Califórnia elege primeiro governador latino em 150 anos com vitória de Xavier Becerra

Visto como moderado, o democrata venceu com folga uma disputa marcada pela promessa de enfrentar Trump; agora, terá de conduzir a 4ª maior economia do mundo em meio à crise do custo de vida

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Bloomberg — O próximo governador da Califórnia, Xavier Becerra, é um veterano político com 36 anos de carreira — e um enigma.

Ele precisará conduzir a quarta maior economia do mundo por uma dura crise do custo de vida e por ataques incessantes do governo Trump. Mas até autoridades que conhecem há anos o advogado e formado em Stanford, de fala mansa, dizem não ter certeza do que ele fará.

Isso é em grande parte resultado de sua campanha discreta. Depois de sobreviver a uma primária caótica, o democrata em sua maior parte evitou grandes comícios, concedeu poucas entrevistas aprofundadas e fez poucas promessas, além de enfrentar o presidente Donald Trump.

Ele retratou seu adversário republicano — Steve Hilton, ex-comentarista da Fox News e assessor do primeiro-ministro britânico David Cameron — como um acólito de Trump inadequado para a profundamente democrata Califórnia.

Funcionou. Becerra venceu com folga na terça-feira, numa disputa que foi decidida pouco depois do fechamento das urnas.

“Esta noite, tenho uma mensagem para todos aqueles que foram levados a sentir medo: há um novo xerife na cidade, e ele tem um diploma de direito e uma carteira de sindicato”, disse Becerra a apoiadores na terça-feira (3) à noite, em sua celebração de vitória perto de Sacramento.

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Ele se tornará o primeiro governador latino da Califórnia em mais de 150 anos, um marco histórico. E, ainda assim, lhe falta a personalidade maior que a vida de predecessores como Jerry Brown, Arnold Schwarzenegger e Ronald Reagan.

“Ele é um incrementalista por natureza — não é um guerreiro ideológico”, disse Mike Madrid, um estrategista republicano moderado que apoiou Becerra na eleição.

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As ideias de Becerra se aproximam do centro democrata, muito como as do governador Gavin Newsom, que deixa o cargo por limite de mandato.

Becerra pediu restrições não especificadas para a inteligência artificial, a simplificação da cobrança na área de saúde e apoio a hospitais rurais, a redução do custo de construir moradias e a oferta aos moradores de baixa renda de até duas horas por dia de eletricidade gratuita vinda das usinas solares do estado.

“Não vou fazer promessas infladas”, disse Becerra a repórteres em agosto. “Vamos garantir que possamos entregar resultados.”

Becerra terá que brigar com o governo federal em muitas de suas prioridades. Ele gosta de lembrar que, como procurador-geral da Califórnia durante o primeiro mandato de Trump, processou o governo mais de 120 vezes.

Becerra mostrou pouco do talento de Newsom para o teatro político, o que torna uma rusga pública semelhante com Trump menos provável. O presidente rotineiramente ridicularizou o governador como “Gavin Newscum”, enquanto Newsom o enfrentou por causa de operações de imigração e do envio de tropas a Los Angeles, muitas vezes zombando do estilo combativo de Trump nas redes sociais.

“Nunca vi um presidente de nenhum dos partidos que tivesse uma antipatia tão visceral pela Califórnia”, disse a ex-senadora Barbara Boxer. “Mas também não dá para alienar totalmente o Poder Executivo. O desafio será equilibrar essa linha.”

Quem é Xavier Becerra, governador eleito da Califórnia

Nascido em Sacramento num lar de imigrantes da classe trabalhadora, Becerra foi o primeiro membro de sua família a se formar na faculdade, ingressando na Universidade Stanford em 1976.

Dennis Romero o conheceu no primeiro ano, quando ambos moravam na Casa Zapata — um alojamento para estudantes latinos onde os moradores decoravam as paredes com pôsteres de Che Guevara e Cesar Chavez.

“Havia pessoas ativamente raivosas”, disse Romero, hoje advogado no Novo México. “Eu não incluiria Xavier nesse grupo. (...) Ele não era tão radical, mas bastante expressivo e solidário aos trabalhadores rurais e à política ativista de esquerda.”

Depois de se formar na Faculdade de Direito de Stanford em 1984, ele passou vários anos trabalhando para o procurador-geral do estado antes de ser eleito para a Assembleia da Califórnia em 1990, representando parte do condado de Orange.

De lá, deu o salto para a Câmara dos Representantes dos EUA em 1993 e permaneceu por 24 anos antes de retornar ao governo da Califórnia como procurador-geral. Mais recentemente, atuou como secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA sob o presidente Joe Biden.

Quem o conhece diz que, apesar de todos os seus anos no cargo, suas visões continuam moldadas por sua infância operária. Ele enfatizou essas raízes na campanha, dizendo que queria nivelar o campo de jogo para os californianos.

Nas últimas semanas, ele esteve mais visível em anúncios de televisão atacando uma proposta em plebiscito estadual que exigiria que os cidadãos apresentassem identificação para votar, uma medida que os democratas temem que retiraria o direito de voto dos moradores de baixa renda. Nos primeiros resultados da apuração, a proposta parecia caminhar para a derrota.

“Ele acredita muito que há uma justaposição de realidades domésticas básicas por todo o país e que a mesa não está nivelada”, disse Melanie Fontes Reiner, executiva de saúde pública que trabalhou com Becerra na procuradoria-geral e em seu cargo federal. “Isso tinge tudo o que ele faz.”

Apesar de seu currículo, a candidatura de Becerra ao governo inicialmente parecia improvável. A decisão da ex-vice-presidente Kamala Harris de não concorrer deixou um campo lotado de nomes democratas com dificuldade de consolidar apoio.

O congressista da região da Baía Eric Swalwell despontou como favorito, apenas para ser forçado a deixar o cargo por acusações de má conduta sexual. Isso deixou Becerra e o bilionário exaltado Tom Steyer disputando os votos democratas.

Becerra, visto como a escolha mais moderada, prevaleceu, enquanto Hilton recebeu o apoio republicano na primária aberta da Califórnia, avançando para a eleição desta semana.

Ao contrário de Steyer, que apoiou o proposto imposto sobre a riqueza do estado, Becerra cortejou líderes empresariais, tornando-se o primeiro democrata a conquistar o endosso da Câmara de Comércio da Califórnia para o governo.

Empresas que doaram o máximo de US$ 39.200 à sua campanha incluíram o Google, da Alphabet, a Chevron e a Hudson Pacific Properties. A Meta Platforms doou US$ 1,2 milhão a comitês de gastos independentes que apoiavam a campanha de Becerra, enquanto a Uber Technologies Inc. deu US$ 1 milhão.

“A Câmara pode levar muito mais crédito que os sindicatos” pela vitória de Becerra, disse Madrid. Muitos dos poderosos sindicatos do estado, observou ele, haviam apostado tudo em Steyer. “Mas ele está numa posição única”, em que ainda não precisa ser muito específico, disse Madrid. “Ele não deve favores a ninguém, o que é bastante notável.”

Numa lista de 11 prioridades de política na página de Becerra, a saúde vem em primeiro lugar — o que não surpreende, dado seu recente cargo federal. Ele está particularmente focado em manter o seguro para as pessoas afetadas por cortes de financiamento federais e estaduais.

Embora ofereça poucos detalhes sobre como cobrir esses custos, ele diz que quer extrair economias de todo o sistema de saúde, por exemplo, ao assinar acordos de compra conjunta com outros estados para adquirir medicamentos, aumentando seu poder de barganha para negociar melhores preços.

A moradia aparece em terceiro lugar em sua lista, logo depois de “enfrentar Donald Trump”. Ele estará dando sequência a uma promessa fracassada de Newsom em 2019 de construir 3,5 milhões de novas moradias até 2025 e aliviar a escassez habitacional num estado com alguns dos imóveis mais caros do país.

Numa visita recente a um canteiro de obras de habitação modular perto de San Francisco, Becerra defendeu uma medida que levantaria mais de US$ 11 bilhões com a venda de títulos para financiar moradia popular, dizendo que “coloca dinheiro nas mãos dos incorporadores para projetos que já fecham as contas”.

Ele também quer cortar taxas impostas pelas cidades e ampliar a assistência para a entrada no financiamento.

Mas, no fim das contas, Becerra enfrenta muitas forças que estão além de seu controle, disse Jerry Brown, que foi governador da Califórnia em quatro mandatos não consecutivos que remontam aos anos 1970. Tarifas e guerra, por exemplo, pressionam os preços ao consumidor, disse ele.

“Você acha que o governador da Califórnia pode baixar os preços da saúde?”, disse Brown numa entrevista. “Todas essas coisas estão embutidas em nossa economia capitalista, que só em grau limitado está sujeita à regulação estadual.”

Brown sugeriu que a ausência de grandes promessas de campanha de Becerra pode refletir cautela numa economia incerta. A estrutura tributária da Califórnia torna o orçamento do estado particularmente propenso a altos e baixos.

“Eu imagino que seja por isso que ele não assumiu muitas posições políticas diferentes, porque não está claro que tipo de dinheiro ele terá”, disse Brown.

A incerteza do momento pode, no entanto, ser uma das razões pelas quais os californianos escolheram Becerra em vez de Steyer e Hilton, ambos os quais adotaram tons mais ousados e populistas na campanha.

“Ele é um cara inteligente, equilibrado e gente boa, com bons valores”, disse Lorena Gonzalez, líder da Federação de Sindicatos Trabalhistas da Califórnia, que inicialmente apoiou Steyer. “Isso é assim tão ruim?”

-- Com a colaboração de John Gittelsohn.

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