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Opep em crise existencial: saída dos Emirados Árabes eleva tensão sobre futuro do grupo

Ruptura sinaliza mudança estrutural no mercado de petróleo enquanto país busca ampliar produção e desafia estratégia saudita de controle de preços

Opep
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — Três das palavras mais perigosas no mercado de petróleo são “a Opep morreu”. Seu obituário já foi escrito inúmeras vezes — sempre prematuramente. O mundo financeiro global oferece outra frase igualmente famosa: “Desta vez é diferente”.

A saída dos Emirados Árabes Unidos do cartel do petróleo, anunciada na terça-feira (28) e com vigência a partir de 1º de maio, é quantitativamente mais grave do que as retiradas anteriores e representa a maior crise existencial que o grupo enfrentou desde sua fundação, há mais de meio século.

O êxodo quase contínuo de países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) durante a última década — Indonésia em 2016, Catar em 2019, Equador em 2020 e Angola em 2023 — proporcionou ampla oportunidade para preparar elogios fúnebres, todos os quais se revelaram errados.


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Mas os Emirados Árabes Unidos estão em outro patamar: é um país com ambições de extrair significativamente mais petróleo, possui recursos geológicos para sustentar seu entusiasmo e, mais importante, tem dinheiro para transformar seu sonho em realidade.

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A decisão abre caminho para que outros com ambições de extrair mais petróleo sigam o exemplo.

Venezuela? A próxima da fila, não importa o que você ouça hoje em Caracas. O governo de Delcy Rodríguez continua comprometido com o cartel, mas a relação entre o partido de oposição da Venezuela — que provavelmente assumirá o poder nas próximas eleições — e a Opep tem sido historicamente hostil.

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Se o poder mudar de mãos, é provável que a Venezuela siga os passos dos Emirados Árabes Unidos. E, ao analisar a aliança mais ampla da Opep+, fica claro que vários de seus membros — principalmente o Cazaquistão — já estão com um pé fora do grupo.

O momento do anúncio desta semana, em plena guerra com o Irã, pode levar os observadores a associá-lo ao conflito militar.

É claro que os Emirados Árabes Unidos ficaram chocados com os ataques iranianos, o fechamento do Estreito de Ormuz e a resposta ambivalente de alguns de seus vizinhos, principalmente Kuwait e Omã. Mas sua decisão de sair da Opep tem pouco a ver com a República Islâmica; o caminho para a saída começou em Riade, com um desvio pelo Texas.

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Com a produção de petróleo e gás natural dos EUA disparando na esteira de sua revolução do xisto, Abu Dhabi e Riade travaram uma guerra fria sobre a direção do cartel por quase uma década.

Resumindo, os Emirados Árabes Unidos queriam produzir mais, mesmo correndo o risco de preços mais baixos; os sauditas, aliados à Rússia, queriam manter o petróleo o mais próximo possível dos US$ 100 por barril, mesmo que isso significasse que o grupo tivesse de reduzir a produção, mantendo barris como capacidade de reserva.

Durante a maior parte desse período, a disputa foi mantida em segredo, mas a pressão dos Emirados por uma produção maior veio à tona em julho de 2021, quando Riade e Abu Dhabi entraram em conflito em uma reunião da Opep+, forçando o grupo a adiar o encontro. A reunião só foi retomada vários dias depois, quando os Emirados Árabes Unidos recuaram sob imensa pressão saudita. Foi uma experiência humilhante que Abu Dhabi não esqueceu.

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Agora, o emirado está usando a guerra como pretexto diplomático. Mas não se enganem: os Emirados Árabes Unidos estão deixando a Opep para produzir mais petróleo — contra os interesses da Arábia Saudita.

Abu Dhabi teve o cuidado de evitar assustar o mercado de energia, prometendo “agir com responsabilidade, trazendo produção adicional ao mercado de forma gradual e moderada, alinhada com a demanda e as condições do mercado”. Mas está claro que a produção dos Emirados Árabes Unidos segue apenas um caminho: para cima.

Antes da guerra, o país já bombeava bem acima de seu teto oficial da Opep, produzindo cerca de 3,7 milhões de barris de petróleo bruto por dia. Ele tem capacidade para produzir provavelmente algo próximo a 4,5 milhões de barris e pretende ser capaz de entregar 5 milhões até o final de 2027. Não se surpreenda se ele anunciar em breve metas ainda mais ambiciosas para 2030.

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Mais petróleo dos Emirados Árabes Unidos é exatamente o que o mercado precisará no final deste ano, quando — pois é uma questão de quando e como, e não se — o Estreito de Ormuz reabrir.

Com a via navegável bloqueada, a economia global está esgotando seu estoque de petróleo, consumindo barris armazenados tanto em reservas estratégicas quanto em tanques comerciais.

Quando o conflito terminar, Abu Dhabi, livre das restrições da Opep, poderá bombear à vontade, fornecendo ao mundo os barris necessários para reconstruir esses estoques, efetivamente colocando um teto nos preços.

O mercado global de petróleo está enfrentando uma escassez extrema neste momento. Em poucas semanas, talvez alguns meses, ele poderá enfrentar uma enxurrada de eventos: a reabertura do Estreito de Ormuz e, simultaneamente, uma nova guerra de preços. A última foi travada entre a Arábia Saudita e a Rússia em 2020. A próxima poderá ser um conflito entre vizinhos, com Riade e Abu Dhabi em lados opostos.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Javier Blas é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre energia e commodities. Anteriormente, ele foi editor de commodities do Financial Times e é coautor de “The World for Sale: Money, Power, and the Traders Who Barter the Earth’s Resources”.

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