturadas e colocações privadas em setores nos quais possui maior proximidade com as empresas e capacidade de análise proprietária de risco.
“De forma estrutural, a gente segue vendo prêmio relativo ao risco muito interessante. Isso, em todos os fundos”, disse.
“No Sinfonia, veio crescendo hoje na parcela estruturada. A gente veio ativamente aumentando essa participação”. Sinfonia é um fundo de crédito privado com mandato amplo, que rendeu 144,91% do CDI em maio.
Resgates
A Itaú Asset vê sinais de normalização na indústria brasileira de fundos de crédito privado, após uma onda de resgates impulsionada pelos recentes episódios de estresse no crédito corporativo.
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Fundos de crédito locais registraram saídas de cerca de R$ 12 bilhões em maio, incluindo veículos de investimento com mais de 50% de seus ativos alocados em crédito de empresas e bancos, segundo a gestora JGP.
Ainda assim, o ritmo de saídas desacelerou em relação aos quase R$ 29 bilhões resgatados em abril, mostraram os dados.
“Os resgates seguem bastante controlados e o mercado já deu uma acalmada”, disse Fayga. Segundo ela, os títulos de crédito começaram a ter alívio novamente nas últimas semanas, em meio ao retorno gradual de compradores ao mercado. “O volume de resgates já tem tendência de redução nos fundos de crédito tradicionais.”
A indústria de fundos de crédito privado está mais resistente a momentos de maior aversão ao risco, pois ganhou liquidez após dois anos de ciclo favorável, impulsionados por altos rendimentos e maior financiamento via mercado, segundo Fayga.
O estoque de debêntures, títulos corporativos de renda fixa emitidos por empresas, mais do que dobrou desde 2018, alcançando R$ 1,4 trilhão, segundo dados coletados pela associação dos mercados de capitais do Brasil.
“Não há pressão para vender ativo bom num momento de resgate”, disse. “Se encerramos maio com cotas boas, se entrega um ou dois meses de quotas boas, podemos ter uma inflexão importante no fluxo de resgates.”
Diante das incertezas, investidores migraram para estratégias mais conservadoras, buscando refúgio em fundos de menor risco e em CDBs. Os fundos com exposição a bancos registraram forte demanda, segundo a gestora.
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Apesar da reprecificação em parte do mercado, os ativos de maior qualidade pouco se moveram: papéis AAA seguiram com demanda robusta, com investidores ainda dispostos a aceitar retornos comprimidos, de acordo com Fayga.
Outras gestoras de crédito privado no Brasil também começam a se preparar para um cenário mais estável, com a percepção de que o pior momento da indústria já pode ter ficado para trás.
“Estamos trabalhando com a premissa de que o pior já passou”, disse Conrado Rocha, sócio e gestor na Polo Capital. “Os fundos estão remunerando bem mais do que estavam em dezembro. É uma oportunidade.”
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