Bloomberg — Na história do mercado de prata, os preços haviam superado o patamar de US$ 40 a onça em apenas alguns breves períodos até o ano passado. Na sexta-feira (30), traders assistiram, atônitos, ao metal precioso despencar esse valor em menos de vinte horas.
Há semanas, operadores do mercado vinham passando as noites grudados às telas, enquanto preços de metais — de ouro a cobre e estanho — pareciam se libertar dos fundamentos de oferta e demanda, impulsionados por uma onda de dinheiro especulativo vindo da China.
E então, em questão de poucas horas, a disparada se transformou em uma das quedas mais acentuadas já vistas nos mercados de commodities.
O recuo de 26% da prata na sexta-feira foi a maior já registrada, enquanto o ouro caiu 9%, no pior dia em mais de uma década.
Leia também: China planeja injeção de capital de US$ 29 bilhões em grandes seguradoras do país
Operadores de cobre ainda tentavam se recompor depois de uma alta súbita acima de US$ 14.500 por tonelada que se desfez com a mesma rapidez.
“Na minha carreira, sem dúvida, foi o movimento mais selvagem que já vi”, disse Dominik Sperzel, chefe de trading da Heraeus Precious Metals, uma das principais refinadoras de metais preciosos. “O ouro é um símbolo de estabilidade, mas um movimento como esse não é símbolo de estabilidade.”

Embora o gatilho para o colapso de sexta-feira tenha sido a notícia de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, planejava indicar Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve — o que fortaleceu o dólar —, muitos já alertavam que os mercados de metais estavam esticados demais e sujeitos a uma correção após semanas de altas incessantes.
Ainda assim, a velocidade e a magnitude da queda foram de tirar o fôlego, especialmente em um mercado tão grande e líquido quanto o do ouro.
Traders de metais na Europa e nos Estados Unidos têm trabalhado praticamente sem parar, relutantes em perder o pregão asiático, quando muitos dos movimentos mais bruscos ocorreram — e até negociando freneticamente durante voos de longa distância.
Na maior conferência mundial de moedas, realizada na Alemanha na semana passada, executivos ficaram parados, olhando para os celulares, em silêncio, enquanto a crise se desenrolava.
“Parabólico”, “frenético” e “impossível de operar” foram algumas das descrições do mercado na sexta-feira, escreveu Nicky Shiels, chefe de estratégia de metais da MKS PAMP SA. Janeiro de 2026, afirmou, entrará para a história como “o mês mais volátil da história dos metais preciosos”.
Ritmo intenso
A alta do ouro vem se formando há vários anos, à medida que bancos centrais ampliaram suas reservas como alternativa ao dólar, e ganhou força no ano passado quando investidores ocidentais aderiram em massa à chamada “aposta na desvalorização” da moeda americana.
Nas últimas semanas, porém, os ganhos assumiram um ritmo muito mais frenético, impulsionados por uma onda de compras de especuladores chineses — de investidores individuais a grandes fundos de ações que passaram a operar commodities —, levando metais de cobre a prata a novos recordes.
Com a escalada dos preços, gestores de estratégias sistemáticas, como os “commodity trading advisors” que seguem tendências, entraram com força, adicionando ainda mais força à alta.
“Identificamos há cerca de três ou quatro semanas que isso havia se transformado em uma operação de momentum, não em uma aposta baseada em fundamentos”, disse Jay Hatfield, diretor de investimentos do hedge fund Infrastructure Capital Advisors. “Nós simplesmente acompanhamos o movimento, esperando que algo assim acontecesse.”
Leia também: Brasil segue atraente para carry trade mesmo com eleição, diz gestor global
Com as atenções voltadas para preocupações sobre a independência do Fed e confrontos geopolíticos — de Venezuela a Irã —, a alta dos metais passou a simbolizar a crescente desconfiança de parte dos investidores em relação ao dólar.
À medida que o movimento de alta atraía cada vez mais compradores, a febre do ouro e da prata tomou consumidores da China à Alemanha — em cenas que lembraram 1979 e 1980, o único outro período da história recente com oscilações de preços tão intensas.
“Estamos esgotados em alguns tamanhos de barras com semanas de antecedência e, ainda assim, as pessoas continuam comprando”, disse Sperzel, da Heraeus, afirmando que a empresa opera no limite da capacidade para tentar atender à demanda. “As pessoas ficam horas em fila na frente das lojas para comprar produtos.”
Os movimentos de preços foram mais dramáticos na prata, um mercado relativamente pequeno, com oferta anual avaliada em apenas US$ 98 bilhões aos preços atuais, contra US$ 787 bilhões no caso do ouro.
Na sexta-feira, o iShares Silver Trust, o maior fundo negociado em bolsa lastreado em prata, conhecido pelo ticker SLV, registrou mais de US$ 40 bilhões em volume negociado. Isso o colocou entre os ativos mais negociados do planeta — quando, poucos meses antes, raramente ultrapassava US$ 2 bilhões.

A atividade em opções, que se tornaram cada vez mais populares entre investidores de varejo nos últimos anos, também foi intensa.
Vistas por alguns como uma forma barata de apostar em altas do mercado, postagens em fóruns do Reddit — que ajudaram a impulsionar ondas anteriores de investidores de varejo para a prata — exibiam ganhos superiores a 1.000% obtidos com apostas na rápida escalada do metal.
Os maiores ETFs de ouro e prata registraram, nas últimas semanas, níveis recordes de posições em aberto e volumes de negociação em opções de compra, e o volume de calls do SLV superou o do principal ETF que acompanha o índice Nasdaq 100 de ações de tecnologia.
Leia também: Corrida do ouro: metais preciosos batem recordes com desconfiança fiscal e política
Quando há muitas opções de compra em aberto, criam-se as condições para um “squeeze”, já que os dealers correm para se proteger comprando o ativo subjacente quando os preços começam a subir, o que contribui para movimentos adicionais.
“À medida que os preços sobem, eles são obrigados mecanicamente a comprar cada vez mais”, disse Alexander Campbell, ex-chefe de commodities da Bridgewater Associates. “Isso ajuda a explicar por que subimos tão rápido e caímos tão rápido.”
O comentário de Trump, na noite de terça-feira, de que o dólar sob pressão estava “indo muito bem” desencadeou uma última onda de compras de metais, levando os preços a novos recordes. Na quinta-feira, o ouro alcançou US$ 5.595 a onça, a prata superou US$ 121 e o cobre atingiu US$ 14.527,50.

O primeiro sinal de reversão surgiu mais tarde na quinta-feira, quando o dólar passou a subir com a abertura dos mercados americanos e o ouro despencou repentinamente — em certo momento, caiu mais de US$ 200 a onça em cerca de dez minutos.
Os preços chegaram a se estabilizar brevemente, mas então a Bloomberg News e outros veículos noticiaram que Trump planejava indicar Warsh como próximo presidente do Fed.
Se antes a sessão da manhã na Ásia havia impulsionado os preços de forma consistente — enquanto traders europeus observavam incrédulos —, desta vez investidores chineses realizaram lucros. As sementes do colapso dramático de sexta-feira estavam lançadas.
“A China vendeu, e agora estamos sofrendo as consequências”, disse Campbell.
O que vem a seguir pode, mais uma vez, depender da China. Limites diários de variação de 16% a 19% para diversos contratos de prata nas bolsas chinesas significam que os preços em Xangai talvez precisem correr atrás do prejuízo.
Ainda assim, a correção às vésperas do Ano Novo Lunar, um período tradicionalmente forte para compras, pode oferecer um ponto de entrada, com investidores de varejo que perderam a alta esperando para voltar ao mercado.
Leia também: Da Meta à Samsung: gigantes de tecnologia aceleram ritmo agressivo de gastos com IA
Em Shuibei, um importante polo de comércio de metais preciosos, a escassez de prata diminuiu um pouco, com mais vendas do que compras no fim de semana, segundo traders. Não há sinais de pânico, e os preços da prata em Shuibei continuam sendo negociados com prêmio em relação aos contratos de bolsa, afirmaram.
Enquanto o interesse do varejo permanece latente, vários bancos chineses anunciaram na sexta-feira novas medidas para conter riscos associados a produtos de acumulação de ouro voltados ao público, após uma série de iniciativas semelhantes ao longo do último ano.
O China Construction Bank informou que elevará, a partir de segunda-feira, o valor mínimo de depósito e pediu que investidores reforcem a atenção aos riscos, enquanto o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) disse que implementará controles de cotas para seu serviço Ruyi Gold Savings durante os feriados. As bolsas também adotaram diversas medidas que podem conter a ampla alta dos mercados globais de metais.
“O ouro está relativamente forte; vejo muitos compradores aproveitando a queda nos últimos dois dias para adquirir joias e barras antes do Ano Novo Lunar”, disse Liu Shunmin, chefe de risco da trader Shenzhen Guoxing Precious Metal Co. “Já no caso da prata, há uma forte inclinação para ficar de fora.”
-- Com a colaboração de Alfred Cang e Winnie Zhu.
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
Bessent reitera política de ‘dólar forte’ um dia depois de Trump mostrar indiferença
©2026 Bloomberg L.P.








