Aegea vê crise de confiança abalar dívida. Traders ‘vendem primeiro e perguntam depois’

S&P e Fitch Ratings colocaram a empresa de saneamento no território especulativo nesta semana e deixaram a nota de crédito sob observação para novos rebaixamentos após a companhia adiar a divulgação de suas demonstrações financeiras

Companhia revisou demonstrações financeiras de 2022 a 2024 em setembro para corrigir a forma como anteriormente contabilizava lucros (Foto: Divulgação/Aegea)
Por Vinícius Andrade - Giovanna Bellotti Azevedo - Rachel Gamarski
02 de Abril, 2026 | 02:57 PM

Bloomberg — Em questão de semanas, a Aegea Saneamento e Participações passou de mirar uma avaliação de vários bilhões de dólares em um IPO no Brasil para ver investidores de seus títulos correrem para a porta de saída.

A S&P Global Ratings e a Fitch Ratings colocaram a empresa de saneamento ainda mais no território especulativo nesta semana e colocaram a nota de crédito sob observação para novos rebaixamentos após a companhia adiar a divulgação de suas demonstrações financeiras.

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Embora a Aegea tenha dito que o atraso se deve a ajustes contábeis e não afetará fluxo de caixa, liquidez ou covenants, não é a primeira vez que a empresa precisa republicar seus resultados.


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A companhia — que tem o GIC e a Itaúsa entre seus principais acionistas — revisou demonstrações financeiras de 2022 a 2024 em setembro para corrigir a forma como anteriormente contabilizava lucros em transações entre partes relacionadas.

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“A Aegea já opera com uma estrutura corporativa complexa, que exige ajustes analíticos para consolidar a dívida e o fluxo de caixa em suas principais subsidiárias operacionais”, disse a S&P, em 1º de abril.

“Esses fatores impactam negativamente nossa avaliação da gestão e governança, particularmente no que se refere à transparência e às práticas de divulgação.”

O rebaixamento da S&P — e o alerta de uma possível aceleração da dívida caso as demonstrações não sejam publicadas até 10 de abril, o que poderia configurar evento de default em alguns títulos locais e acionar cláusulas de cross-default em seus bonds em dólar — derrubou os papéis na quarta-feira.

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A dívida com vencimento em 2036 despencou 14 centavos de dólar, a maior queda desde sua emissão no ano passado, elevando os yields para 12,5%, segundo dados da Trace.

Leia também: Para a Itaúsa, Aegea pode ser avaliada em mais de R$ 40,5 bilhões em eventual IPO

Os títulos recuperaram cerca de 6 centavos na quinta-feira, em dia de volume menor, após a empresa afirmar que divulgará demonstrações financeiras auditadas de 2025 em 8 de abril.

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O rebaixamento da S&P e o fato de a Aegea não ter realizado uma teleconferência para tranquilizar investidores “nos levam a acreditar que os ajustes podem resultar em uma deterioração maior das métricas de crédito do que esperávamos anteriormente”, escreveu Filipe Botelho, analista sênior de crédito da Lucror Analytics, em nota a clientes na qual cortou a recomendação do título de compra para manutenção.

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A Itaúsa afirmou no mês passado que espera que a Aegea alcance uma avaliação acima de R$ 40,5 bilhões em seu IPO planejado para os próximos meses.

GIC e Itaúsa têm recentemente aportado recursos na Aegea, participando de aumentos de capital consecutivos que totalizaram cerca de R$ 1,2 bilhão, segundo documento de março.

“A Aegea agora enfrenta um novo desafio para restaurar sua reputação junto aos investidores”, o que deve levar ao adiamento dos planos de IPO no primeiro semestre do ano, escreveu Botelho.

A Aegea não respondeu imediatamente a pedido de comentário.

A forte onda vendedora mostra o quão cautelosos os investidores permanecem com créditos corporativos brasileiros após uma série de problemas envolvendo empresas.

Traders têm sofrido com uma sequência recente de más notícias, e a produtora de açúcar e etanol Raízen e a rede de supermercados GPA entraram em reestruturações extrajudiciais no último mês, e a Alliança Saúde e Participações buscou proteção judicial temporária contra credores.

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“Qualquer novidade tem sido suficiente para reacender dúvidas sobre a qualidade de crédito das companhias”, disse Victor Tofolo, head de gestão de crédito da Bradesco Asset Management.

“Pode parecer exagerado, mas o ambiente de baixa convicção — combinado com agências de rating mais ágeis e pressionadas pelo histórico recente de eventos que foram subestimados — criou um mercado muito sensível a qualquer fato relevante.”

Outras empresas, como a petroquímica Braskem e a Kora Saúde, da HIG, também avaliam medidas de reestruturação, disseram pessoas familiarizadas com o assunto à Bloomberg News nesta semana.

“Parece haver certa fadiga entre investidores, mesmo aqueles há muito tempo envolvidos com o Brasil”, disse Roger Horn, estrategista sênior da Mariva Capital Markets.

“Com tudo o que tem acontecido recentemente, os investidores estão vendendo primeiro com base nas manchetes e fazendo perguntas depois.”

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