Opinión - Bloomberg

O mundo deve aprender com o cataclismo de covid-19 da Índia

Primeira e mais óbvia lição é evitar a confiança excessiva como ocorreu no início da pandemia no país

Índia acelera vacinação após onda de mortes recentes
Tempo de leitura: 3 minutos

(Bloomberg Opinion) Pelo menos nas cidades, a temida segunda onda de covid-19 na Índia parece finalmente estar diminuindo. Delhi teve uma taxa de testes positivos abaixo de 2% pela primeira vez em dois meses. As cicatrizes deixadas pela pandemia não serão apagadas facilmente – e devem ser um aviso a outros países em desenvolvimento. Esses países devem aprender com o caso da Índia se não quiserem repetir o feito.

A primeira e mais óbvia lição é evitar a confiança excessiva. Uma mudança relativamente pequena na transmissibilidade do novo coronavírus pode causar efeitos massivos e não lineares sobre a velocidade de disseminação. Isso significa que as estratégias que mantiveram a pandemia sob controle em 2020 não necessariamente funcionarão em 2021. Conforme novas variantes surgem, as autoridades de saúde podem precisar de lockdowns mais rigorosos e mais direcionados para continuarem em segurança.

Para fazê-lo, também será necessário fazer testes de maneira mais ampla e realizar mais sequenciamentos genômicos para monitorar quais variantes estão se disseminando na população e em que locais isso ocorre. Não é uma tarefa fácil. Mesmo a Índia, com um establishment científico extensivo, está em 102º lugar na proporção de casos relatados e sequenciados. Outros países emergentes sofrerão ainda mais.

E os países mais ricos deveriam ajudar. Conforme observado por um artigo recente publicado na revista Science, existem barreiras jurídicas significativas para o compartilhamento internacional de amostras e dados. Essas barreiras devem ser discutidas para que as amostras possam passar pelas fronteiras rapidamente. Países, como o Reino Unido, que adquiriram uma vasta capacidade de sequenciamento genômico, terão de dedicar parte dessa capacidade ao monitoramento de amostras de outros locais do mundo.

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Países emergentes também precisam aprender as lições corretas sobre a capacidade limitada do setor de saúde. A tragédia em cidades como Delhi quanto a escassez de leitos hospitalares, cilindros de oxigênio e medicamentos não precisa acontecer em outros lugares. Os estados indianos que estabeleceram sistemas de triagem – orientando quem tivesse sintomas a ir a um hospital ou um centro de saúde com leitos disponíveis – administraram a pressão sobre o sistema já precário de saúde pública melhor que outros estados. As autoridades locais devem planejar sistemas semelhantes em seus países, incluindo por telefone e online.

Os médicos agora possuem uma grande quantidade de dados sobre os tratamentos terapêuticos mais eficazes e os que não devem ser realizados. As famílias de pacientes passaram noites em claro tentando obter plasma convalescente ou medicamentos como o remdesivir antes que o Ministério da Saúde da Índia admitisse que eram amplamente ineficazes e os retirasse dos protocolos de tratamento. A oxigenoterapia de alto fluxo foi utilizada em demasia, levando não apenas a uma escassez de oxigênio medicina, mas a algumas doenças adicionais extremamente desagradáveis.

Da mesma forma, outros governos sabem que o aumento da curva significa que uma nova variante foi detectada e que o aumento do número de testes positivos ficar acima dos níveis de segurança, eles devem estabelecer uma força-tarefa centralizada para alocar recursos hospitalares e prescrever as terapias corretas.

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Por fim, e mais importante, todos os países devem compreender que as vacinas funcionam e que é perigoso interferir em seu fornecimento. O governo indiano argumentou que “se apenas um país suspender a produção de matéria-prima, toda a cadeia de fornecimento fica comprometida”. Mesmo a vacina local Covaxin, da Bharat Biotech International Ltd., utiliza 360 ingredientes de 10 países – 200 deles vindos dos EUA. Países como os Estados Unidos e o Reino Unido, que subverteram as cadeias de suprimento para priorizar as próprias necessidades, nos devem muitas respostas.

Enquanto isso, a mudança das fabricantes indianas para o abastecimento interno significou que países emergentes vulneráveis estão tendo que esperar demais pelas vacinas. A cooperação internacional deve, nas próximas semanas e meses, focar na garantia de reparos na cadeia de suprimento, de encerramento de proibições de exportação, da criação de capacidade de produção e do compartilhamento mais equitativo do estoque existente de vacinas.

O que aconteceu na Índia pode acontecer em qualquer lugar. Mas isso não precisa acontecer se o governo da Índia, seus pares no mundo emergente e os países mais ricos aprenderem as lições corretas, trabalharem em conjunto e mostrarem humildade frente a essa doença terrível.

Para entrar em contato com o autor deste artigo: Mihir Sharma – msharma131@bloomberg.net

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