Reprecificação de juros leva multimercados a pior mês desde 2020

O IHFA, um índice de multimercados locais acompanhado pela Anbima, caiu 3,4% em março. A maior parte das perdas veio com a alta dos juros futuros à medida que operadores reduziram quase pela metade as apostas em cortes diante do salto nos custos de energia

Entre as maiores perdas estiveram os principais fundos da Ibiuna Investimentos e da Kapitalo Investimentos, que caíram 10,9% e 6,5% em março (Foto: Victor Moriyama/Bloomberg)
Por Felipe Saturnino - Raphael Almeida - Leda Alvim - Barbara Nascimento
09 de Abril, 2026 | 12:24 PM

Bloomberg — Os fundos multimercado tiveram o pior mês em seis anos após a disparada dos preços do petróleo desmontar apostas em queda de juros — uma estratégia que havia se tornado quase consenso entre os gestores do país.

A maior parte das perdas veio com a forte alta dos juros futuros no Brasil, à medida que operadores reduziram quase pela metade as apostas em cortes de juros diante do salto repentino nos custos de energia. Apostas na queda do petróleo também pesaram, com o Brent saindo de cerca de US$ 70 por barril no início da guerra para mais de US$ 115 no fim do mês.

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O IHFA, um índice de multimercados locais acompanhado pela Anbima, caiu 3,4% em março — o pior resultado desde o impacto da pandemia em 2020.


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Entre as maiores perdas estiveram os principais fundos da Ibiuna Investimentos e da Kapitalo Investimentos, que caíram 10,9% e 6,5% em março, respectivamente, registrando o pior mês da história. Em contraste, o CDI, referência para a indústria, subiu 1,2% no período.

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A piora interrompeu o que vinha sendo um início de ano forte para uma indústria que ainda se recupera de perdas, após os fundos lucrarem com apostas em um corte de juros.

As perdas ocorreram mesmo com a atuação do Tesouro brasileiro, que fez uma intervenção recorde no mercado de títulos no mês passado, injetando liquidez após o acionamento de ordens de stop-loss.

FundoPerformance
Ibiuna Hedge STH-10,89%
Kapitalo Kappa Fin-6,46%
Adam Macro II-4.44%
Legacy Capital-3,55%
Occam Retorno Absoluto Advisory-2,87%
Ace Capital-2,04%
Vinland Macro-1.78%
Genoa Capital Radar-1,34%
Bahia AM Marau-0,91%
Absolute Vertex-0,81%
Verde-0,05%

As perdas da Ibiuna, que administra cerca de R$ 14 bilhões de acordo com a Anbima, estiveram principalmente ligadas a posições em juros de mercados emergentes e no dólar, segundo carta mensal a investidores.

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A Kapitalo, por sua vez, sofreu com apostas otimistas em ações, queda de juros em mercados emergentes e desenvolvidos e preços mais baixos do petróleo. A gestora reduziu a exposição a risco nas primeiras posições e zerou as últimas, segundo Bernardo Feijó, sócio e diretor de operações.

Leia também: Ibiuna ganha com queda de juros futuros e multimercados abrem ano acima do CDI

“Tivemos um choque de incerteza violento, é como se você saísse abruptamente de um ambiente super benigno para alocação de capital para um cenário bem mais adverso e bem menos palatável para os mercados”, disse Feijó, da Kapitalo, acrescentando que todos foram pegos de surpresa, “de maneira indiscriminada.”

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Por ora, a Kapitalo mantém posições menores em juros tanto de mercados emergentes quanto desenvolvidos, além de estratégias de valor relativo em ações brasileiras, segundo Feijó.

Leia também: Vinland e Kapitalo se destacam em ano positivo para fundos multimercados

O processo de retomada da alocação de risco deve ser mais gradual que o habitual. “O mercado ficou muito machucado”, acrescentou.

A seguir, um resumo do que alguns dos maiores hedge funds fizeram em março, com base em entrevistas e cartas mensais a clientes:

  • A Legacy Capital registrou perdas principalmente devido a posições em juros futuros locais e ações no exterior, segundo carta mensal
    • A “incerteza relevante” no cenário levou a gestora a reduzir sua exposição a risco
  • A Occam, que administra quase R$ 15 bilhões, diminuiu apostas em queda de juros no Brasil, afirmando que o ciclo de afrouxamento pode ser afetado
    • A gestora também está aumentando posições em bancos locais e em ações de tecnologia dos EUA, segundo carta a clientes
  • Na Absolute Investimentos, que administra quase 70 bilhões de reais, as perdas foram limitadas, já que a gestora tinha uma aposta relativamente pequena em queda de juros, parcialmente compensada por posições tomadas, segundo carta a clientes
  • A Verde Asset Management, de Luis Stuhlberger, teve ganhos com aumento de posições em ações brasileiras, hedge com opções de petróleo e uma nova posição em prata
    • As perdas vieram principalmente de ações globais, ouro, moedas e crédito local, segundo carta mensal
  • A Adam Capital mantém posições que se beneficiam da alta dos juros e da inflação no Brasil; também aposta em ações de tecnologia dos EUA e no dólar contra o real e o euro, segundo sua carta de março
  • A Vinland Capital reduziu drasticamente o risco de sua carteira durante a guerra, diminuindo posições que se beneficiavam da queda de juros no Brasil e da desvalorização do dólar
  • A Bahia Asset teve ganhos com posições relativas em ações, incluindo índices no Brasil e nos EUA, mas perdas com apostas em juros de países emergentes e em ouro, segundo informou em sua carta mensal
    • O fundo mantém posições em ações brasileiras e no real contra uma cesta de moedas, além de estar vendido em euro e dólar contra moedas de países desenvolvidos e comprado em ouro
  • A Genoa Capital afirmou que as perdas no mês vieram de sua exposição a moedas e juros globais, enquanto juros locais e ações também pesaram negativamente
    • A exposição ao real contribuiu positivamente, segundo comunicado à Bloomberg News
  • As perdas da Ace Capital vieram principalmente de sua estratégia em renda fixa, devido à alta das taxas de juros no mundo, além da alocação em ações globais — especialmente por causa da queda do S&P 500 —, segundo carta mensal
    • As posições em moedas foram, de modo geral, neutras

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