Em crise, restaurantes de NY desligam ar-condicionado e cortam horários para sobreviver

Dados do mercado de alimentação e bebidas mostram que o estado registrou no primeiro trimestre de 2026 uma queda líquida anual no número de estabelecimentos superior até à observada durante a pandemia

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Bloomberg — Os restaurantes da cidade de Nova York estão ficando sem maneiras de superar a inflação.

O CakeBurgers, restaurante no East Harlem que serve hambúrgueres e bolos em formato de hambúrguer, desligou o ar-condicionado — mesmo com as temperaturas na cidade neste verão ultrapassando rotineiramente a casa dos 30 °C — depois que a conta de gás e luz disparou para US$ 1.400 por mês.

Frank Scotto, proprietário de vários bares no bairro entre Chinatown e Midtown, viu os prêmios de seu seguro de responsabilidade civil quintuplicarem em quatro anos em um de seus estabelecimentos, chegando a US$ 24 mil por ano.

Durante anos, Scotto orgulhou-se de seus preços baixos e resistiu a aumentá-los, apesar dos custos crescentes. Após a temporada de festas, ele planeja aumentar os preços das bebidas alcoólicas em até 15%, ou cerca de US$ 1 por uma lata de cerveja, na tentativa de compensar a diferença.

Até mesmo restaurantes de luxo, onde as vendas continuam fortes, estão com dificuldades para se manter à tona. John Meadow, proprietário do Scarpetta, fecha alguns de seus outros estabelecimentos aos domingos para conter as despesas, já que os salários e prêmios de seguro em alta pressionam suas margens de lucro.

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A pressão sobre esses negócios faz parte de uma crise mais ampla de acessibilidade financeira que afeta empresas e famílias nos Estados Unidos e está abalando as eleições de meio de mandato.

E embora a guerra no Irã e as tarifas do presidente americano Donald Trump tenham elevado os preços dos combustíveis e de outros bens, esses não são os únicos pontos críticos.

Para as pequenas e médias empresas em toda a cidade de Nova York, o aumento dos prêmios de seguro, das taxas de juros e dos salários está corroendo os lucros.

Aumentos recentes nos custos de energia, de planos de saúde e nos impostos municipais sobre as empresas superaram as tendências nacionais, de acordo com um relatório de agosto do Controlador do Estado de Nova York, Thomas DiNapoli.

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Essa onda de aumentos incessantes forçou alguns bares e restaurantes a se esforçarem ao máximo para manter as portas abertas, enquanto novos estabelecimentos têm enfrentado dificuldades para decolar.

No primeiro trimestre de 2026, o estado de Nova York registrou a maior queda líquida ano a ano no número de estabelecimentos de alimentação e bebidas em pelo menos 36 anos de dados do Bureau of Labor Statistics, superando até mesmo a queda mais acentuada ocorrida durante a pandemia de covid-19. Muitos estabelecimentos gastronômicos estão focados não em como podem crescer, mas em como podem sobreviver.

“Sempre que conversamos com nossos associados sobre essa questão ou sobre o setor em geral, eles nos dizem que estão sofrendo uma morte por mil cortes”, afirmou Melissa Fleischut, diretora executiva da Associação de Restaurantes do Estado de Nova York. “A ideia de que eles estejam pensando em três anos à frente, cinco anos à frente, simplesmente foi pelo ralo. Eles estão pensando, talvez, se tiverem sorte, em três semanas à frente.”

Para Evette Zayas, que é proprietária do CakeBurgers junto com o marido, a matemática é implacável. Ela não recebe salário desde o início da pandemia e faz a maioria das suas refeições no próprio estabelecimento.

“Cada centavo conta, nem se fala em dólares”, disse ela. “Sou dona de um restaurante, então como hambúrgueres.”

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Aumento gradual dos custos

A ansiedade em relação ao aumento do custo de vida tornou-se um fardo político para Trump, que voltou ao cargo prometendo controlar a inflação. Seis em cada dez americanos afirmaram neste verão que suas políticas econômicas pioraram a situação, de acordo com o Pew Research Center.

No entanto, muitos dos custos mais elevados com que as empresas de Nova York estão lidando vêm aumentando há algum tempo. A Câmara de Comércio de Manhattan constatou que os custos com seguro saúde dos funcionários aumentaram 12,9% no ano passado para as empresas de serviços da região de Nova York, enquanto os custos com serviços públicos subiram 8,5%, o seguro empresarial aumentou 7% e os salários e remunerações subiram 3,4%. A câmara estimou que as tarifas estão custando às pequenas empresas da região metropolitana US$ 4,5 bilhões por ano.

“Chegamos a um ponto em que a duração da inflação e os custos elevados associados às tarifas significam que aumentar os preços é uma decisão empresarial sensata”, afirmou Jessica Walker, presidente da Câmara de Comércio de Manhattan.

Algumas empresas menores estão fazendo o que podem para reduzir suas despesas. Na CakeBurgers, Zayas agrupa os alimentos em menos geladeiras durante a noite para economizar energia.

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No entanto, a carne moída, que custava cerca de US$ 7 por quilo no início deste ano, subiu para até US$ 10. E os aplicativos de entrega cobram até 30% em taxas sobre seus pedidos, disse Zayas. Há um limite para o quanto o aperto no cinto pode ajudar.

Outros donos de restaurantes afirmaram que o aumento da fiscalização e da regulamentação também está lhes custando dinheiro. Scotto disse que tem recebido mais “notificações por perturbação, taxas e multas” desde o início da pandemia. Recentemente, ele recebeu uma multa de US$ 6 mil por um toldo de dimensões excessivas, e espera conseguir que o valor seja reduzido para US$ 1.200.

Um porta-voz do prefeito Zohran Mamdani afirmou que sua administração está trabalhando para reduzir multas, taxas e burocracia para pequenas empresas, inclusive por meio da criação de um “Czar das Pequenas Empresas Familiares” para atender às preocupações daquelas com menos de 10 funcionários.

Meadow, fundador e presidente da LDV Hospitality, que possui cerca de 20 estabelecimentos, incluindo o Scarpetta, afirmou que “o custo de se fazer negócios nunca foi tão elevado”.

Construir um restaurante, que antes custava cerca de US$ 700 por pé quadrado, agora custa pelo menos US$ 1.000, disse ele, com os gastos com materiais, os obstáculos burocráticos e a mão de obra disparando.

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Um projeto no Aeroporto Internacional John F. Kennedy acabou custando cerca de US$ 3 mil por pé quadrado, em grande parte devido aos custos com mão de obra, afirmou ele. Ainda assim, Meadow disse que está seguindo em frente com os planos de abrir até sete novos restaurantes ao longo do próximo ano.

Em alguns de seus restaurantes já existentes, Meadow eliminou turnos de baixa movimentação, incluindo alguns brunchs, o que lhe permitiu reduzir a folha de pagamento nos períodos de menor demanda. Seus restaurantes em hotéis apresentam melhores economias de escala, pois vários estabelecimentos podem compartilhar a equipe.

Pedágios e taxas

A pressão vai além dos restaurantes. A cidade de Nova York perdeu, no total, 4.300 empresas no ano passado, o maior declínio desde os fechamentos provocados pela covid em 2020, de acordo com a Corporação de Desenvolvimento Econômico da cidade.

Na Carmel Car & Limousine Service, o diretor executivo Avik Kabessa afirmou que combustível, mão de obra, seguro, veículos e peças representam apenas uma fração do problema. A taxa de congestionamento para viagens a Manhattan, as taxas aeroportuárias e outros pedágios em alta elevaram o preço de algumas corridas em até 15%. Só uma taxa de congestionamento de US$ 3,50 acrescenta cerca de 7% a uma corrida de US$ 50, disse Kabessa.

O número total de passageiros da Carmel caiu cerca de 3% este ano, disse Kabessa. Os motoristas, a maioria dos quais possui veículos próprios, estão sofrendo com a redução no número de viagens e sentindo o impacto do aumento dos preços na bomba. Cerca de 3.000 motoristas trabalham com a Carmel, disse Kabessa.

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As creches nos subúrbios que cuidam dos filhos dos passageiros também estão enfrentando um aumento nos custos. O JCC Mid-Westchester, em Scarsdale, que atende a mais de 25 mil pessoas por meio de atividades após a escola, acampamentos e programas culturais, registrou aumentos de até 15% nas contas de energia, salários, seguro saúde e custos de segurança ao longo do último ano, e elevou as taxas de matrícula em cerca de 5% para compensar.

O centro tenta evitar simplesmente repassar essas despesas às famílias, afirmou Elise Dowell, sua CEO. Ele continua a oferecer programas gratuitos e de baixo custo, além daqueles que cobram valores de mercado, e está recorrendo cada vez mais a doações beneficentes para compensar a diferença.

Ao mesmo tempo em que as empresas avaliam como administrar seus custos crescentes, muitos nova-iorquinos estão tendo dificuldades para lidar com os seus e estão reduzindo seus gastos sempre que possível.

Khyla Duarte paga US$ 3.500 por mês pela creche de seus dois filhos, o que lhe deixa com pouco dinheiro para gastar em restaurantes. Numa quarta-feira recente, ela e duas colegas de trabalho estavam dividindo uma pequena porção de batatas-doces fritas para o almoço no The Hugh, uma praça de alimentação em Midtown que é popular entre os funcionários de escritórios.

Naquela manhã, Duarte havia se dado ao luxo de comprar um bagel e ovos por US$ 7 no café da manhã, o que, segundo ela, costumava custar US$ 4. Ela não estava disposta a gastar mais no almoço.

Suas colegas, que trabalham na W!se, uma organização sem fins lucrativos que promove educação financeira, tinham todas trazido comida de casa. Até há dois anos, elas costumavam comer fora todos os dias em que estavam no escritório.

“Como fora uma vez por semana, se tanto”, disse Duarte, de 29 anos, que paga cerca de US$ 28 por dia em passagens de ida e volta no transporte público para ir do trabalho em Long Island até o escritório. “A alimentação é uma das coisas sobre as quais temos mais controle quando se trata de gastos.”

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