Com crédito em alta, argentinos se endividam para pagar contas, carros e até festas

Mesmo com inflação menor e PIB em alta, aumento de custos e queda salarial ampliam atrasos e pressionam consumo interno. Indicadores mostram avanço da inadimplência enquanto setores intensivos em emprego seguem em retração

A vendedora Ana Valerio fez um empréstimo em 2024 para ajudar a pagar a festa de 15 anos da filha e acumulou dívida (Foto: Sarah Pabst/Bloomberg)
Por Manuela Tobias
08 de Abril, 2026 | 02:50 PM

Bloomberg — Cristian Dezilio achava que o empréstimo que fez para comprar um carro usado para o filho se locomover nos subúrbios de Buenos Aires era perfeitamente administrável, com parcelas de 355 pesos por mês.

As políticas iniciais do presidente Javier Milei abriram o acesso ao crédito para milhões de argentinos. A inflação anual, que havia atingido um pico próximo a 300%, diminuiu drasticamente e a economia do país voltou a crescer.

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Então, Dezilio ficou para trás justamente quando tudo começou a mudar novamente.

“O preço do frango subiu, o preço do botijão de gás subiu e meu salário começou a diminuir”, disse o pai de quatro filhos. Em dezembro de 2024, “quando fiz o empréstimo, as coisas não estavam tão caras. Na época, eu conseguia pagar facilmente. Agora está se tornando uma batalha árdua.”


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O acesso facilitado ao crédito na Argentina representou uma mudança notável em um país onde ele sempre foi escasso, embora a quantidade disponível ainda esteja muito aquém da média da América Latina.

Mas um novo problema surgiu após uma forte alta das taxas de juros, desaceleração do crescimento econômico e aumento do desemprego no fim do ano passado: Dezilio agora faz parte do crescente número de devedores com dificuldade para pagar suas dívidas.

 Percentual de empréstimos familiares não performáticos

A taxa de inadimplência em empréstimos pessoais fora do sistema bancário — de carteiras digitais a cartões de varejo — subiu para 24% em janeiro, segundo dados do banco central analisados pela consultoria EcoGo, sediada em Buenos Aires.

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Ao mesmo tempo, 10,6% das famílias estão com pelo menos 90 dias de atraso em empréstimos bancários, o maior nível desde o início da série histórica em 2010 e até acima do observado no Brasil, onde o crédito é abundante.

A dívida pessoal hoje equivale a cerca de uma vez e meia a renda dos argentinos, segundo estimativas de Sebastián Menescaldi, diretor da EcoGo.

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A tendência mostra um forte contraste entre as finanças pessoais deterioradas de um número crescente de argentinos e um cenário macroeconômico marcado por dois anos de crescimento, inflação mais baixa e um superávit fiscal obtido com esforço. Isso também ajuda a explicar por que a aprovação de Milei caiu para 36% no mês passado, o nível mais baixo de seu governo.

O acesso ao crédito para consumidores e empresas também aparece como uma das realizações de Milei. Mesmo ainda relativamente baixo em comparação com outros países da região, ele dobrou para 13,6% do PIB desde que ele assumiu o cargo no fim de 2023, segundo dados do banco central.

Argentina está entre os países com pior desempenho em empréstimos privados na América Latina

Mas a alta das taxas de juros em todos os tipos de empréstimos no ano passado pegou muitos consumidores de surpresa.

Por anos, a inflação elevada tornou comum o uso de parcelamentos sem juros como estratégia para preservar o poder de compra, já que o aumento de preços corroía o valor das dívidas. Mas essa “proteção” desapareceu com a desaceleração da inflação.

Enquanto isso, os trabalhadores do setor privado ainda não viram seus salários voltarem aos níveis anteriores ao governo Milei em termos reais, e os do setor público estão cerca de 20 pontos percentuais abaixo.

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Mesmo antes da disparada dos juros, custos fixos como contas de serviços públicos já haviam mais que quintuplicado desde a posse de Milei, reduzindo a renda disponível.

Cortes de subsídios e a desregulamentação de aluguéis, transporte e serviços elevaram essas despesas para cerca de 22% do orçamento das famílias, ante 15%, segundo a consultoria Empiria.

E, antes mesmo de qualquer outro gasto, cerca de um quarto da renda já está comprometido com o pagamento de dívidas.

“As famílias estão começando o mês com grande parte do salário já comprometida”, disse Federico Gonzalez Rouco, economista da Empiria.

Dezilio, que trabalha em uma loja de ferragens industriais em Buenos Aires, sentiu o impacto. No fim do ano passado, ele e a esposa fecharam o pequeno comércio que mantinham para complementar a renda — decisão que ele atribui à queda no consumo entre a classe trabalhadora. Sua esposa agora organiza festas de aniversário infantis.

“As pessoas compravam como se fosse véspera de Natal todos os dias”, disse. “Agora, quando compram, levam só o necessário.”

Isso também reflete o crescimento desigual sob Milei. Agricultura, mineração e serviços financeiros — que empregam cerca de 8% da força de trabalho — cresceram 17% no último trimestre de 2025.

Já setores mais intensivos em mão de obra, como indústria, turismo, comércio e construção, que respondem por cerca de metade dos empregos formais, encolheram 3%, segundo pesquisa do Barclays.

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Dados do governo mostram que empresas cortaram 200 mil empregos formais, cerca de 3% do total, desde que Milei assumiu. A inflação não desacelera desde maio passado, e a guerra no Irã está elevando ainda mais as expectativas futuras.

No subúrbio de Ezeiza, em Buenos Aires, a vendedora Ana Valerio fez um empréstimo em 2024 para ajudar a pagar a festa de 15 anos da filha — uma data marcante na América Latina que costuma ser celebrada com grandes festas. Seu marido, Dario, já havia perdido o emprego quando solicitaram o empréstimo, e no início deste ano ele perdeu outro trabalho em uma fábrica.

A dívida da festa acabou sendo enviada para cobrança.

“Foi aí que a bola de neve começou a se formar”, disse Valerio, mãe de dois filhos que ganha cerca de US$ 1.000 por mês trabalhando em uma loja de departamentos em Ezeiza. “Foi lindo. Toda vez que vejo as fotos, penso: ‘Nós conseguimos’. Mas sei o que isso deixou para trás.”

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