Bloomberg Opinion — A missão Artemis II ao redor da Lua proporcionou a uma nação dividida uma onda de entusiasmo coletivo muito necessária, proveniente da conquista de um objetivo ambicioso. A missão — uma repetição mais tranquila e menos complicada do voo da Apollo 8 em 1968 — foi o primeiro passo em direção ao sonho de retornar à Lua e nunca mais sair de lá.
Agora vem a parte arriscada.
A Nasa está apostando em duas empresas espaciais relativamente novas, a SpaceX e a Blue Origin, para construir módulos de pouso lunar e entregá-los prontos para testes na missão Artemis III no próximo ano.
Isso abriria caminho para a primeira missão de volta à superfície da Lua desde o último voo da Apollo em 1972. A Blue Origin, fundada pelo bilionário Jeff Bezos, está prestes a lançar seu foguete New Glenn pela terceira vez e só agora trabalha em uma espaçonave orbital para transporte humano, o módulo de pouso Blue Moon.
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A SpaceX, protagonista dominante no florescente mercado espacial comercial, está atrasada em seu enorme módulo de pouso lunar e está mais distraída do que nunca com uma oferta pública inicial de ações que pode arrecadar até US$ 75 bilhões.
A empresa espacial de Elon Musk, que está assimilando a aquisição da xAI em fevereiro, informou aos investidores como está trabalhando em produtos de conexão direta com celulares e planeja construir uma rede de satélites de data center. O foco agora está no crucial primeiro voo de teste de sua terceira versão do foguete Starship, cujo lançamento já foi adiado por um mês e acontecerá em maio.
Esse é o desafio para Jared Isaacman, o novo administrador da Nasa. De um lado, ele conta com a SpaceX, uma estrela do setor espacial que possui experiência na construção de cápsulas e no envio de astronautas à Estação Espacial Internacional, mas que tem assuntos mais urgentes em sua agenda; de outro, ele tem a Blue Origin, uma potencial estrela em ascensão que ainda precisa provar seu valor.
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A situação também é uma oportunidade para a Nasa retomar o ânimo de assumir riscos necessários para tirar a agência da letargia pós-ônibus espacial e reacender a paixão por alcançar uma meta ambiciosa sob a pressão de prazos.
A justificativa para a missão da base lunar está mais clara do que nunca, agora que os cientistas confirmaram a existência de água, hélio-3 e, potencialmente, outros minerais valiosos desde as missões Apollo. A ameaça de a China superar os Estados Unidos na construção de uma base lunar permanente vai muito além do simbolismo e talvez marque o momento em que os EUA começaram a perder sua posição como superpotência dominante na Terra.
Isaacman é a pessoa certa para liderar a agência espacial durante a ascensão da indústria espacial comercial, com seus grandes lucros potenciais e custos de lançamento muito mais baixos devido aos foguetes reutilizáveis.
Ele é um empreendedor que, ainda adolescente, fundou uma empresa de processamento de pagamentos — a Shift4 Payments — na casa dos pais. Ele também pilota caças em shows aéreos e fundou uma empresa — a Draken International — para treinar pilotos militares. Isaacman comandou duas missões espaciais autofinanciadas com uma tripulação inteiramente civil a bordo da nave Dragon, da SpaceX.
Esse entusiasmo pelo espaço e suas habilidades de liderança executiva podem ser a combinação certa para colocar o programa Artemis de volta nos trilhos. Ele busca recuperar o ânimo na Nasa, convertendo milhares de postos de trabalho de prestadores de serviços em cargos efetivos, e prometeu reconstruir a excelência técnica e de engenharia da agência.
Em uma apresentação crucial do programa lunar revisado em março, Isaacman disse que especialistas da Nasa seriam incorporados a empresas em toda a cadeia de suprimentos para evitar contratempos e ameaçou tomar “medidas drásticas” se os contratados caíssem no mau hábito de ultrapassar prazos e orçamentos. Manter o ímpeto com lançamentos frequentes da Artemis é importante para preservar o apoio ao programa.
De acordo com o novo plano, a Nasa adicionou um voo de teste para a Artemis III em 2027 para demonstrar a acoplagem e a transferência de tripulação entre a espaçonave Orion da Lockheed Martin e os novos módulos de pouso lunar construídos pela SpaceX e pela Blue Origin.
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A agência deixou claro que realizará esse teste na órbita terrestre baixa com apenas um módulo de pouso, caso o outro não esteja pronto — uma dose de competição saudável. Para levar astronautas à Lua em 2028, os módulos de pouso precisarão reabastecer no espaço — outra capacidade complexa que precisará ser comprovada.
Ao contrário das missões Apollo, nas quais a pequena nave espacial e o módulo lunar eram carregados juntos no gigantesco foguete Saturn V, a nave espacial Orion e os módulos de pouso lunares propostos são muito maiores e devem ser lançados separadamente.
O módulo lunar Eagle, que pousou pela primeira vez na Lua em 1969, tinha um espaço habitável de 6,6 metros cúbicos. O módulo de pouso da SpaceX terá quase 10 vezes mais espaço.
Em 1960, os engenheiros da Nasa e seus contratados construíam equipamentos e realizavam testes usando lápis, papel e réguas de cálculo. Hoje, simulações em computador e montanhas de dados de telemetria aceleram os projetos e eliminam a maior parte das suposições.
Cabe agora à SpaceX e à Blue Origin provar que uma nova geração de empresas espaciais comerciais tem a disciplina de mercado necessária para projetar veículos espaciais inovadores e cumprir prazos.
Isaacman deve pressionar a Blue Origin, que ficou para trás nessa corrida dos bilionários ao espaço, e deve manter a SpaceX focada na tarefa em mãos em meio ao alvoroço de uma venda recorde de ações. Isso certamente representa um risco. Cabe a Isaacman garantir que, no final, haja também uma recompensa.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Thomas Black é colunista da Bloomberg Opinion e cobre logística e manufatura. Já escreveu sobre as fábricas e transportadoras dos Estados Unidos e sobre a indústria, a economia e o governo do México.
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