Bloomberg — A escassez mundial de diesel está dando novo impulso aos esforços da Petrobras (PETR3; PETR4) para aumentar a produção doméstica de combustível, reacendendo a questão politicamente delicada da autossuficiência energética às vésperas da eleição presidencial deste domingo (4).
A gigante petrolífera estatal brasileira avalia investimentos que tornariam o país 100% autossuficiente em diesel. Embora essa abordagem seja impopular em alguns círculos políticos e econômicos do país, perturbações causadas pela guerra, como a proibição da exportação de diesel pela Rússia, lançaram os mercados de combustíveis no caos e fizeram os preços dispararem.
As preocupações se intensificaram nas últimas semanas, à medida que aumentavam as especulações de que o presidente dos EUA, Donald Trump, poderia suspender as vendas de diesel americano para o exterior a fim de controlar a escalada dos preços no varejo no país.
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Tal medida seria desastrosa para países como o Brasil, que se tornaram mais dependentes dos carregamentos dos EUA após a proibição imposta pela Rússia e o colapso de parte da produção do Golfo Pérsico em meio ao conflito com o Irã.
Mas o que seria uma simples decisão empresarial para muitas empresas petrolíferas internacionais não é tão direto para uma entidade como a Petrobras, que, em última instância, responde aos políticos que governam o país. A decisão depende, em grande parte, de quem conquistar o controle do Palácio do Planalto após as eleições.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu ampliar a capacidade de refino da Petrobras, mas o candidato da oposição, Flávio Bolsonaro, inclina-se mais para o investimento privado na economia. O assessor de campanha de Flávio, Adriano Pires, criticou no passado a ideia de a Petrobras construir mais refinarias.
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“Acho que tem partes da Petrobras que podem sim ser privatizadas ou então ter algum outro modelo de parceria público-privada, ou então de desestatização, redução de quantidade de ações que a União tem, mas isso é uma coisa que não dá para cravar agora”, disse Flávio em um evento em junho.
Os preços do diesel são um tema polêmico em um país onde cerca de 30% da população em idade ativa trabalha na agricultura ou no transporte rodoviário. A Petrobras atende a cerca de 70% da demanda doméstica por diesel, sendo o restante importado.
“Depois da guerra EUA e Irã, passamos a estudar as possibilidades, que provavelmente serão confirmadas no nosso plano de negócios 2027-2031, de atingir a autossuficiência na produção de diesel no Brasil,” disse a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, durante uma conferência do setor petrolífero no Rio de Janeiro no final do mês passado. Ela tem reiterado esse ponto repetidamente para investidores, clientes e pares do setor.
A Petrobras não respondeu a um pedido de comentário.
Os EUA forneceram o equivalente a 80.400 barris de diesel por dia ao Brasil nos primeiros oito meses deste ano, um aumento de 11% em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com cálculos baseados em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Ao mesmo tempo, os fornecedores norte-americanos ampliaram sua participação no mercado brasileiro de diesel de 26% para quase 33%.
A virada ocorreu à medida que os suprimentos da Rússia diminuíram após a proibição, em julho, da maioria das exportações, enquanto uma onda de ataques ucranianos danificou refinarias e reduziu as taxas de processamento de petróleo para os níveis mais baixos em vários anos.
Trump afirmou inicialmente que estava considerando “muito seriamente” a implementação de uma proibição de exportações de diesel no início desta semana, mas na sexta-feira disse que nunca teve a intenção de realmente fazê-lo.
Essas declarações foram feitas poucas horas depois que o G7 concordou em participar de uma liberação de 100 milhões de barris de reservas emergenciais de petróleo e diesel para amenizar a crise global.
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Apesar das ambições de refino da Petrobras, a previsão para 2035 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) aponta que o país continuará sendo um importador líquido de combustíveis, mesmo com as expansões planejadas das unidades Rnest e do Complexo Boaventura da empresa.
Há muito em jogo. Os compradores brasileiros já firmaram contratos para importar quase 170 mil barris de diesel por dia neste mês, de acordo com a Abicom, associação do setor de importadores. Cerca de 68% dessa quantidade deve vir dos EUA.