(Bloomberg Opinion) À medida que muitos países afrouxam provisoriamente suas restrições, algumas pessoas se sentem ansiosas. Será que minhas habilidades sociais ficaram enferrujadas depois do longo período de quarentena e lockdown? Minhas relações esfriaram? Vou poder voltar para minha antiga turma? Será que meus círculos sociais diminuíram?
Para obter um ponto de vista científico, enviei essas perguntas para Robin Dunbar, antropólogo e psicólogo evolucionista britânico. Eu acompanhei sua pesquisa por quase três décadas, desde que ele escreveu um artigo inovador em 1992. Dunbar descobriu uma proporção incrivelmente estável em todas as espécies de primatas entre o tamanho de seu neocortex e seu grupo social: quanto maior o cérebro, maior a comunidade.
Faz sentido. Sobreviver e prosperar em grupos exige muito poder cognitivo. Quem gosta ou não de mim? Será que aqueles dois estão em um relacionamento? Aquela pessoa está com ciúme? Será que aquela outra lembra do meu insulto há dois meses? Eu consigo transformer um rival em um aliado? E assim por diante.
Esse processo ficou controversamente conhecido como “a hipótese do cérebro social” — ou a “hipótese da inteligência maquiavélica”, que parece bastante ameaçadora. Porém outras pesquisas enfatizam que nosso poder cognitivo também nos torna “pró-sociais” e atenciosos para com os outros. Assim, o trabalho abundante de asseio dos primatas gera um fluxo de endorfinas. Para humanos, são os abraços que fazem isso.
Uma das nuances da teoria de Dunbar é que os grupos de primatas possuem categorias diferentes. Os humanos, por exemplo, tendem a ser íntimos apenas com cerca de cinco outras pessoas. Humanos também formam “bandos” de cerca de 40 pessoas – como grupos de caça, pelotões ou equipes – e “tribos” ainda maiores, chegando aos milhares. Contudo, o tamanho médio de uma “comunidade humana” é, e sempre foi, de cerca de 150 pessoas.
É impressionante o quanto o chamado “número de Dunbar” é estável. O número descreve o limite superior médio de grupos de caçadores-coletores, vilas medievais, comunidades de jogos online, listas de cartões de Natal, congregações religiosas e outros. Quando os grupos de humanos superam o número – por exemplo, quando as empresas possuem mais de 150 funcionários – nossa cognição inata normalmente se torna inadequada e precisamos da burocracia para nos organizarmos.
Em 2009, quando as redes sociais online ainda eram novas para muitos, perguntei-me se a tecnologia poderia aumentar o número de Dunbar, então pedi para que o Facebook processasse alguns dados para mim. A resposta é não. O Facebook e outras redes semelhantes podem permitir que administremos o que é, na verdade, uma grande lista de contatos. Porém, essas redes não podem aumentar o limite de relações de qualidade que mantemos, porque isso em si parece ser biológico.
Mas e a pandemia e todos os lockdowns necessários? Esses períodos anormais de isolamento social devem ser caóticos para a psiquê primata. Duvido que outros primatas e macacos sobreviveriam uma quarentena prolongada. Bonobos precisam de estímulo sexual contínuo para manter a harmonia e a coesão do grupo. Outros primatas não precisam de tanto, mas o chimpanzé, o lêmure ou o babuíno médio também definharia sem contato social. Suas comunidades seriam destruídas.
Macacos não possuem Zoom; nós, sim. Ainda assim, nossas mídias sociais são os melhores substitutos imperfeitos e parciais das sessões presenciais de asseio. Pelo Zoom, é possível olhar as pessoas nos olhos, mas não conseguimos ver para onde estão olhando – sinal fundamental em dinâmicas de grupo. Apenas uma pessoa pode falar por vez. Não é possível sentir os feromônios ou abraçar, tocar e gerar o fluxo de ocitocina.
Soluções como o Zoom apenas “diminuem a velocidade da deterioração na ausência do contato presencial”, afirmou Dunbar por e-mail. “Elas não impedem que uma amizade se torne uma relação entre estranhos”.
A ausência de contato social provavelmente não afetará nossa lista de contatos íntimos. Porém, em comunidades maiores, Dunbar acredita que “quando nos encontrarmos presencialmente, haverá um ar de incerteza se as relações permaneceram as mesmas”. Muitas delas não serão.
Dunbar garante que está tudo bem. O efeito é temporário e exige uma espécie de “renegociação social”. Isso pode significar que mudanças interessantes são iminentes nos próximos meses e anos em empresas, vizinhanças, escolas e outras comunidades. Contudo, por fim retornaremos aos grupos naturais de 150 pessoas – felizmente, isso foi memorizado por nossos cérebros.
Para entrar em contato com o autor deste artigo: Andreas Kluth – akluth1@bloomberg.net
Leia mais em Bloomberg.com
© 2021 Bloomberg L.P
©2021 Bloomberg L.P.



