Bloomberg Línea — Em um ano que sinaliza a retomada do apetite do investidor para a renda variável, a B3 – atualmente a única bolsa de valores em operação no Brasil – avança para diversificar seus negócios para além da negociação de ativos.
A empresa lançou nesta quinta-feira (5) a marca Trillia, que une cinco negócios de dados que operam dentro da B3.
O objetivo é consolidar uma fonte de receita recorrente desatrelada ao negócio de bolsa e, portanto, menos exposta ao ciclo macroeconômico mais volátil.
“A B3 tem capacidade de ser uma empresa ambidestra, atuando no core business no mercado de capitais e também [aproveitando essa] oportunidade de crescimento nas adjacências”, afirmou o CEO da B3, Gilson Finkelsztain, à jornalistas em evento nesta quinta-feira (5).
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O movimento segue o passo já dado por concorrentes no exterior, que buscam tradicionalmente diversificação no mercado de dados por já contarem com a expertise de processar e coletam enormes volumes de informações sobre negociações e comportamento de mercado.
Na B3, a diversificação começou em 2018, com um negócio interno de dados que se tornou a Unidade de Infraestrutura para Financiamentos (UIF).
A frente foi reforçada ao longo dos últimos anos com quatro aquisições, das empresas PtDTec, Neoway, Neurotech e DataStock.
A Trillia é a primeira marca criada pela bolsa desde a própria B3, adotada em março de 2017 a partir da fusão entre a BM&FBOVESPA e a Cetip.
A marca não cria uma nova empresa, mas consolida os negócios anteriores sob um único guarda-chuva. Uma estratégia que busca destravar valor para a B3, segundo o CEO.
A B3 (B3SA3) tem atualmente valor de mercado aproximado de R$ 87 bilhões, depois que a ação subiu perto de 50% em 12 meses.
“Existe uma opcionalidade enorme dentro do nosso negócio. E esse segmento pode crescer de forma muito robusta, com um crescimento de dois dígitos por muitos anos, que ganhe participação dentro da B3″, disse.
Hoje a frente de dados já representa 10% da receita da B3.
A empresa não fornece guidance, mas Finkelsztain estima que as concorrentes no exterior buscam uma faixa de 25% e 30% de receita vinda de seus negócios de dados para além do core business.

O ecossistema rebatizado de Trillia já atende mais de 6.000 clientes em quatro verticais: inteligência de mercado, marketing e vendas; compliance e prevenção a fraudes; mercado segurador; e crédito e recuperação.
As soluções envolvem, entre outros pontos, análise de mercado potencial, precificação de risco e prevenção a lavagem de dinheiro.
“Mais do que produto de prateleira, atuamos em várias indústrias. Somos muito fortes em financeiro porque o DNA é da B3, mas atuamos também em varejo, logística, transportes, tem uma abrangência muito grande. Crédito, por exemplo, atinge todas essas indústrias”, afirmou Marcos Vanderlei, novo diretor à frente da Trillia, e também vice-presidente da unidade de infraestrutura para financiamentos da B3.
Expectativas para 2026
O lançamento da Trillia ocorre simultaneamente a um período de otimismo para o core business da B3, especialmente quando o assunto é renda variável. Em janeiro, até o dia 29, os estrangeiros comparam R$ 25,3 bilhões em ações locais, um montante superior a todo o fluxo do ano de 2025.
“Parece ser o início de movimento que reverte uma tendência de quase cinco anos em que mercado americano absorveu todo o dinheiro marginal na indústria de investimento. Ainda veio pouco capital para o Brasil perto do que ainda pode vir”, afirmou Finkelsztain.
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O CEO da B3 estimou que 2026 será o ano de reabertura do mercado brasileiro para as ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês), que não ocorrem desde o segundo semestre de 2021.
O início do ano foi marcado pela abertura de capital da fintech brasileira PicPay na Nasdaq, com ações precificadas no teto da faixa indicativa, o que pode ser “um prenúncio de uma potencial onda de abertura de capital no Brasil”.
Na próxima semana, a expectativa é que seja a vez do Agibank, que vai buscar concluir a sua oferta inicial na NYSE, a Bolsa de Nova York.
As conversas preliminares de Finkelsztain com agentes de mercado apontam de 10 a 15 operações ainda este ano, entre follow-ons e IPOs.
Entre as ofertas iniciais de ações, a expectativa é que o setor de infraestrutura “puxe a fila” com operações maiores.
“É um tema de demanda. Se houver demanda [do investidor], as empresas vêm a mercado”.
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