Brasil

Eleições: por que a terceira via ainda é um desafio à matemática

As contas foram feitas por chefes de institutos de pesquisa em evento do BTG Pactual

Em Eldorado dos Carajás (PA), ambulante vende toalhas com as imagens de Jair Bolsonaro e de Lula
22 de Fevereiro, 2022 | 08:10 pm
Tempo de leitura: 3 minutos

Sonho de consumo de uma parcela de parcela Faria Lima que rejeita tanto Lula quanto Bolsonaro, a chamada terceira via ainda é desafio matemático e estatístico a menos de oito meses do primeiro turno da eleição presidencial por dois fatores:

1) o piso eleitoral do PT estaria numa faixa de 27% a 30% dos eleitores, suficientes para levá-lo ao segundo turno e;

2) Bolsonaro, que enfrenta um momento ruim em termos de popularidade, conta com ao menos 20% do eleitorado e, disputando a reeleição no cargo, tem instrumentos para tentar reduzir a sua rejeição e ganhar terreno.

Estas foram algumas conclusões de um debate entre especialistas em pesquisas eleitorais no evento CEO Conference 2022, realizado pelo BTG Pactual, nesta segunda (21), em São Paulo, ao analisar a fragmentação de candidaturas como um fator a favor da cristalização do quadro Lula-Bolsonaro.

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“O quadro que vemos é que existem hoje 25% dos eleitores que gostariam de ter uma alternativa diferente do Lula e do Bolsonaro. O Lula possivelmente vai cair nas pesquisas, mas não abaixo do piso histórico do PT, que estaria entre 27%, 28% do eleitorado. O Bolsonaro está no piso, com uma rejeição alta, mas ele tem um eleitorado muito fiel”, analisou Mônica Cavallari, presidente do Ipec (antigo Ibope).

Segundo ela, mesmo sendo rejeitado por algo em torno dos 60% dos eleitores, o atual presidente pode se beneficiar de políticas que surtam resultado na economia – principal preocupação dos brasileiros, segundo as pesquisas – e fortalecer a base já fiel. Esse eventual fortalecimento é o que torna mais exíguo o espaço de crescimento de candidaturas alternativas, como Sergio Moro (Podemos), Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB) e Simone Tebet (MDB).

“A aprovação da Dilma caiu muito após o movimento de 2013, mas ela conseguiu crescer dez pontos [percentuais] na campanha de 2014″, comparou Cavallari, lembrando das dificuldades eleitorais que se provaram momentâneas na disputa que resultou na reeleição da petista, por margem apertada sobre Aécio Neves (PSDB).

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Murillo Aragão, da Arko Advice, lembrou que Bolsonaro conta com políticas públicas com potencial para reduzir a rejeição e eventualmente se converterem em voto na urna, como o Auxílio Brasil, o perdão de dívidas do FIES (que beneficia eleitores jovens, onde ele tem mais dificuldade) e intervenção no preço dos combustíveis, através de redução da tributação, visando deter uma fonte constante de desgaste para o presidente.

Para Maurício Moura, do instituto Idea Big Data, a terceira via tem “muito candidato para pouca memória na opinião pública”.

Segundo ele, o fim do auxílio emergencial no final de 2020 foi muito traumático para a parte do eleitorado que era beneficiada pelo benefício de R$ 600 ou para quem conhecia alguém que recebia e, por consequência, fez derreter uma parte da popularidade do presidente. A desaprovação ao presidente, mencionou, cresceu 8 pontos percentuais principalmente no segmento de renda mais baixa.

O Auxílio Brasil, segundo ele, pode ter um efeito limitado nas intenções de votos do presidente porque muita gente relaciona “auxílio” com algum benefício que seja temporário. “Lula ainda é a última memória de popularidade de muita gente”, diagnosticou Moura.

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Para Marcelo Tokasrki, do Instituto FSB Pesquisa, a viabilidade da terceira via depende ou do surgimento de um novo nome ou de um dos já apresentados ganhar tração.

“Espaço tem, mas é difícil”, disse Cavallari, do Ipec, à plateia de investidores reunida pelo BTG, referindo-se à fatia de um quarto do eleitorado que não gostaria nem de Lula nem de Bolsonaro.

No debate, Moura, do Idea Big Data, lembrou do retrospecto das eleições brasileiras nas últimas décadas em que nunca houve um candidato com menos de 10% das intenções de votos nesta época do processo eleitoral que tivesse vencido o pleito no final.

“Se o Lula enfrentar o Bolsonaro no final, a pergunta clássica [feita pelo eleitor] será: o Bolsonaro merece mais quatro anos no governo?”, disse Moura.

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“Se for outro candidato, o debate será sobre Lula e a pergunta será: mas você quer o PT de volta?”.

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Graciliano Rocha

Graciliano Rocha

Editor da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista formado pela UFMS. Foi correspondente internacional (2012-2015), cobriu Operação Lava Jato e foi um dos vencedores do Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2018. É autor do livro "Irmã Dulce, a Santa dos Pobres" (Planeta), que figurou nas principais listas de best-sellers em 2019.

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