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‘Homem do passado’: Lula encara desgaste político e se arrisca a repetir erro de Biden

Apesar de um terceiro mandato marcado por ganhos reais de renda, desemprego em mínima recorde e redução da pobreza, presidente já não é o favorito para vencer as eleições e talvez precise considerar desistir da candidatura antes do prazo final de registro, em agosto

Joe Biden y Lula da Silva
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — A pouco mais de seis meses das eleições presidenciais no Brasil, as chances de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva garantir um quarto mandato sem precedentes estão diminuindo rapidamente.

Pesquisas recentes sugerem que o ex-líder sindical está perdendo terreno. Uma pesquisa da AtlasIntel para a Bloomberg News, divulgada na quarta-feira (25), mostra que Lula agora perderia um segundo turno para o rival Flávio Bolsonaro por um ponto percentual. Em dezembro, ele liderava por 12 pontos em relação a Flávio, uma ilustração marcante de quão rapidamente o senador de 44 anos reduziu a diferença.

Mais preocupantes para o presidente de esquerda são os sinais mais amplos de desgaste.

A parcela de brasileiros que avalia seu governo como bom ou ótimo caiu para 41%. Ele também lidera a lista de políticos em quem os eleitores não votariam, com 52% dizendo que não o apoiariam em nenhuma circunstância. Além disso, os eleitores demonstram maior preocupação com uma nova reeleição de Lula do que com uma presidência de Flávio Bolsonaro, apesar da prisão de seu pai, Jair Bolsonaro, por planejar um golpe.

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Os mercados de previsão contam uma história semelhante. A Kalshi mostrou Lula atrás de Bolsonaro pela primeira vez na semana passada, depois que o atual presidente começou o ano com uma vantagem de mais de 30 pontos percentuais nas chances de vitória.

Poucos teriam imaginado tal cenário antes mesmo de a campanha começar oficialmente.

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Apesar de um terceiro mandato marcado por ganhos reais de renda, desemprego em mínima recorde e redução da pobreza, Lula já não é o favorito. Se algo mudou, é que o veterano porta-estandarte da esquerda na América Latina agora parece ser o desafiante, alguém que precisaria de uma campanha formidável para se manter no poder.

Seria um erro atribuir sua fraqueza a ventos contrários de curto prazo, sejam o aumento dos preços dos combustíveis ligado à guerra no Oriente Médio ou as consequências do escândalo do Banco Master.


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O problema mais profundo é estrutural, algo que eu já havia apontado há mais de um ano: à medida que ele se aproxima dos 81 anos e se prepara para sua sétima candidatura presidencial, Lula parece cada vez mais desalinhado de um Brasil transformado desde que tomou posse, pela primeira vez, em 2003.

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O Brasil de hoje é mais rico, mais conservador e mais evangélico. Sua classe média em expansão é menos sindicalizada, mais empreendedora e frequentemente autônoma, muito distante da base operária industrial sobre a qual Lula construiu sua carreira ou das políticas de bem-estar social que defendeu.

Os eleitores também são mais sofisticados, mais céticos em relação a instituições e mais receptivos a candidatos que prometem uma ruptura clara com um sistema amplamente visto como servindo às elites empresariais e políticas estabelecidas.

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Por todos seus esforços para recuperar uma imagem anti-establishment, Lula não é um candidato óbvio para canalizar esse sentimento, tendo disputado sua primeira eleição para presidente há quase quatro décadas.

Pior ainda, os brasileiros continuam a citar a corrupção, o crime e o narcotráfico como suas principais preocupações, questões que dificilmente favorecem o atual presidente.

A diferença geracional é especialmente gritante. Entre os eleitores de 16 a 24 anos, faixa na qual a direita vem fazendo avanços de forma clara, a desaprovação de Lula se aproxima de impressionantes 73%, de acordo com a AtlasIntel.

Para muitos desse grupo, o ícone do Partido dos Trabalhadores — que completaria 85 anos ao final de um quarto mandato — oferece glórias do passado que se esvaem rapidamente, em vez de uma visão convincente para o futuro.

Os paralelos com Joe Biden são difíceis de ignorar.

Aos 81 anos, Biden inicialmente buscou a reeleição em 2024, antes que a pressão interna do Partido Democrata o forçasse a desistir. Lula, sem dúvida, permanece em ótima forma, e muitos — inclusive eu — invejariam sua resistência e determinação política. Ainda assim, esta não é apenas uma questão de capacidade física. Em uma era que valoriza novidade e ruptura, de Javier Milei a Zohran Mamdani, ele corre o risco de parecer um homem do passado.

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Essa realidade deveria suscitar uma reflexão séria no Palácio do Planalto. Se os números das pesquisas continuarem a piorar, Lula talvez precise considerar desistir da candidatura antes do prazo final de registro, em agosto.

Como mostra a experiência de Biden, uma vez que a idade se torna uma narrativa determinante da campanha, é difícil revertê-la. Lula pode se sentir tentado pela ideia de que a eleição será decidida por uma margem mínima, como em 2022, mas, acima de tudo, deve resistir a repetir a trajetória de seu homólogo americano.

Diferentemente de ciclos eleitorais anteriores, o governo tem uma alternativa viável no ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, um formulador de políticas competente e experiente que aparece nas pesquisas próximo de Bolsonaro, embora com uma taxa de rejeição cerca de dez pontos menor.

É claro que, sendo o Brasil a terra das incógnitas conhecidas, muitas variáveis ​​moldarão a disputa até outubro.

Os preços dos combustíveis podem alimentar a inflação, forçando novos subsídios. O potencial acordo de delação do influente banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, pode se revelar politicamente explosivo, especialmente para um Supremo Tribunal Federal manchado por seus laços aparentemente estreitos com o governo.

Uma irrupção de Donald Trump na campanha brasileira poderia estimular o sentimento antiamericano.

E embora Flávio tenha ganhado ímpeto, ele ainda é um candidato inconsistente, abrindo espaço para um candidato alternativo de direita conquistar eleitores desconfortáveis com a volta da família Bolsonaro ao poder.

No entanto, poucos desses fatores parecem capazes de favorecer decisivamente Lula. Apesar de todo o seu carisma e experiência, o presidente está agora lutando pela sua sobrevivência política.

As cartas estão cada vez mais contra ele.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Juan Pablo Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, assuntos econômicos e política da América Latina. Foi editor-chefe da Bloomberg News para economia e governo na região.

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