É cedo para desprezar a estratégia de investir 60% em ações e 40% em renda fixa?

Investidores têm sido conclamados a considerar opções mais exóticas de geração de ganhos, em meio a questionamentos sobre as perspectivas de retorno dos bônus

Cathie Wood, da ARK Investment Management: hora de repensar estratégias
Por Emily Cadman
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(Bloomberg) – A alocação de portfólio de investimentos de 60% em ações e 40% em renda fixa tem muitos críticos – grandes instituições financeiras desdenham desse mix há mais de uma década.

Investidores têm sido conclamados a considerar opções mais exóticas de geração de ganhos, em meio a questionamentos sobre as perspectivas de retorno dos bônus. Ainda assim, nos últimos 14 anos você teria se saído melhor mantendo um portfólio 60/40, do que se tivesse acompanhado algumas outras estratégias badaladas.

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No entanto, o ceticismo quanto ao valor dos portfólios 60/40 não diminuiu e agora as preocupações envolvem mais do que simplesmente os retornos baixos dos bônus soberanos.

O principal princípio sobre o qual os portfólios 60/40 se baseiam é o de que a alocação menor em renda fixa oferece uma proteção quando as ações caem. Mesmo assim, durante uma onda de volatilidade do mercado em março, ações e bônus caíram ao mesmo tempo.

Se as duas classes de ativo começassem a se mover em conjunto regularmente, isso colocaria em dúvida todo o sentido de se ter bônus de retornos mais baixos como hedge.

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Portanto, o que um pequeno investidor pode fazer?

Não entre em pânico

Embora todas as preocupações sejam válidas, elas não significam que uma divisão de ativos 60/40 de repente se tornou um suicídio financeiro da noite para o dia.

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“60/40 não é um mau começo”, diz Christine Benz, diretora de finanças pessoais da Morningstar. “A ideia de que a estratégia está morta é um subterfúgio que as firmas de investimentos às vezes apresentam porque estão vendendo outras estratégias, muitas vezes mais complicadas e com frequência mais caras.”

Se você quiser seguir no caminho do “faça você mesmo”, seja claro em seus objetivos.

Há uma grande diferença em uma alocação apropriada para alguém que quer se aposentar em 30 anos, e alguém que busca retornos em cinco anos.

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Mesmo durante o período em que o 60/40 esteve em voga, os consultores financeiros não sugeririam a alguém prestes a se aposentar, que alocasse a maior parte de seu dinheiro em ações voláteis. Do mesmo modo, um jovem de 20 anos teria sido aconselhado a alocar mais em growth assets (ativos de grande valorização).

E lembre-se, portfólios balanceados nunca são criados para entregar o máximo retorno possível. Você provavelmente não conseguirá o tipo de retorno espetacular que os fundos ARK de Cathie Wood voltados para growth stocks obtiveram em 2020.

Em vez disso, a ideia é preservar o capital, proporcionar diversificação e proteção em momentos ruins, além de um retorno aceitável.

Seja realista sobre esses retornos

Num mundo em que 85% dos bônus de governos de mercados desenvolvidos rendem menos de 1%, os retornos prováveis de um mix tradicional mergulharam. Enquanto dados da Vanguard mostram que um mix de 60/40 deu um retorno médio anual de 9,1% entre 1926 e 2020, a JP Morgan Asset Management recentemente estimou que ele dará um retorno de apenas 3,7% na próxima década.

Os rendimentos dos bônus começaram a subir novamente, o que significa que esse é um ponto de partida melhor do que era para os novos investidores, mas com as taxas de juros em patamares recorde de baixa em todas as economias avançadas, os retornos elevados dos ativos seguros são uma coisa do passado.

Isso vale até mesmo para os profissionais. Os hedge funds vêm caminhando cada vez mais para produtos cada vez mais exóticos – pense em tudo que vai de produtos de derivativos complexos a catálogos de música -, mesmo assim os retornos têm sido irregulares, além de virem com taxas elevadas.

“Não há muitos ativos bons e baratos por aí”, diz Simon Doyle, diretor de estratégias multiativos e de renda fixa da Schroders Australia.

Não pressuponha que a resposta é mais ações de tecnologia

Com a queda dos retornos dos bônus, muitos pequenos investidores vêm aumentando suas alocações em ações, atraídos pela possibilidade de crescimento maior. Embora no longo prazo as ações historicamente tenham superado os bônus em desempenho, isso nem sempre é o caso – depois do estouro da bolha tecnológica em 2000, os índices de ações basicamente andaram de lado por uma década.

Além disso, a volatilidade de curto prazo geralmente é mais extrema nas ações do que na renda fixa. Isso significa que você precisa de disciplina para não cometer o erro clássico de vender durante uma onda de pânico, mas também ser realista sobre o seu horizonte de planejamento. Manter ativos mais voláteis pode ser aceitável para alguém na casa dos 20 ou 30 anos e ainda terá muitos anos para aguentar solavancos, mas bem mais problemático para alguém que quer se aposentar num prazo mais curto.

Uma opção é garantir que você não estará mantendo ações simplesmente pelo esperado aumento dos preços.

Mark Luschini, estrategista-chefe de investimentos da Janney Montgomery Scott, diz estar vendo uma tendência de clientes incorporarem mais ações pagadoras de dividendos em seus portfólios, para compensar a renda que não está vindo com os títulos de renda fixa de alta qualidade.

“Empresas selecionadas cujas políticas de dividendos são apoiadas pela qualidade de seus balanços, além do compromisso da administração de sustentar ou aumentar regularmente esses dividendos”, acrescenta Luschini.

Não fique no trivial

“Ter ativos defensivos como os bônus soberanos ainda faz muito sentido”, diz Anthony Doyle, especialista em investimentos cruzados da Fidelity International. “Mas apenas para você assumir mais riscos em outras partes de seu portfólio.”

Em sua versão original, os investidores 60/40 mantinham apenas títulos do Tesouro dos EUA na parcela de renda fixa de suas carteiras. Mas esses dias acabaram. Hoje em dia, seja através de fundos administrados ou ETFs, os investidores de varejo podem acessar uma gama muito maior de crédito, tanto corporativo como soberano.

“As alocações em renda fixa dos portfólios deveriam ser diversificadas por si sós”, afirma Martin Hennecke, diretor de investimentos da gestora de fortunas St James’s Place para a Ásia. E isso não significa setores ou geografias diferentes. Hennecke também alerta os investidores para não manter muitos bônus de prazos longos, que podem cair na eventualidade de uma alta da inflação provocar alta nas taxas de juros.

Se acompanhar a inflação for a sua preocupação, você pode também considerar os bônus atrelados à inflação.

Na Schroders, Doyle diz estar se concentrando no acúmulo de ativos que se localizam em algum lugar entre as ações e os bônus.

Isso significa aumentar a alocação em coisas como crédito corporativo, dívidas de mercados emergentes, empréstimos privados e financiamentos imobiliários comerciais. “Essas coisas não são tão arriscadas quanto as ações, mas certamente apresentam um pouco mais de risco do que, digamos, os bônus soberanos”, diz Doyle.

Stuart Fechner, diretor de relações de pesquisa da gestora australiana de fundos Bennelong, também aponta para ativos mais novos como bens imobiliários listados em âmbito mundial e infraestrutura, como meios de se obter mais diversidade nos portfólios de varejo.

Se criptomoedas como o Bitcoin e o Ether podem – ou devem – fazer parte de um portfólio balanceado, é um assunto muito contestado. Os defensores argumentam que elas não têm correlação com outros ativos e assim oferecem um bom hedge.

Os céticos as comparam a um jogo de azar e alertam os investidores de que eles podem ser liquidados. O meio termo, que vem sendo cada vez mais defendido por estrategistas de Wall Street, é explorar uma pequena alocação, que não sofreria um golpe tão grande mesmo que os preços das criptomoedas caíssem bastante.

Uma alocação de 1% poderia incrementar os retornos ajustados aos riscos sem assumir muita exposição, disseram estrategistas do JPMorgan Chase & Co. em uma nota a clientes recente.

Se você precisa de ajuda, há casas intermediadoras

Muitos fundos 60/40 administrados profissionalmente operam com base em faixas, permitindo ao gestor de portfólio ajustar as alocações diante das oportunidades e riscos que eles veem no momento.

Se você não estiver preparado para assumir essa tarefa de rebalanceamento e mesmo assim quiser evitar as taxas elevadas, há alternativas.

Christine Benz da Morningstar sugere que para aqueles que quiserem simplicidade e nenhuma preocupação, uma boa primeira opção é um target date fund (fundo com data-limite), em que um profissional gerencia a alocação dos ativos para entregar retornos em uma data pré-definida. Embora geralmente ele seja um pouco mais caro que um fundo de índices direto, eles costumamser mais baratos do que a maior parte das opções ativas.

Há também um grupo crescente de start-ups digitais que visam proporcionar a você uma viagem mais tranquila. Uma delas, a StashAway, que gerencia cerca de US$ 1 bilhão em ativos, faz o rebalanceamento dos portfólios dos clientes com base em condições econômicas e o perfil de risco dos clientes. “60/40 é um bom lugar para começar, mas não apresenta a você riscos consistentes ao longo do tempo”, diz Stephanie Leung, uma ex-operadora do Goldman Sachs Group Inc. que hoje administra a operação de Hong Kong da StashAway.

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