Rússia toma o controle de operação da Nestlé no país, na maior apropriação desde 2024

Presidente Vladimir Putin ordenou que as participações da Nestlé em negócios russos fossem colocadas sob administração temporária de uma empresa registrada em Moscou em 2024 com capital social de apenas US$ 177 e um único funcionário

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Bloomberg — A Rússia assumiu o controle dos negócios locais da gigante suíça de alimentos Nestlé e da rede de supermercados francesa Auchan, na maior apropriação de ativos corporativos estrangeiros pelo Kremlin desde pelo menos 2024, em meio a tensões crescentes com a Europa.

O presidente Vladimir Putin ordenou que suas participações em negócios russos fossem colocadas sob administração temporária de uma empresa chamada AO L.E.V. Menedzhment, segundo um decreto publicado na noite de quinta-feira (17) no portal jurídico oficial do país.

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Essa empresa foi registrada em Moscou em 2024 com capital social de apenas 15 mil rublos (US$ 177) e um único funcionário, segundo dados do registro russo. Ela tinha pouca visibilidade pública antes do decreto.

As ações da Nestlé caíram até 1,9% no início das negociações de sexta-feira, atingindo o menor nível em três meses antes de recuar ligeiramente.

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A ação surpresa do Kremlin contra a Nestlé e a Auchan evidencia o ambiente de negócios cada vez mais difícil enfrentado pelas empresas internacionais que permanecem na Rússia.

Mais de mil empresas deixaram o país depois que Putin ordenou a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022 e Moscou foi atingida por várias rodadas de sanções internacionais.

Ainda assim, muitos grandes nomes, incluindo PepsiCo, Mondelez International e Raiffeisen Bank International, continuam a operar na Rússia sob restrições crescentes, embora tenham reduzido suas operações.

A Nestlé disse num comunicado na sexta-feira que tomou nota do decreto de Putin e avaliava a situação e suas opções.

“A Nestlé está comprometida em tomar todas as medidas necessárias para proteger seus direitos e assegurar a continuidade das operações de negócios no interesse de todas as partes interessadas, particularmente seus funcionários”, disse.

A Auchan Retail Russia disse ter solicitado esclarecimentos sobre o decreto e que forneceria uma resposta mais detalhada assim que tivesse recebido as informações pertinentes, disse a empresa à agência de notícias estatal Tass.

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A Rússia se apropriou de dezenas de ativos internacionais desde 2023, quando alterou a legislação para criar um mecanismo de administração temporária que permite ao Estado tomar o controle de participações detidas por empresas de países que considera “não amistosos”.

Entre eles estão as operações locais da concessionária finlandesa Fortum Oyj, da fabricante francesa de iogurtes Danone e da cervejaria dinamarquesa Carlsberg.

As ordens de administração temporária muitas vezes foram seguidas por transferências de ativos a compradores russos aprovados pelas autoridades, muitos deles com vínculos com o Kremlin.

A Danone e a Carlsberg tiveram seus ativos brevemente devolvidos, mas foram então obrigadas a vendê-los a empresas russas com grandes descontos.

O Kremlin também tornou cada vez mais difícil para as empresas estrangeiras deixarem a Rússia. As transações envolvendo investidores de países “não amistosos” exigem que os vendedores aceitem um desconto de pelo menos 60%, e há também um imposto especial de saída.

Em agosto, Putin sancionou uma lei que permite aos tribunais russos impedir que investidores estrangeiros que deixaram o país após a invasão da Ucrânia em 2022 recomprem os ativos que haviam vendido. Ele disse repetidamente que reingressar no mercado russo será difícil.

Ainda assim, seu decreto noturno sobre a Nestlé e a Auchan foi inesperado. O Kremlin não usava o mecanismo contra ativos de valor comparável desde pelo menos 2024, quando fábricas pertencentes à AB InBev Efes, uma joint venture entre a cervejaria belga AB InBev e a turca Anadolu Efes, foram colocadas sob administração temporária.

A Nestlé opera na Rússia desde os anos 1990, mas reduziu seu negócio após 2022, suspendendo algumas marcas e interrompendo importações e exportações não essenciais, bem como publicidade e investimento de capital.

A gigante suíça de alimentos tem seis fábricas na Rússia, que empregam mais de 7 mil pessoas, onde continuou a produzir o que descreveu como produtos alimentícios essenciais e do dia a dia.

A Rússia responde por cerca de 2% das vendas globais da Nestlé, equivalente a cerca de 2 bilhões de francos suíços (US$ 2,5 bilhões) por ano.

Perder o controle de seus ativos russos poderia equivaler a uma baixa contábil de cerca de 1 bilhão de francos suíços, segundo analistas liderados por David Hayes, da Jefferies.

A resposta da Nestlé à ordem de Putin é “evasiva” até agora, embora os precedentes da Danone e da Carlsberg não sejam animadores, disse Warren Ackerman, analista do Barclays.

“Lemos o decreto como um passo rumo a uma possível mudança de propriedade, embora o cronograma, o processo e a compensação sejam desconhecidos”, acrescentou.

Espera-se que o governo suíço faça uma declaração sobre o desdobramento ainda na sexta-feira.

A Suíça espelhou as sanções da União Europeia contra a Rússia em 2022 por causa da guerra na Ucrânia, rompendo com sua abordagem anterior de neutralidade. A medida provocou uma iniciativa para impor uma interpretação mais rígida da doutrina tradicional do país, e os eleitores decidirão sobre a proposta em 27 de setembro.

A Rússia se manifestou publicamente na campanha em favor de uma neutralidade mais estrita. A aprovação impediria a Suíça de impor sanções a beligerantes sem o respaldo da ONU, o que significa que o país não poderia mais manter suas atuais medidas contra a Rússia na mesma base.

A Auchan esteve entre a primeira onda de grandes empresas de consumo ocidentais a se expandir para a Rússia, abrindo sua primeira loja no país em 2002. A empresa passou a construir uma vasta rede de lojas e agora opera 230 supermercados e hipermercados por todo o país, segundo seu site.

No início deste ano, uma empresa pouco conhecida, a KS Logistics, pediu a Putin que colocasse as entidades locais da Nestlé sob administração temporária, reportou o jornal Kommersant, um movimento que poderia potencialmente abrir caminho para uma mudança de propriedade.

A Nestlé disse ao veículo na ocasião que não havia recebido nenhuma consulta das autoridades russas e que seus escritórios e fábricas continuavam a operar.

Não está claro se a KS Logistics tem alguma ligação com a L.E.V. Menedzhment. A última nomeou Andrey Krayushkin como seu novo presidente-executivo apenas na semana passada, segundo dados do registro russo.

Krayushkin atuou até pelo menos 2020 como primeiro vice-chefe do departamento de migração do Ministério do Interior e detinha a patente de major-general, reportou na quinta-feira o veículo de oposição russo Novaya Gazeta Europe, citando bancos de dados que disse estarem em sua posse. A Bloomberg News não pôde verificar a alegação de forma independente.

-- Com a colaboração de Angelina Rascouet, Fabienne Kinzelmann e Emily Cohn.

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