Bloomberg — Em meio a um ciclo macroeconômico desafiador para o setor corporativo, com o crédito restrito e a inadimplência em alta no país, a Totvs (TOTS3) recorreu à disciplina operacional e à ampliação de sua oferta tecnológica para sustentar o ritmo de expansão. No terceiro trimestre de 2026, a empresa brasileira de software de gestão superou pela primeira vez a marca de R$ 500 milhões de Ebitda ajustado em um único trimestre — somando R$ 500,9 milhões, uma alta de 17% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O consenso de analistas ouvidos pela Bloomberg trazia uma projeção média de R$ 501,3 milhões e um lucro líquido ajustado de R$ 233,3 milhões.
A receita líquida atingiu R$ 1,98 bilhão no 3T26, crescimento de 13,2% ano contra ano, impulsionada pela receita recorrente, que alcançou R$ 1,84 bilhão (+15,1% a/a) e já representa 93% do faturamento total da empresa. Trata-se do 31º trimestre consecutivo de crescimento orgânico de dois dígitos da companhia, sendo os últimos 22 acima de 15%.
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“Continuamos provando que somos uma companhia com um nível de resiliência incrível. Conseguir entregar crescimento de receita, expansão de margem e forte geração de caixa, tudo ao mesmo tempo e em um ano de muitos lançamentos e inovações, é algo realmente bem impressionante”, disse o CEO da Totvs, Dennis Herszkowicz, em entrevista à Bloomberg Línea.
A margem Ebitda ajustada avançou 80 pontos-base a/a, para 25,3% no trimestre, ancorada na alavancagem operacional e em ganhos internos de produtividade — que incluem o uso da própria inteligência artificial no atendimento e no desenvolvimento de softwares.
Provisões no radar e crédito
Apesar da expansão operacional, o lucro líquido ajustado recuou 8,8% no trimestre, para R$ 237,2 milhões. O movimento reflete o impacto de maiores despesas financeiras, fruto do endividamento assumido para a aquisição da Linx e da menor receita de aplicações financeiras devido ao uso de caixa no programa de recompra de ações. A dívida líquida encerrou o trimestre em R$ 3,1 bilhões (1,6x Ebitda ajustado de 12 meses).
Outro ponto de atenção no balanço foi o avanço da Provisão para Perda Esperada (PPE). Na divisão de software (Gestão), a provisão representou 1,8% da receita líquida no 3T26. Já na Techfin, braço de serviços financeiros da empresa, a provisão para perdas saltou 87,2% no comparativo anual, para R$ 30,9 milhões, levando a unidade a registrar Ebitda de R$ 1,4 milhão e lucro no break-even (-R$ 100 mil).
O índice de inadimplência acima de 90 dias da Techfin fechou o período em 2,9%, contra 2,2% em semelhante período de 2025. Herszkowicz minimiza os impactos e destaca o viés preventivo do balanço.
“O ciclo de crédito no país está bem mais desafiador, mas o dado mais importante na Techfin é que as novas safras de originação de crédito já voltaram a um padrão histórico muito saudável. O aumento de provisão é história antiga, reflete a movimentação de atrasos passados que vão envelhecendo”, disse, detalhando o novo momento da operação. “Nós apertamos o modelo de crédito e reduzimos limites, o que faz a carteira crescer mais devagar, mas preserva a qualidade”.
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IA, nuvem e M&As
Para impulsionar o portfólio, a Totvs aposta no avanço da inteligência artificial embarcada. Os chamados “habilitadores de IA” — como a infraestrutura de nuvem (T-Cloud) — responderam por 37% da adição orgânica de ARR (Receita Recorrente Anualized) no trimestre. A adição líquida de ARR foi de R$ 209 milhões, elevando o estoque total para R$ 7,95 bilhões (+13,7% a/a).
A empresa também iniciou a oferta comercial de novas soluções de IA, como a plataforma proprietária LYNN, o sistema CORTEN e o modelo TaaS (Task as a Service), que cobra os clientes por volumetria de tarefas automatizadas por agentes de IA.
“Iniciamos as vendas dessas novas tecnologias agora. A adoção do cliente B2B para tarefas críticas de gestão é naturalmente um processo gradual e prudente, pois exige precisão e governança elevadas”, comentou o executivo.
Questionado sobre a alocação de capital da empresa diante de uma taxa de juros ainda elevada no país, o executivo afirma que a geração de caixa operacional da Totvs permite manter diversas frentes abertas. A geração de caixa operacional somou R$ 415 milhões no 3T26.
“Temos recursos para fazer tudo simultaneamente: continuar recomprando ações, distribuir dividendos e JCP, pagar dívidas para zerar a alavancagem — o que deve acontecer em breve — e continuar fazendo M&As”, afirmou Herszkowicz.
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As aquisições, segundo o CEO, seguem como parte estrutural da estratégia, e não como um movimento isolado da Linx. A posição de trusted advisor do cliente, diz, “exige de nós um crescimento permanente do portfólio de soluções”, o que torna a compra de empresas um caminho “óbvio”. Por isso, afirma, a Totvs “vai continuar fazendo um monte de aquisições”, de portes variados: “Não vai ter uma só realmente que resolve a vida, por maior que eventualmente ela seja”.
Sem detalhar alvos, ele afirma que o leque de interesses vai de novas funcionalidades dentro dos sistemas à entrada em negócios novos, voltados a uma nova persona dentro do cliente.
O consenso de mercado reunido pela Bloomberg mantém recomendação equivalente a compra para 13 dos 15 analistas que cobrem o papel, com preço-alvo médio de R$ 48,20 — o que representa um potencial de valorização de 51,5% sobre a cotação atual.