Do moinho ao laboratório: Nita amplia portfólio para crescer além da farinha commodity

Com receita de R$ 760 milhões em 2025, alta de 17%, o moinho familiar instalado no Porto de Santos acelera a diversificação de produtos para atender à demanda por panificação mais sofisticada em uma estratégia para crescer acima do mercado brasileiro de trigo

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Bloomberg Línea — Na última edição da Fipan antes da pandemia, em 2019, o espaço da Nita na principal feira de panificação da América Latina tinha o pão francês como protagonista. Três anos depois, muito havia mudado, e o moinho instalado no Porto de Santos expunha farinhas especiais para fermentação natural e do tipo 00 de tradição italiana entre outros produtos premium.

A troca de vitrine resumia uma revisão de estratégia que a empresa familiar, com quase seis décadas de operação, ainda está executando. A ideia é deixar de depender apenas do básico, da farinha como commodity, e focar em produtos especiais, com mais valor agregado, explicou Jorge Gondim, CEO da Nita, em entrevista à Bloomberg Línea.

“A panificação era basicamente monoproduto, pão francês”, disse Gondim. Segundo ele, a moagem de trigo se organizou durante décadas em torno das massas e do pão francês, e essa lógica definia a cultura e os investimentos das empresas do setor. “Hoje isso mudou. Há espaço para produtos diferenciados, de maior qualidade e valor”, disse.

A mudança da estratégia parte de um mercado com pouco espaço para expansão no modelo tradicional, segundo o executivo. “O mercado de trigo no Brasil cresce 1% ao ano”, disse Gondim. Dentro desse volume estável, a dinâmica muda conforme o produto. Segundo o executivo, as farinhas de perfil italiano e francês atualmente crescem muito acima da média, e podem puxar o avanço de uma empresa como a Nita.

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A Nita encerrou 2025 com receita líquida de R$ 760 milhões, alta de 17% sobre 2024, e volume de produção 12% maior. O Ebitda de 2025 foi de R$ 58,5 milhões, alta de 33,8%. A margem Ebitda passou de cerca de 6,7% para 7,6%. O lucro líquido subiu 39,4%, para R$ 25,4 milhões. A margem bruta ficou estável em 24,6%.

Entre 80% e 90% do negócio é B2B. Os clientes incluem padarias tradicionais, boulangeries, supermercados que produzem pão e indústrias de massas e panificação. No varejo, a marca é mais forte no interior paulista e chegou neste ano às lojas do Pão de Açúcar e do Carrefour na capital.

A mudança da leitura da empresa veio da observação de outras categorias que cresceram com “premiumização”. Vinho, azeite, cerveja e sorvete passaram por processos em que o consumidor começou a buscar origem, sabor e ocasiões de consumo diferentes. Gondim lembrou que, em todas elas, “o consumidor estava buscando novos sabores, novas ocasiões, mas no pão não pode ser diferente”.

O reposicionamento começou entre 2019 e 2020, e a pandemia acelerou este movimento. Consumidores passaram a fazer pão em casa e, depois, a procurar produtos parecidos nas padarias. As boulangeries se multiplicaram em São Paulo, e as padarias de bairro passaram a ser cobradas por itens que antes não ofereciam. Segundo Gondim, algo entre 25% e 30% do crescimento da Nita no ano passado veio de produtos que a empresa não tinha quatro anos atrás.

Mas simplesmente lançar novas farinhas no mercado não seria suficiente para o avanço da marca, segundo ele. A empresa colocou no mercado a farinha tipo 00 italiana, farinhas para fermentação natural e uma linha para folhados, mas percebeu que boa parte dos clientes não dominava esses insumos. “As pessoas não necessariamente sabiam o que fazer com aquelas farinhas”, disse Gondim.

A constatação levou a uma sequência de investimentos. A Nita ampliou o marketing, algo pouco comum em moinhos tradicionais, e enviou equipes à França, à Itália, à Alemanha e aos Estados Unidos para observar o consumo nesses mercados. Em seguida, reestruturou a área de pesquisa e desenvolvimento.

O orçamento de P&D subiu 78% em 2025 e deve triplicar em 2026, já considerando o Centro Técnico de Santos, inaugurado em outubro do ano passado. A fábrica, que recebeu R$ 32 milhões em 2025 junto com a operação portuária, está sendo adaptada para ganhar flexibilidade e produzir lotes mais variados.

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O passo mais recente é o Nita Lab, espaço de 530 metros quadrados em Pinheiros, na capital paulista, com investimento inicial de mais de R$ 5 milhões. O local tem laboratórios para processos artesanais e industriais, salas de treinamento e uma padaria e pizzaria funcionais, operadas por técnicos com formação internacional.

Gondim contou que, há alguns anos, resistia a lançar uma farinha especial para preparar croissant por achar que o produto não tinha demanda no Brasil. Mudou de ideia ao comer um croissant no café da manhã de um hotel na Alemanha. “Pensei que, se conseguíssemos fazer esse produto no Brasil, poderia ter espaço”, contou. Na avaliação dele, o laboratório tem a função de tornar a inovação concreta para os clientes, como aconteceu com ele naquela viagem.

A lógica econômica é que o moinho só cresce se os clientes, as padarias, venderem mais. “O que gira é na ponta”, disse Gondim. Se o cliente “conectado à minha cadeia” cresce mais, “eu cresço junto com ele”, afirmou.

Para ampliar o portfólio sem desenvolver tudo internamente, a Nita passou a buscar parceiros. “Não preciso virar especialista em tudo”, disse Gondim.

Na pizza, a empresa se associou à Polselli, fabricante italiana tradicional, e trouxe técnicos da Itália para treinar clientes brasileiros nos estilos napolitano e romano. Neste ano, a Nita fechou acordo com a austríaca Backaldrin, fornecedora de misturas e ingredientes para panificação presente em mais de 120 países. Os primeiros lançamentos incluem farinha com levain [fermento natural] desidratado, uma mistura para pão francês com centeio e espelta, misturas com apelo de proteínas e fibras e um melhorador para massa congelada. Os novos itens se somam a um portfólio de mais de 70 produtos.

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Apesar de o processo pelo qual o moinho passa se associar ao que acontece com outros produtos, Gondim disse evitar o termo “premiumização” para descrever o que a Nita faz. Prefere falar em diversificação. A sofisticação acontece na ponta, onde padarias passam a vender croissants de manteiga e pães de fermentação longa, mas a empresa insiste em oferecer insumos para diferentes faixas de preço. “Vai ter o croissant que vai ser vendido por R$ 18, mas também vai ter o de R$ 12. A acessibilidade é muito importante para esse mercado”, disse.

Um exemplo é a farinha francesa usada especialmente para fazer baguetes. A Nita desenvolveu uma versão com trigo nacional, mais barata que a importada, e continua vendendo as duas. “A gente desenhou ela com trigo nacional, ajustou o processo e ofereceu para o brasileiro”, disse Gondim. A lógica vale para o brioche, linha que a empresa reformulou neste ano. “Não achamos necessariamente que o brioche é um pão premium, é um pão que que tem espaço para crescimento”, afirmou.

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Para o executivo, a mudança no portfólio também reduz a volatilidade. “A gente tá criando um negócio mais estável”, disse. O movimento atual da empresa é importante, mas a diversificação e o aumento de produtos premium não eliminam totalmente a exposição à commodity, disse. “Quando analisamos riscos para para o negócio, sempre avaliamos o risco cambial, o risco de abastecimento”, disse Gondim.

Outra questão importante, disse, é que a localização do moinho no porto de Santos permite alternar a origem do produto para reduzir a exposição. “A Argentina é o fornecedor natural brasileiro”, afirmou, mas a empresa já comprou de outros países, como Uruguai, Estados Unidos e Canadá, e passou a usar mais trigo nacional à medida que a qualidade da safra brasileira melhorou.