Bloomberg Línea — O varejo brasileiro entrará no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pressionado por duas forças que se reforçam: juros que tendem a ficar altos por mais tempo e famílias que já destinam quase um terço da renda ao pagamento de dívidas.
Para analistas de BTG Pactual (BPAC11), JPMorgan e Citi, essa combinação reduz ao mesmo tempo o lucro e o valor de mercado das redes, e o desconto nas ações já não funciona como garantia de piso.
O endividamento das famílias equivale a 49,8% da renda disponível, e o pagamento de dívidas consome 29,3% dela, entre os maiores níveis da série histórica, segundo relatório assinado por Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon, analistas de varejo e consumo do BTG.
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O histórico analisado pela equipe do maior banco de investimentos da América Latina mostra que as vendas do varejo costumam acompanhar a expansão do crédito às famílias.
Com juros altos por mais tempo, o crédito fica mais caro e escasso, o que tende a frear o consumo de bens não essenciais.
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Os números do IBGE de agosto, divulgados em 15 de outubro, antes do segundo turno, já mostravam perda de ritmo nas vendas. O volume do comércio varejista variou 0,1% ante julho, na série com ajuste sazonal, depois de recuar 0,8% no mês anterior, abaixo da projeção de alta de 0,8% do consenso da Bloomberg.
No varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, as vendas caíram 0,2%, ante expectativa de avanço de 1%. O segmento de móveis e eletrodomésticos recuou 4,2% pelo segundo mês seguido e ficou 8,5% abaixo do patamar de agosto de 2025.
Pelas contas de Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs, os setores mais dependentes de crédito tiveram retração de 1,5% no mês, enquanto os ligados à renda avançaram 0,2%.
O mercado antecipou esse quadro na reação ao segundo turno, realizado em 25 de outubro. As ações do setor caíram 33% no pregão seguinte e passaram a valer menos do que antes do primeiro turno, segundo os analistas do BTG.
O P/L (preço sobre lucro, que indica quantos anos de lucro o investidor paga pela ação) projetado para 2027 recuou para 6,5 vezes, menos da metade da mediana histórica de 15 vezes.
Boa parte da queda reflete a alta do custo de capital próprio (retorno mínimo que o investidor exige para manter a ação). Pelas contas de Guanais, cada 100 pontos-base a mais nesse custo reduz em cerca de 11% o valor das ações, e a reprecificação já embute alta superior a 300 pontos-base.
Os papéis do setor do varejo ficaram entre as maiores quedas entre os ativos do Ibovespa na segunda-feira (26). O Magazine Luiza (MGLU3) liderou as perdas, com um recuo de 58%. A varejista se recuperou 8,49% na terça-feira, aos R$ 5,75, em um patamar semelhante ao nível antes do primeiro turno.
Outras varejistas que acompanharam o movimento foram C&A (CEAB3), Assaí (ASAI3), Azzas 2154 (AZZA3), Renner (LREN3), Vivara (VIVA3) e Natura (NATU3).
O peso da Selic
A trajetória da Selic (taxa básica de juros do Brasil) define a segunda frente de pressão, agora sobre o lucro. A equipe do BTG projeta a taxa em 12,5% ao fim de 2027 e calcula que cada ponto percentual a mais reduz o lucro esperado para aquele ano em 10% no Assaí (ASAI3), em 8% no Magazine Luiza (MGLU3) e em 4% na Pague Menos (PGMN3).
Os dados mais recentes do Banco Central, divulgados em 29 de setembro, mostram que o crédito às famílias segue em expansão, mas com juros e atrasos maiores.
A taxa média de juros do crédito livre às famílias subiu 1,4 ponto percentual no mês, para 61,7% ao ano, e a inadimplência nessa carteira chegou a 8%, alta de 1 ponto percentual em 12 meses.
O comprometimento de renda com o pagamento de dívidas ficou em 28,7%, o maior nível da série.
O rumo dos juros depende da credibilidade fiscal do novo governo. Emy Shayo Cherman, estrategista de ações brasileiras do JPMorgan, estima em cerca de R$ 100 bilhões, ou 0,8% do PIB, os gastos extras prometidos na campanha.
Para ela e sua equipe, o real mais fraco e a inflação esperada maior podem levar o Banco Central a subir a Selic, e o mercado ainda não tem uma narrativa para o mandato, que dependerá da escolha da equipe econômica.
A comparação com crises passadas reforça a cautela. Entre 2013 e 2015, o setor foi negociado entre 10 e 13 vezes o lucro, num ambiente com menos concorrência digital. A participação do comércio eletrônico nas vendas do varejo subiu de 4% em 2016 para 12,4% em 2025, e Mercado Livre (MELI), Shopee, da Sea (SE), e Amazon (AMZN) concentram 84,5% do tráfego de marketplaces, segundo o BTG.
Quem atravessa melhor
A diferença em relação a ciclos anteriores está no balanço. As varejistas cobertas por Guanais chegam mais capitalizadas, e o Magazine Luiza quitou antecipadamente cerca de R$ 1 bilhão em debêntures em outubro. A rede de eletroeletrônicos também pode ganhar participação da Casas Bahia (BHIA3), que enfrenta dificuldades financeiras, em um processo de recuperação judicial.
No varejo alimentar, a proibição das apostas online e o reajuste do Bolsa Família podem sustentar o consumo de baixa renda. Smart Fit (SMFT3) e RD Saúde (RADL3), dona da Raia e da Drogasil, aparecem nas listas de preferência das equipes do BTG e do JPMorgan, por crescerem com menos dependência do ciclo de consumo. Os analistas do BTG acrescentam a rede de farmácias Panvel (PNVL3).
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Os shoppings sentem o efeito em cadeia. Marcelo Motta, analista do JPMorgan que cobre o setor imobiliário, rebaixou Iguatemi (IGTI11), Multiplan (MULT3) e Allos (ALOS3) para neutro (equivalente a manter a ação), citando o risco de desaceleração das vendas sobre os aluguéis variáveis.
O comércio eletrônico tende a atravessar o período em posição mais confortável. João Pedro Soares e Felipe Husein, analistas do Citi, elevaram a recomendação do Mercado Livre para compra, com potencial de valorização de cerca de 23%, ao avaliar que juros altos limitam a capacidade de concorrentes de ampliar investimentos.
A dupla aponta o crédito e o câmbio como riscos: uma desvalorização de 10% do real pode cortar em cerca de 15% o lucro da companhia em 2027.
Nesse ambiente, a capacidade de gerar lucro sem depender de uma retomada do consumo deve pesar mais do que o desconto nos múltiplos para separar vencedores e perdedores no setor, concluem os analistas do BTG.
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