Bloomberg Línea — O Banco do Brasil (BBAS3) travou a linha de parcelamento automático de fatura de cartão de crédito ao identificar que correntistas das classes D e E rolavam o saldo devedor sem desembolsar nada, e passou a exigir pagamento de entrada para liberar a operação. A CEO Tarciana Medeiros afirmou a analistas nesta quinta-feira (13) que o efeito da correção já apareceu no mês passado.
“Até julho, já vemos a curva de normalização acontecendo para essa linha”, disse Medeiros, na teleconferência sobre o resultado do segundo trimestre.
A intervenção veio tarde demais para o balanço. A inadimplência acima de 90 dias na carteira de cartões saltou de 7,1% em março para 14,6% em junho, alta de 750 pontos-base em um único trimestre, e concentrou a deterioração do crédito no período.
O vice-presidente financeiro e de Relações com Investidores, Marco Geovanne Tobias da Silva, reconstituiu a sequência ao responder a Eduardo Nishio, head de research e financials da Genial Investimentos, que pediu explicações sobre a velocidade da piora.
Segundo o executivo, a estratégia desenhada para compensar a perda de valor da carteira rural era crescer em pessoa física. O foco principal era o consignado, mas o banco também adotou frentes voltadas ao cartão de crédito. No segmento de alta renda, o faturamento dos cartões alcançou R$ 127 bilhões no trimestre.
O problema surgiu em outra ponta da base de clientes. O banco implementou uma nova sistemática de parcelamento automático de faturas que alcançou correntistas dos segmentos D e E. Ao longo do primeiro trimestre, o CFO afirmou ter percebido que esses clientes começaram a acionar o mecanismo de forma recorrente. O banco levantou um sinal de alerta e travou a linha de imediato.
Veio então o ajuste retroativo. As operações parceladas automaticamente entre janeiro e março sem qualquer pagamento tiveram o risco agravado e passaram a ser classificadas como efetivamente em atraso, o que produziu o salto do indicador em um único trimestre.
“Nós acreditamos que agora é uma inadimplência fato, porque se ele só parcelava sem pagar”, disse Tobias da Silva.
O executivo usou a palavra “estilingada” para descrever o comportamento do índice e classificou o efeito como pontual.
No mercado de crédito e finanças, os termos ”estilingada” ou “efeito estilingue” define um salto abrupto de um indicador geralmente após período de forte represamento ou pressão.
O banco acionou as esteiras de cobrança e encerrou a possibilidade de pagamento parcelado automatizado no cartão. A exigência de entrada, segundo ele, é a prática comum entre os pares privados.
Deterioração do crédito
O CFO situou o episódio dentro de um pano de fundo mais amplo, que já vinha sendo comunicado ao mercado. Ele citou a contaminação do segmento de pessoa física pelos produtores rurais, o aumento do endividamento das famílias e os programas de renegociação do governo, como o Desenrola. A mudança de mix em direção à pessoa física continua de pé, mas o banco freou o cartão no público das classes D e E.
Depois de detalhar o caso, Tobias da Silva afirmou que outros fatores contribuíram para a deterioração do trimestre, mas que o principal foi o segmento D e E na modalidade de parcelamento automático.
O mercado não tratou o episódio como pontual. O JPMorgan classificou o cartão de crédito como o destaque negativo do trimestre e disse que a alta de 750 pontos-base surpreendeu, mesmo diante de expectativas já baixas formadas a partir dos dados do SCR (Sistema de Informações de Créditos do Banco Central).
O banco americano, que mantém recomendação neutra para BBAS3, calcula formação de nova inadimplência de R$ 21,7 bilhões e nova formação de estágio 3 de R$ 20,5 bilhões, ambas acima das provisões brutas de R$ 18,9 bilhões, o que implica cobertura de 87% a 92% das perdas formadas. O índice de cobertura recuou 10 pontos percentuais, para 149%.
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Riscos
A recuperação do segundo semestre depende de uma medida que ainda não saiu do papel. A MP 1.376, publicada em 15 de julho para permitir a renegociação de dívidas rurais, seguia sem execução quase um mês depois. Mário Pierry, managing director de equity research do Bank of America, questionou se os benefícios não ficariam para 2027.
O CFO respondeu que o banco terá um pedaço de agosto e setembro para acelerar e citou o histórico da MP 1.314, quando o BB partiu de uma meta de R$ 12 bilhões e reestruturou mais de R$ 30 bilhões. Segundo ele, a inadimplência do trimestre foi agravada por um risco moral, com produtores interrompendo pagamentos enquanto aguardavam a tramitação no Congresso.
O vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Riscos, Felipe Prince, disse que a estratégia de renegociação está definida, mas ainda não foi ao mercado.
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O desenho exige entrada e vinculação de garantias adicionais, condições que podem gerar migração de estágios, reversão de provisão e retomada da apropriação de juros. O JPMorgan calcula que operações renegociadas, prorrogadas e da MP 1.314 já somam R$ 180 bilhões, ou 14,4% da carteira, ante 13,9% em março.
“Não contamos com nenhum ovo sem que a galinha tenha botado”, disse Prince, ao rebater a sugestão de Henrique Navarro, head de banks & financial non-banks equity research do Santander para América Latina, de que o banco deveria ter provisionado toda a deterioração observada.
Sobre o El Niño, o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar, Gilson Alceu Bittencourt, afirmou que 280 profissionais de ciências agrárias acompanham o cenário em tempo real, com incentivo a seguro, Proagro e investimento em irrigação.
A CEO acrescentou que o produtor também se antecipa. No Centro-Oeste, a previsão de falta d’água leva à antecipação de plantio e colheita. No Nordeste, a seca agravada deve pressionar a safrinha, com perdas prováveis em milho. No Sul, o problema se inverte, com maior volume hídrico. Prince disse que os impactos já estão no guidance de PDD (provisão para devedores duvidosos) de 2026 e parametrizados no motor de concessão para 2027.
Provisão no topo, lucro na ponta baixa
Com lucro de R$ 7,3 bilhões no semestre, incluindo benefício fiscal de R$ 1,4 bilhão, analistas cobraram explicações sobre a manutenção das projeções para o ano.
“Espere provisão ali na ponta alta, lucro na ponta baixa”, disse o CFO, que admitiu risco de desvio de 5% a 6% e adiou a discussão sobre revisão do guidance para o terceiro trimestre.
As ações caíam cerca de 3%, a R$ 18,43, por volta do meio-dia desta quinta-feira, com desvalorização superior a 15% no ano. O JPMorgan destacou que o patrimônio líquido recuou R$ 5,2 bilhões, para R$ 180,6 bilhões, apesar do lucro gerencial de R$ 3,9 bilhões, e que o CET1 (indicador da saúde financeira e solidez de um banco) caiu 30 pontos-base, para 11,3%. O Itaú BBA resumiu o trimestre como um resultado acima do esperado, porém de menor qualidade.
A pressão também migrou para as empresas de menor porte. Prince afirmou que a inadimplência cresce no topo do segmento de micro e pequenas empresas e no low middle, com faturamento entre R$ 50 milhões e R$ 200 milhões, onde os pedidos de recuperação judicial atingiram recorde no primeiro semestre. O banco elevou de 30% para 40% a parcela dessa carteira colateralizada por fundos garantidores e voltou à liderança de desembolsos no FGI e no FGO.
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