Bloomberg — O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (5), depois que o colapso de um grande banco comercial com vínculos com seu governo mergulhou a nação sul-americana numa turbulência financeira e social.
Os reguladores intervieram no Ueno Bank na madrugada de terça-feira (3), congelando as economias de milhões de paraguaios, incluindo aposentados, e desencadeando protestos generalizados num país em que cerca de uma em cada três pessoas tinha depósitos no banco.
Peña, um aliado-chave do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta um processo de impeachment.
“Faço isso pensando na estabilidade de nosso país, na paz social e na preservação de nossa democracia”, disse Peña num vídeo em que anunciou sua renúncia.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
O Congresso do Paraguai ainda precisa aceitar formalmente a renúncia de Peña, embora possa decidir prosseguir com sua destituição forçada, o que poderia retirar sua imunidade, dependendo de como a Constituição for interpretada.
Se Peña deixar o cargo vago, o vice-presidente Pedro Alliana seria o próximo na linha de sucessão, embora ele também enfrente um processo de impeachment na câmara baixa do Congresso.
Leia também: Colapso de banco no Paraguai abala o país e leva a pedido de renúncia de presidente do BC
A turbulência marca uma mudança tectônica para a nação sul-americana, depois de anos projetando sua estabilidade a líderes mundiais e investidores estrangeiros.
Peña chegou ao poder em 2023, mas facções rivais dentro de seu Partido Colorado, que domina a política do país há várias décadas, viraram-se contra ele na quinta-feira num rápida virada de poder.
Os parlamentares deram início às discussões para o impeachment do presidente na manhã de quinta-feira, quando Horacio Cartes — o poderoso ex-presidente e líder do Partido Colorado — apoiou publicamente sua saída.
A crise crescente pesa sobre os ativos paraguaios. Os títulos do Paraguai caíram ao longo da curva, registrando alguns dos piores desempenhos dos mercados emergentes. Os papéis com vencimento em 2055 caíam cerca de 1,8 centavo, a uma mínima da sessão. A moeda do país, o guarani, caiu 5,2%, sendo negociada a 6.525 por dólar.
O governo Trump forjou laços estreitos com o governo pró-negócios de Peña.
No mês passado, o vice-secretário de Estado Christopher Landau reuniu-se com Peña em Assunção e disse que o Paraguai “desempenha um papel muito fundamental na região” para a diplomacia dos EUA, no momento em que Trump busca aproximar a América Latina.
Após a visita, Peña viajou a Washington e reuniu-se com o secretário do Tesouro Scott Bessent para discutir minerais críticos e cooperação econômica.
O secretário de Estado Marco Rubio, que também se reuniu com Peña, havia elevado o Paraguai à condição de modelo para os aliados dos EUA. A nação sul-americana é o único país da região a reconhecer formalmente Taiwan, uma posição diplomática de longa data que levou a uma relação tensa com Pequim, conforme os líderes paraguaios buscaram se alinhar aos EUA.
O Departamento de Estado não respondeu a um pedido de comentário.
Congelamento de contas
Os reguladores paraguaios fecharam o Ueno Bank na madrugada de terça-feira, após o índice de solvência da instituição despencar. Antes da decisão do banco central, Peña havia minimizado as preocupações com o banco, em cuja holding manteve investimentos até 2025.
Durante a madrugada, a polícia paraguaia entrou em confronto com manifestantes na capital, Assunção, com o aumento das tensões e milhares de correntistas do Ueno sem acesso às próprias economias.
Imagens divulgadas pela imprensa local mostraram policiais com equipamento de choque dispersando manifestantes com gás lacrimogêneo e canhões de água.
“Eles atiraram diretamente em mim. Não estávamos causando confusão, soltando rojões nem os insultando. Estávamos protestando pacificamente”, disse uma jovem em cadeira de rodas à ABC TV.
O Ueno havia acumulado mais de 2,9 milhões de clientes em um país de cerca de 6,1 milhões de habitantes, com 17 trilhões de guaranis (US$ 2,8 bilhões) em depósitos, incluindo cerca de US$ 355 milhões devidos ao Instituto de Previdência Social (IPS).
Os parlamentares aprovaram na quarta-feira (4) uma lei que determina ao banco central acelerar os pagamentos do seguro de depósitos aos poupadores com recursos bloqueados no Ueno Bank. A S&P Global Ratings e a Fitch Ratings rebaixaram a nota de crédito da instituição para nível de default.
Ex-clientes do Ueno Bank lotaram agências de outras instituições financeiras e sobrecarregaram aplicativos bancários na corrida para abrir contas e receber o ressarcimento dos depósitos. Na quarta-feira, o banco central agiu para conter rumores disseminados nas redes sociais que incentivavam as pessoas a retirar dinheiro dos bancos.
“Em resposta a informações que circulam nas redes sociais sobre supostas intervenções no sistema financeiro, o Banco Central do Paraguai afirma que essas alegações são completamente falsas”, disse a instituição em comunicado. A autoridade monetária reiterou que o sistema financeiro apresenta níveis adequados de solvência e liquidez.
A associação bancária Asoban disse que os bancos associados trabalhavam para atender os ex-correntistas do Ueno. Instituições como Banco Familiar Saeca, Banco Itau Paraguay, Banco Atlas e Banco Sudameris Paraguay Saeca disseram nas redes sociais que os aplicativos bancários apresentavam interrupções intermitentes.
Leia também: Crise do Ueno Bank, do Paraguai, deixa clientes sem acesso a contas e trava pagamentos
As agências bancárias permanecerão lotadas nos próximos dias, quando o banco central reembolsar os antigos depositantes do Ueno, disse Alberto Acosta Garbarino, diretor do Asoban e chairman do Banco Familiar, à ABC TV. “Nestes dois dias, terça e quarta-feira, abrimos mais de 50 mil novas contas”, afirmou. “Há muito medo e qualquer boato que circule é como acender uma fogueira em um quarto fechado.”
O banco central afirmou na manhã de quinta-feira que está trabalhando para garantir que os funcionários do Banco Ueno recebam suas indenizações nos próximos dias, à medida que as operações da instituição forem encerradas. Enquanto isso, pequenas empresas também estão se mobilizando para minimizar o impacto sobre seus trabalhadores.
Leia também: Paraguai decola: como o país entrou no radar de Wall St e virou ímã para investidores
Horacio Barchello começou a adiantar salários para muitos dos 25 funcionários de sua empresa de materiais de construção em Assunção que não conseguem acessar seus fundos no Banco Ueno. Barchello, que tem cerca de US$ 10.500 no Banco Ueno, disse que planeja fazer mais negócios com bancos estrangeiros no futuro.
“É muito improvável que algo assim aconteça” com instituições financeiras estrangeiras, disse ele. Barchello começou a retirar dinheiro do Banco Ueno em setembro, quando suspeitou dos incentivos extremamente generosos oferecidos para depósitos. “Eles construíram uma carteira de clientes aproveitando-se da ignorância do povo paraguaio.”
-- Reportagem atualizada para incluir informações sobre a renúncia do presidente Santiago Peña.
Veja mais em bloomberg.com