Opinión - Bloomberg

Quando pedir demissão pode impulsionar sua carreira

Americanos não trocam de emprego com muita frequência e isso prejudica a economia do país

Executivos repensam carreira no pós-Covid
Tempo de leitura: 4 minutos

(Bloomberg Opinion) – Recentemente, encontrei um amigo que trabalha na mesma empresa há mais de uma década e se sente satisfeito com isso. Outras empresas até poderiam pagar melhor ou fazer com que ele se sentisse mais valorizado e oferecer oportunidades de crescimento, mas ele não prestou muita atenção na sua insatisfação e na falta de um plano de carreira porque seu emprego na área de vendas significava que ele estava sempre viajando, e ele gostava de seus clientes e colegas, assim como dos hotéis e das refeições sofisticadas.

A pandemia tirou dele todos esses benefícios, e ele pôde enxergar o que o emprego dele não oferecia. Agora esse amigo está ponderando a ideia de pedir demissão – e é o que ele deveria fazer. Os americanos não trocam de emprego com muita frequência, e isso prejudica a economia.

Embora a taxa de demissões voluntárias normalmente varie com a situação do mercado de trabalho – aumentando quando há excesso de empregos – a tendência geral tem sido baixa desde a década de 80. Não sabemos muito bem por quê. Alguns economistas suspeitam que isso ocorre devido ao aumento do poder dos empregadores ou ao aumento da prevalência de acordos de não concorrência. Mas isso não explica por que a troca de empregos tem diminuído em todos os níveis de senioridade e renda, mesmo em setores com mercados de trabalho competitivos. Talvez o motivo esteja relacionado à forma como os benefícios oferecidos pelos empregadores se tornaram a maior parte da remuneração. Os economistas especularam que a falta de trocas de emprego é o principal motivo pelo qual os salários não aumentam muito desde a década de 80.

Outra possibilidade para a falta de mobilidade entre trabalhadores é uma população abatida. O psicólogo organizacional Adam Grant escreveu sobre a população americana estar abatida, o que significa que ela não está deprimida, e sim ativa, mas sem prosperar. Os cidadãos assumem menos riscos e estão menos abertos a mudanças e experiências desconhecidas. Quando ficamos abatidos, não crescemos emocional e economicamente. A pandemia colocou muitos estadunidenses em um estado de abatimento grave; alguns não saíram de suas casas por muito tempo, e isso forçou a realização da intensidade de uma rotina.

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A pandemia e o trabalho remoto também levaram muitos economistas a especularem que os trabalhadores se adaptariam melhor à tecnologia, seriam mais eficientes e atingiriam um equilíbrio melhor entre vida profissional e pessoal. Por sua vez, isso os tornaria mais nômades. A uma pesquisa sobre as tendências no local de trabalho da Microsoft Corp. constatou que 40% dos cidadãos estadunidenses estão considerando pedir demissão neste ano. E muitos o estão fazendo – 2,5% das pessoas empregadas pediram demissão em maio, segundo a Pesquisa de Abertura de Vagas e Rotatividade do Departamento de Estatísticas do Trabalho do Estados Unidos. Apesar da queda em comparação aos 2,8% registrados em abril, ainda é uma taxa maior desde, pelo menos, 2001. Além disso, a taxa de demissões voluntárias foi de apenas 2,3% em 2019, quando a taxa de desemprego era de 3,6%, em comparação com 5,8% em maio deste ano.

Essas mudanças proativas são importantes, não apenas por normalmente significar salários mais altos quando uma pessoa troca de emprego, mas elas também podem significar mais inovações e capacitações que tornam a economia mais fundamentalmente saudável e duradoura, podendo até reduzir a desigualdade. Economistas estimam que os setores nos quais os trabalhadores trocam de emprego com frequência oferecem salários melhores. Para muitos economistas, o fato de que a troca de emprego se tornou menos comum contribuiu para uma desigualdade maior e uma mobilidade econômica menor.

Também precisamos analisar se esse aumento nas demissões é um fenômeno temporário ou permanente. Por outro lado, fomos forçados a viver desconfortáveis e lidar com o que não podemos controlar nos últimos 15 meses. Talvez essa nova liberdade e um pouco de estímulo econômico nos inspirem a fazer as mudanças necessárias. A outra (e mais provável) alternativa é que nos tornaremos mais avessos ao risco. O que normalmente acontece após grandes choques negativos é que evitamos mais riscos. Em outras palavras, mesmo se muitas pessoas tiverem a intenção de pedir demissão, será que elas não iriam preferir ficar em um emprego com o qual estão familiarizadas quando virem seus colegas e voltarem para suas rotinas?

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Os empregadores apostam que sim. Alguns estão oferecendo horários mais flexíveis e trabalho remoto, na esperança de conseguir impedir que seus funcionários peçam demissão. Outros apostam que as pessoas continuarão passivas e o desejo de mudar vai passar. Cassinos e até escritórios de advocacia estão oferecendo bônus semestrais na esperança de que esses pagamentos especiais sejam suficientes para fazer as pessoas retornarem complacentemente para suas rotinas.

Mudar é difícil e não estamos acostumados a lidar com mudanças, mesmo depois dos últimos 15 meses. Mas se aprendermos a aceitar e acolher a mudança, a economia se tornará mais dinâmica. E aquele amigo meu? Ele está esperando um bônus que exige que ele fique no emprego por mais alguns meses antes de pedir demissão.

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