Bloomberg — Quando o mundo político brasileiro se reúne em Brasília, às vésperas da eleição presidencial de 4 de outubro, o que ocorre nos prédios do governo é apenas uma parte da história.
Algumas das conversas mais importantes do país acontecem nas mesas dos restaurantes. Ministros se reúnem em almoços de trabalho, e legisladores sondam aliados durante o jantar, enquanto lobistas cortejam clientes e jornalistas buscam informações entre um prato e outro.
Isso torna a época de eleições a desculpa perfeita para prestar atenção à cidade gastronômica mais subestimada do Brasil, há muito tempo considerada apenas um conjunto de prédios governamentais e da arquitetura modernista de Oscar Niemeyer. Por algumas semanas, várias das salas de jantar da capital tornam-se extensões dos gabinetes dos políticos.
Cada grupo político tem seus restaurantes favoritos, desde instituições tradicionais onde os legisladores fecham acordos há décadas até os bares de samba populares entre os membros do Partido dos Trabalhadores, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e as churrascarias frequentadas por políticos conservadores.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Sessenta e seis anos após a inauguração da capital, seus restaurantes são tão diversos quanto o país, especializados em servir peixes da Amazônia, comida caseira com toques africanos, carnes grelhadas e cardápios de inspiração japonesa, ao lado de uma lista internacional cada vez mais ampla.
Leia também: Chablis vira fenômeno de vendas no Brasil, e produtores dizem que avanço é só o começo
E como Brasília foi projetada em torno de zonas — os bancos têm uma, os hospitais outra, etc. — é fácil se integrar ao principal setor gastronômico da cidade, que se estende pelos quarteirões de Asa Sul e Asa Norte, as duas alas do traçado meticulosamente planejado da capital que imita um avião, e pelo Lago Sul.
Novidade: Hakko, Asa Norte
O que começou como um food truck de culinária brasileiro-asiática administrado por três amigos — Gabriela Tamada, Henrique Moddus e Guy Ferreira — agora tem um endereço fixo no animado bairro gastronômico da Asa Norte.
O cardápio compacto combina com o ambiente intimista, com cozinha aberta, um balcão com bancos e algumas mesas que se estendem até a calçada. (Se forem duas pessoas, considerem pedir tudo o que está no cardápio.)
Os pratos do Hakko combinam técnicas japonesas e ingredientes brasileiros. O “mini milho” é uma excelente entrada com texturas variadas e sabor fresco, uma combinação de milho-bebê grelhado servido sobre purê de cebola caramelizada, acompanhado de couve-flor e quiabo torrado (R$ 42).
Os gyozas são recheados com pescoço de porco suculento e gorduroso (R$ 46) e combinam muito bem com o viciante tempurá de cogumelo enoki, servido com molho de curry doce e picante (R$ 42). O prato que rouba a cena são as coxas de frango regadas com um molho vibrante de vinagre balsâmico e yuzu kosho (R$ 52) — um prato que faz sujeira, mas é divertido.
A pequena carta de bebidas limita-se a refrigerantes brasileiros, chás gelados japoneses e Coronas geladas. O atendimento ainda está se ajustando; espere que seja lento nos horários de pico (que são frequentes).
Negócios: Lake’s, Lago Sul
Poucos restaurantes de Brasília têm uma energia política mais forte do que o Lake’s. Desde 1996, esse local descontraído tem sido um dos favoritos dos formadores de opinião da capital, e não é incomum avistar um legislador ou ministro do governo desfrutando de um almoço sem pressa.
Leia também: Brasileiros retomam viagens à Argentina e mudam perfil do turismo em Buenos Aires
Cadeiras confortáveis e grandes mesas de madeira preenchem a espaçosa sala de jantar, onde janelas do chão ao teto se abrem para vistas arborizadas que fazem com que o espaço pareça surpreendentemente isolado, apesar de estar situado em uma das áreas gastronômicas mais movimentadas da cidade.
O extenso cardápio tem suas raízes na culinária caseira brasileira, desde o clássico corte de carne picanha até pratos de peixe fresco e frutos do mar, acompanhados por uma boa seleção de vinhos, com destaque para garrafas do Chile, da França e de Portugal.
Entre as diversas opções de sobremesas, opte pelo pudim (R$ 33), a versão brasileira sedosa do pudim de caramelo, ou pelo petit gâteau com sorvete (R$ 52). O Lake’s acerta sempre em cheio no bolo de chocolate derretido, com um recheio que parece ainda mais cremoso do que o habitual.
O local está aberto sete dias por semana, e os sábados são dedicados à feijoada e às caipirinhas de limão. O substancial ensopado de feijão preto com carne de porco é um dos pratos mais apreciados do Brasil, e o Lake’s o serve com os acompanhamentos essenciais: tigelas de arroz branco, farofa (mandioca torrada), couve refogada e fatias de laranja, cuja acidez contrasta com o prato extremamente encorpado (R$ 161).
Sem reservas: Bloco C, Asa Sul
Ocupando dois andares equipados com mesas cobertas por toalhas brancas impecáveis, além de uma área ao ar livre, o Bloco C é espaçoso o suficiente para receber clientes sem reserva. O chef Marcelo Petrarca — um dos restaurateurs mais conhecidos da capital — serve clássicos regionais revisitados, além de alguns pratos europeus.
No almoço, o PF do Chef oferece uma versão sofisticada do prato feito, a combinação econômica e simples de arroz, feijão, bife, batata frita e ovo que há muito tempo alimenta os trabalhadores brasileiros (R$ 98). Os moradores locais discutem incessantemente se o strogonoff fica melhor com frango ou filé mignon, mas o Bloco C tem uma opinião bem definida.
Leia também: Como o espumante brasileiro virou um dos melhores do mundo, segundo líder do mercado
Aqui, o estrogonofe aposta tudo no filé mignon macio, coberto por um molho rico e aveludado e servido com arroz branco fofo e uma generosa porção de batata palha caseira crocante (R$ 99), para oferecer um contraste salgado e crocante.
Os frequentadores assíduos também têm um truque infalível: pedir o bife da casa com risoto de Grana Padano (R$ 155) do cardápio do jantar no almoço. A rapadura ralada, o tradicional açúcar de cana brasileiro, substitui as lascas habituais de parmesão e confere uma doçura escura memorável e penetrante.
Mas, se há um prato que deve ser pedido no extenso cardápio, é o pastel de queijo cremoso (R$ 66). A versão do Petrarca para esse clássico da comida de rua apresenta o pastel frito regado com mel de trufas, e é tão indulgente quanto parece.
Leia também: Ofertas e hospitalidade: McDonald’s reformula estratégia para estimular vendas nos EUA
O bar é especializado em clássicos como Negronis e Bloody Marys (por cerca de R$ 40 cada). Já as caipirinhas vêm em sabores que variam de lichia a uva com manjericão. O bolo de cenoura brasileiro (R$ 47), que tem pouca semelhança com sua versão americana, vem coberto com uma rica cobertura de brigadeiro.
Custo-benefício: Madre Teresa Deli, Taguatinga
Longe dos edifícios governamentais sofisticados de Brasília, dentro de uma casa discreta com uma minivan estacionada de alguma forma no interior, ao lado de paredes cobertas com imagens católicas e obras de arte irreverentes, encontram-se os hambúrgueres mais famosos da capital. E os preços também são razoáveis.
A maioria das pessoas pede uma porção de batatas fritas para começar. Especificamente, o TaguaYork (R$ 59): batatas cortadas finas recheadas com pastrami, creme azedo e chimichurri, servidas com uma poça de queijo derretido com temperos indianos para mergulhar.
Leia também: Turismo religioso na América Latina: os destinos que recebem milhões de peregrinos
Em seguida, vêm os hambúrgueres. Das cerca de 10 opções, o homônimo “Madre Teresa” é a escolha óbvia para começar: um hambúrguer de Angus coberto com molho ranch, paneer, bacon, alface e tomate. O “Santa Cruz” é outro favorito do público, coberto com bacon glaceado com cana-de-açúcar para produzir um toque de doçura distintamente terroso.
Para quem não está em uma “peregrinação” em busca de hambúrgueres, a cozinha também oferece sanduíches como o “13 de Maio” (R$ 88), recheado generosamente com pastrami, queijo derretido e picles picantes, enquanto cortes de carne como a entraña (bife de fraldinha) e o asado de tira (costela) custam R$ 159 cada e saem direto da parrilla, com sabor defumado e levemente chamuscados nas bordas.
A lista não convencional de bebidas inclui um refrigerante de pipoca surpreendentemente bom (R$ 18). A Madre Teresa Deli também oferece uma variedade de cervejas, incluindo a “Sour” (R$ 22), uma cerveja ácida e com sabor frutado. Outra dica: peça uma fatia do banoffee da casa (R$ 43) assim que se sentar. Feita com banana, doce de leite, crumble e chantilly, a sobremesa emblemática do restaurante costuma esgotar-se antes do fim da noite.
Jantar: Taypá, Lago Sul
O Taypá tem sido um dos principais destinos da cidade para a culinária peruana desde que o chef Marco Espinoza inaugurou seu intimista restaurante em 2010, no arborizado e abastado bairro do Lago Sul. O local conquistou um público fiel, entre outras coisas, por sua seleção de pisco, com destaque para um sour clássico impecavelmente equilibrado (R$ 46). O Ginger Taypá (também R$ 46), uma mistura perfumada de pisco, gengibre, toranja e um xarope misterioso, é o favorito da casa.
O chef Espinoza é especialista em frutos do mar, e o emblemático ceviche Taypá (R$ 152) permite que os clientes escolham quatro das sete opções da casa — certifique-se de que uma delas seja o notável ceviche crioulo, que tem como protagonistas peixe branco, polvo, lula e camarão em uma vibrante “leche de tigre” de coentro verde, finalizada com tempurá de cebola crocante. Como contraponto quente, as yuquitas (R$ 135) são croquetes crocantes e dourados de mandioca recheados com queijo.
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
Crise aperta varejo de construção, que aposta no digital para evitar mais fechamentos