(Bloomberg Opinion) – Brian Armstrong, presidente-executivo da Coinbase, disse recentemente que se o preço do bitcoin chegasse a US$ 200 mil, metade dos bilionários do mundo seriam crypto bilionários. Mesmo nos valores menores atualmente em vigor, essa crypto riqueza tem um potencial enorme de transformar a filantropia. Espere um declínio relativo da influência das velhas instituições sem fins lucrativos – e projetos mais isolados e estranhos.
O próprio bitcoin é um projeto estranho e isolado. A verdadeira identidade de seu inventor, Satoshi Nakamoto, ainda é desconhecida, e o ecossistema do bitcoin não é possuído ou controlado por nenhuma companhia ou instituição. Ele vem se autossustentando desde o início e assim não seria uma surpresa bilionários do bitcoin tomarem a própria moeda como um modelo para futuras instituições, inclusive na filantropia.
Como filantropos, os crypto bilionários provavelmente tentarão apoiar ideias que possam lançar de uma maneira dramática e rapidamente adquirir velocidade de escape. Eles provavelmente não bancarão custos trabalhistas contínuos de instituições culturais estabelecidas. O bitcoin e muitas outras criptomoedas parecem ter sido projetadas para permanecerem independentes de qualquer governo ou grande instituição financeira. Isso também sugere que a ênfase filantrópica da crypto riqueza estará em organizações não governamentais e outras que não façam parte do establishment.
Compare isso com a abordagem filantrópica de uma América mais antiga. A Orquestra Sinfônica de Cleveland, por exemplo, recebeu um apoio significativo de empresas e empresários do centro-oeste americano, especialmente de pessoas ligadas a Cleveland. Durante décadas ela foi uma das melhores orquestras do mundo (e ainda é muito boa), embora Cleveland nunca tenha sido uma cidade americana de primeira linha. O sistema filantrópico de meados do século 20 funcionou muito bem no suporte desse tipo de instituição.
Muitos dos indivíduos muito ricos do mundo das criptomoedas são bem jovens. Isso provavelmente descarte um grande apoio filantrópico a museus de arte, casas de ópera, e festivais de alta cultura, que geralmente atraem pessoas mais velhas, tanto como frequentadores quanto como doadores. Sim, duas pessoas muito ricas patrocinaram as artes quando ofereceram mais de US$ 60 milhões pelo NTF de uma obra de Beeple. Mas essa oferta pode ser vista como um esforço para dar início a um novo gênero de arte.
As organizações sem fins lucrativos terão de responder a esses novos doadores, buscando meios de alcançar seus fins com custos trabalhistas menores e ideias mais inovadoras. Nem todas as atuais organizações sem fins lucrativos estão à altura desse desafio.
O investidor de risco (venture capitalista) Paul Graham observou que a riqueza é obtida muito mais rapidamente hoje em dia e isso é ainda mais verdade no mundo das criptomoedas, que afinal de contas tem apenas 12 anos. Ao contrário de muitas pessoas ricas das áreas de direito e bancos de investimentos, essas não são pessoas que tiveram de passar a vida inteira trabalhando para ter sucesso, para finalmente alcançar o topo quando estavam na casa dos 60 anos. Ou elas são fundadoras de empresas que crescem e ganham escala rapidamente, ou elas compram desde cedo grandes somas dos ativos de criptomoedas certos, ou ambas as coisas. De qualquer maneira, seus temperamentos pedem ações imediatas e resultados rápidos.
As organizações sem fins lucrativos terão que se ajustar, muito embora a velocidade geralmente não seja uma vantagem comparativa delas. Isso, por sua vez, sugere que as estruturas organizacionais de muitas instituições em fins lucrativos terão de mudar radicalmente. Muitas delas foram criadas, ou evoluíram, para serem boas em continuidade, como a Orquestra Sinfônica de Cleveland, que ainda toca Beethoven com violinos e violoncelos.
Alguns dos crypto bilionários poderão acabar se sentindo politicamente vulneráveis, em parte por não administrarem empreendimentos que criam um grande número de empregos específicos e bem definidos em uma comunidade facilmente identificável. As criptomoedas poderão ter efeitos positivos sobre a economia como um todo, mas os titãs do mundo das criptomoedas não têm bases de poder político da maneira como o setor financeiro convencional, que tende a ter relações muito boas com os senadores do Estado de Nova York.
Isso por sua vez sugere um interesse na filantropia diretamente humanitária, não só por razões altruístas, mas também como uma maneira de polir sua imagem pública e se proteger contra avanços políticos. Portanto, se você tem uma ideia nova e radical sobre como ajudar os pobres – com custos contínuos bem baixos -, nunca houve uma época melhor para ser um empreendedor sem fins lucrativos.
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