(Bloomberg Opinion) – O bitcoin é o presente ideal para um gestor de fundo de hedge com desempenho insatisfatório. É só perguntar para Anthony Scaramucci da SkyBridge Capital, que está em baixa depois que seu fundo de fundos de hedge registrou seu pior desempenho anual desde 2008.
Isso provavelmente não é uma coincidência. Sejam quais forem os receios de alguém sobre a sustentabilidade do rali do preço dessa criptomoeda, trata-se de uma história mais feliz para contar ao mercado, do que as más apostas em crédito estruturado pelas quais clientes da SkyBridge pediram seu dinheiro de volta. Em cerca de US$ 40 milhões, essa aposta na criptomoeda parece pouca coisa perto dos ativos totais de US$ 7 bilhões da firma, mas é uma aposta em sintonia com o momento.
Afinal, hoje em dia os defensores mais ruidosos da criptomoeda não são os millennials “plugados”, e sim os baby boomers e membros da chamada Geração X do mundo dos fundos de hedge – Stanley Druckenmiller, Paul Tudor Jones -, que apoiam o bitcoin como o combustível de que seus manuais de fundos globais macro necessitam. Enquanto setor, os fundos de hedge podem usar a ajuda: Embora em novembro eles tenham registrado seu melhor desempenho coletivo em seis anos, segundo dados compilados pela Bloomberg, isso ainda não foi suficiente para equiparar os retornos obtidos pelos índices referenciais de ações. Enquanto estratégia específica, os fundos globais macro ficaram atrás de seus pares, do mercado de ações e dos retornos do mercado global de bônus.
Investimento certo para ativar sentimentos de ganância em medo
O que atrai o “dinheiro inteligente” (smart money) para o bitcoin enquanto negócio é a mesma coisa que faz dele uma moeda fraca e uma reserva de valor não confiável em períodos de pânico: ele é uma commodity sem liquidez, artificialmente escassa e volátil, cujo preço é orientado por sentimentos extremos de ganância e medo. “O bitcoin é o veículo perfeito para explorar a estupidez infinita da humanidade”, afirma Julian Rimmer, um operador de vendas da Investec Plc. “Uma pequena porcentagem do portfólio de alguém pode ser mantida nesse ‘ativo’ porque a credulidade nunca sai de moda.”
Ele também pode proporcionar um efeito auréola muito conveniente para um setor que vem encolhendo há vários anos. No ano passado, clientes sacaram US$ 50 bilhões, deixando o total sob administração em pouco menos de US$ 3,3 trilhões, segundo a eVestment. Falar do bitcoin como uma nova volta do “ouro digital” esconde o fato de que essas são apostas pequenas e especulativas de um sub-conjunto de Wall Street – quando Tudor Jones elogiou o “nascimento de uma reserva de valor” no ano passado, ele também revelou que apenas 1% de seus ativos estavam em bitcoins.
Desse modo, as expectativas de uma onda de dinheiro institucional em direção às criptomoedas ainda parecem mais uma esperança do que realidade. Adam Grimsley da Aberdeen Standard Investments disse ao Financial News que é uma “ilusão” afirmar que os investidores institucionais estão correndo de forma significativa para o bitcoin. Quanto aos fundos de hedge dedicados aos negócios com criptomoedas, eles continuam sendo uma busca de nicho. Um relatório da PwC constatou que apenas 35% deles gerenciam mais de US$ 20 milhões, sendo o tamanho médio de US$ 8,2 milhões. Ainda mais eloquente é o fato de que 90% de seus clientes são escritórios familiares ou indivíduos ricos.
Bitcoin é diversão em Wall Street
A esperança dos convertidos às criptomoedas é de que isso seja suficiente para sobrepujar os day traders que ficam em casa especulando com ações como Tesla Inc., que também dobrou de valor num espaço de poucos meses. Qualquer coisa é possível com o bitcoin, mas se a história servir de guia, haverá lágrimas pela frente. A última vez que os fundos de hedge “partiram para as criptomoedas” em 2017, depois de uma grande alta no preço, a queda subsequente levou ao fechamento de quase 70 fundos especializados em 2019.
Seja como for, o bitcoin é uma diversão de Wall Street no momento. Os que o adotaram desde o início parecem não estar entusiasmados com a correria para recriar os piores excessos das finanças na blockchain. Isso porque se a alta dos preços persistir, são as pessoas na faixa dos 50 anos que terão de continuar comprando.



