Lenovo mira mercado de US$ 850 bi no segmento de serviços após projetos na Copa e na F1

Presidente do braço de serviços da fabricante, Ken Wong usa bastidores da Copa do Mundo para defender que o modelo mais potente do mercado nem sempre é o mais eficiente — tese que sustenta receita recorde de US$ 2,9 bilhões e alta de 28% no trimestre

SSG — divisão que reúne verticais setoriais, serviços gerenciados e as ofertas as a service da Lenovo, como o Device as a Service e a plataforma TruScale — fechou o trimestre passado com receita recorde de US$ 2,9 bilhões. (Foto: Lam Yik/Bloomberg)
PUBLICIDADE

Bloomberg Línea — A FIFA fez à Lenovo três exigências para a câmera acoplada ao rosto dos árbitros na Copa do Mundo de 2026: bateria deveria ter duração para pelo menos uma hora de uso — cobrindo os dois tempos de jogo, intervalo e eventual prorrogação; o peso deveria ser o menor peso; e o processamento de imagem teria que ocorrer em até 15 milissegundos, tempo necessário para estabilizar o material antes de ele chegar à transmissão ao vivo.

As questões de tamanho e peso, a equipe de Ken Wong, vice-presidente executivo e presidente do Lenovo Solutions & Services Group (SSG), resolveu rapidamente. O terceiro requisito, porém, quase inviabilizou o projeto.

PUBLICIDADE

Ao rodar todo o processamento em um único modelo de linguagem de grande porte, um dos mais avançados do mercado, o sistema não ficava dentro da janela dos 15 milissegundos.

A saída foi dividir a tarefa em quatro partes menores, cada uma delegada a um modelo especializado naquele recorte específico, com os resultados consolidados no fim. O tempo caiu para o limite exigido pela entidade.

Para Wong, em entrevista à Bloomberg Línea durante passagem por São Paulo, o episódio é uma prova de conceito em campo que ilustra o argumento central da Lenovo em torno da IA híbrida: o modelo mais caro e poderoso do mercado nem sempre é a resposta certa.

PUBLICIDADE

“Eu não preciso de uma Ferrari para ir ao supermercado; preciso de uma Ferrari na pista de corrida”, resumiu o executivo.


⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


Além das câmeras dos árbitros, a empresa fez o escaneamento 3D dos jogadores e desenvolveu o recurso Football AI Pro, disponibilizando dados táticos avançados para todas as 48 seleções.

PUBLICIDADE
Além das câmeras dos árbitros, a empresa também fez todo o escaneamento 3D dos jogadores e desenvolveu o recurso Football AI Pro

O esporte como vitrine

“A nossa infraestrutura tecnológica de testes para a engenharia de implantação garante que possamos fazer a IA funcionar até para o cenário mais exigente: margem zero para erros, um público de seis bilhões de pessoas assistindo a Copa, realizada por três países e, de longe, com o maior número de partidas”, afirmou o executivo, que soma mais de 30 anos de experiência na companhia.

Tanto a parceria com a FIFA — a primeira de viés tecnológico na história da entidade máxima do futebol mundial — quanto o acordo com a Fórmula 1 se tornaram vitrines da marca de origem chinesa para atrair mais clientes corporativos para os seus serviços e produtos.

O SSG — divisão que reúne verticais setoriais, serviços gerenciados e as ofertas as a service da Lenovo, como o Device as a Service e a plataforma TruScale — fechou o trimestre passado com receita recorde de US$ 2,9 bilhões (alta de 28% ano a ano), margem operacional de 24,2% e lucro operacional de US$ 697 milhões (salto de 39%).

PUBLICIDADE

A divisão é a terceira maior da Lenovo, atrás do segmento de dispositivos para usuários finais (IDG) e do de infraestrutura (servidores para IA, nuvem e edge).

Ken Wong, vice-presidente global da Lenovo: acredito que existam muitas oportunidades no mercado brasileiro e também muitas formas de a Lenovo ajudar a acelerar a jornada de IA do país. Por isso, mais uma vez, continuamos investindo aqui

Internamente, a composição dessa receita é o que mais anima a organização: 62,4% já vêm de serviços gerenciados, projetos e soluções, sinalizando menor dependência da venda pura de hardware.

A receita de serviços de IA cresceu em ritmo de três dígitos, e o TruScale, braço de infraestrutura como serviço, avançou 35%.

Para a Lenovo, o TAM (mercado endereçável) do SSG deve superar US$ 850 bilhões até o ano fiscal de 2029-2030, com a fatia ligada à IA crescendo cerca de 25% ao ano.

Wong descreve a estratégia de IA da companhia em três blocos interconectados: a fábrica de IA (infraestrutura de computação necessária para gerar tokens), a biblioteca de IA (conjunto de soluções prontas, hoje com 60 casos de uso validados) e os serviços de planejamento, implementação e manutenção.

Leia também: Redata coloca o Brasil no radar de investimentos globais, diz VP da AWS para a região

Onde estão as oportunidades

Com a escala dos agentes de IA avançando em ritmo gradual, as oportunidades tendem a crescer, segundo o executivo. Para defender a tese, ele cita o estudo Stanford AI Index Report, que aponta que, apesar da ampla adoção corporativa (acima dos 70% iniciais), menos de 10% das empresas implementaram ou estão fazendo POCs com agentes de IA para escalar processos operacionais de ponta a ponta.

“Isso nos mostra que ainda há muito trabalho a ser feito para fazer a IA funcionar e criar o valor e o retorno financeiro adequados. É exatamente nisso que a minha divisão de negócios tem trabalhado”, afirma.

No Brasil, um exemplo mencionado é a modernização da central de atendimento (service desk) de uma multinacional com mais de 100 mil funcionários. Com o uso de IA, a Lenovo mapeou diferentes perfis de usuários — finanças, RH, marketing — e direcionou modelos e governança de dados específicos para cada um.

“Com uma boa compreensão do usuário dentro de uma empresa, conseguimos encontrar a IA certa e os serviços certos para atendê-lo melhor. No fim das contas, acredito que fomos capazes de aumentar a eficiência dessa empresa em 30%”, afirmou Wong.

Leia também: OpenAI se une a Anthropic e Google DeepMind para enfrentar riscos de segurança da IA

É essa visão de negócios que o SSG quer levar a outros clientes locais — mercado tratado como estratégico pela dimensão e por contar com uma estrutura completa, que abrange equipe de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), fábrica (em processo de ampliação) e time de vendas e serviços.

Atualmente, mais de 30 projetos de P&D são conduzidos no país. Um deles foca na inferência de IA utilizando CPUs em vez de GPUs, barateando expressivamente o custo operacional.

“É por isso que acredito que tudo aponta para a existência de muitas oportunidades no mercado e de várias formas de a Lenovo agregar valor para acelerar a jornada de IA do país. Por isso, mais uma vez, continuamos investindo aqui”, disse, sem abrir números.

O executivo revelou ainda que a Lenovo está em conversas ativas com o governo brasileiro sobre IA soberana — conceito que vai além da esfera pública e atende a bancos e instituições financeiras que precisam manter dados e processamento dentro do país por exigências regulatórias ou de latência.